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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pelo caminho

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.15

323.jpgHá pequenos episódios na minha vida de rapariga saudável que me deixam perplexa.

Gosto de muito sair com o homem que neste momento partilha comigo coisas que não devo partilhar com mais ninguém. Uma mulher aprecia uma opinião acerca do que pretende comprar e eu costumo parar a lamber montras, sempre que a oportunidade surge e o tempo permite.
Acontece que nestas incursões esporádicas em que o homem me acompanha, fico bastantes vezes parada sozinha em frente dos vidros que me separam do paraíso. O meu matulão continua a andar sem sequer fazer sinais de luzes. É desagradável por duas grandes razões:

1 – Corro o risco de comentar os custos a um transeunte desconhecido que entretanto foi atraído pelas razões que estão expostas com os preços colados.

2 – Quando começo a andar já a espirrar fogo pelo nariz, o homem não espera por mim e vejo-me obrigada a seguir o macho que nem sequer abranda o passo tão absorvido vai pela leitura dos periódicos.

Este seguir o homem como se segue um dono, para além de aborrecer e ser contra a abençoada natureza, faz com que as relações terminem rapidamente. Quando um senhor dá conta que já leu o artigo de opinião que o leva a esquecer as nossas pausas lambe-montras, deveria perceber simultaneamente que já não tem mulher.
As nossas interrupções são sagradas.
 
Temos o direito ver os homens parados e basbaques a concordar connosco acerca da silhueta Primavera/Verão 2016 proposta pelos costureiros ou suspender a leitura doTimes sempre que nós, mulheres modernas e que antecipam as notícias com honras de primeira página, nos deparamos com uns sapatos dignos de princesas por falir.
Temos o direito a ser fúteis. A parar em todas as montras que quisermos e a criticar os preços e a qualidade da malha do Armani que, mal entra na máquina de lavar, encolhe e passa a servir à Barbie.
Temos o dever de exigir que os homens parem onde sabemos que a futilidade e a superficialidade tem lugar cativo e devemos obrigar os machos a colaborar connosco na escolha do creme de noite Shiseido The Skincare mais apropriado à nossa pele.
Temos a obrigação de os enfiar nas lojas onde as rendas da lingerie parecem noivas saídas dos contos de fadas e devemos ter sempre presente que não basta ensiná-los a mudar um pneu, a reconhecer a qualidade de um processador ou a compreender o funcionamento de um acelerador de partículas.
Temos de os obrigar a andar ao nosso lado e, se não for possível esta aprendizagem simples, há que os puxar pela manga e ultrapassar na rua, pois que no resto os pobres vão sempre tão atrás.

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