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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ao som de Sting

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.15
If You Love Someone Set Them Free soa bem na voz do Sting, mas não deixa de ser uma tontice.

O Amor inclui uma indiscutível vontade de posse que, inerente ao sentir, provoca uma encapotada e inconveniente impureza, entregando ao nobre sentimento marcas sacanas e pouco recomendáveis, declarando-o desonesto.

Nada há de mais banal do que procurar espantar à paulada os pombos a quem o ser amado distribui migalhas, apenas porque nos queremos únicos destinatários de todas as acções que o amado ser executa, esquecendo que nos deverá informar primeiro do destino de todos os seus gestos. Queremos as migalhas, sobretudo as migalhas que ele entrega e espalha no chão da vida, porque os actos de maior envergadura já devem ter passado, subtil ou declaradamente, consciente ou inconscientemente, real ou ilusoriamente, pelo nosso escrutínio e pelo crivo da nossa opinião.

 

Temos de ter tudo no Amor!

 

Desejamos, ainda que secretamente, que o ser sujeito à nossa avidez acabe destituído de independência, reservando pedaços gigantescos da alma para que os ocupemos, mesmo sabendo que depois não resistimos à tentação de penetrar nos jardins sombrios onde cada um de nós planta flores carnívoras.

Não adianta contrariar, negar, barafustar ou colocar bandeiras brancas nas janelas reveladoras da nossa mais pacata inocência ou ignorância. Somos, no Amor, desonestos e arde-nos no peito a exigência calada e secreta de posse completa do ser que tombou desprevenido na alma danada que se encapela apaixonada.

Não adianta negar o facto esbracejando e acenando com noções iluminadas de Liberdade e de Direitos. Com maior ou menor intensidade, somos tiranos mesquinhos quando o coração toma o poder asfixiando a razão pura e dominando o pensamento lógico e mais civilizado.

Do fundo dos tempos chega-nos o despertar troglodita que nos incute a vontade de Ter, de Possuir, a alma inteira da nossa mais amada vítima ou dela ocupar o maior número de recantos.

No amor se não se pode ter tudo, valerá a pena querer outra coisa?

 

Mas o que escapa a esta longa toada é um facto curioso, imprevisto pelo agente da passiva presa:

No exacto momento em que em nós é iniciada a avidez da fome de alma alheia, principia, de forma mais subtil, a gradual e incómoda dádiva da nossa própria alma e o desejo fabuloso e quase utópico de sermos possuídos por completo.

É nesta azáfama de tontos que o Amor se torna desonesto. Não há entregas gratuitas, há apenas extorsão, roubo, usurpação e falcatrua.

 

Abençoado será o consumado ladrão que se deixar pilhar. 

 

Foto - Saul Leiter - 1957

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A Gaffe no silêncio

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.15

casa.jpgA superfície deste lugar presa na pele quebra devagar a película que o envolve, como folha de cristal, como fina folha de cristal por sobre a pele.

 

Entendo agora a mais distante segurança que é entregue aos que escolheram o refúgio da casa onde o tempo esquálido flutua. Entendo agora os degraus do silêncio e os socalcos. Esta espécie de felicidade em nada ter, porque se tem à tona da pele o imenso engano da quietude fria.

Nada se move. Nada. Os dias são os dias já passados e nas madrugadas as árvores escondem o sussurrar do vento, o tilintar da chuva ou a luz que interrompe as frestas da penumbra, os rasgos de ruído pelas pedras. Entendo este lugar, porque o tenho pousado levemente sobre a alma.

 

O meu lugar é onde se ouve o silêncio a descer escadas.

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