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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe rente ao chão

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.15

São um casal maduro.

 

Ele, com uma barriga imponente e empinada de alemão grande, robusto e ruivo, de cabeça erguida e desdenhosa, com mãos moles a abanar ao longo do corpo que se move compassado e marcial.

Ela, sempre atrás, miudinha, franzininha, de passinho saltitante e latino, de cabelito grisalho, vai debicando quem passa ou fica enternecida ao ver o pincher da senhora gorda e oxigenada que se esquece do bicho e quase o esgana quando levanta o braço num arranjo distraído do cabelo e lhe puxa a trela segura no pulso.

 

Nunca os vi lado a lado. Nunca os vi a trocar uma palavra.

 

Passa bamboleante o gordo alemão com o latina pela trela todas as tardes por mim.

Perco-me a segui-los com os olhos até os ver desaparecer sempre na mesma loja de bugigangas. Observo-os, porque preciso de sentir o que quer que seja e a avidez com que me repugna a visão dos dois ocupa-me algum tempo.

Ela, magrinha pela trela, sorriu-me hoje. Abanou a cabecinha como se tivesse pousada nela a cabeleira da Fawcett e sorriu-me. Assustadiça, a olhar de esguelha para o mastodonte que marchava mole à sua frente.

 

Apeteceu-me tanto erguer a mão e de punho fechado espetar o dedo médio, enfiar-lho dentro daquele peito, para por dentro e com ele cravado ali, a levantar do chão!

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A Gaffe oceânica

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.15

John Rawlings 1953.jpgÀ minha frente tenho o mar e o meu corpo fala do azul das águas das piscinas, como se próximo da minha alma houvesse a eternidade e eu tivesse escolhido viver uma equação menor.

 

Talvez seja assim que tudo morre. Com a vontade imensa de Oceano presa num aquário de cristal partido.

 

Foto - John Rawlings,1953

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A Gaffe leitora

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.15

a-elegancia-do-ourico.jpga-elegancia-do-ourico.jpg

Li há algum tempo uma entrevista implicante em que do alto da sua resmunguice blasé António Lobo Antunes declarava que os únicos livros importantes são os que nos modificam a vida.

Não faço ideia, minúscula que sou, se o escritor se referia àqueles, muitos, que nos vão com subtileza acrescentando ou surripiando pedaços à alma ou se mencionava os dele e uns poucos mais, dignos de inclusão neste supostamente claríssimo critério.

Sei , definitivamente sei, que existe um livro que me altera a vida todas as vezes que o abro e sofro o impacto brutal do que tem dentro. É sem dúvida o meu livro de eleição, batendo sem a mais ténue dificuldade o meu amantíssimo Proust.

O Livro do Desassossego de Pessoa.

Foi dentro desta ferida colossal que encontrei a frase mais extraordinária que conheço e que só por si elevaria o autor ao estatuto de génio.

 

A minha vida é como se me batessem com ela.

 

Sei que nunca li nada tão universal e acredito piamente que este monumento, mesmo isolado, deveria ser considerado património da humanidade.

 

Se Lobo Antunes se referia apenas a impactos destes, já não sei.

Sei contudo que há obras que não possuindo, nem em sombra, a dimensão pessoana – quem a tem?! – e não provocando sismos e catástrofes, avalanches ou tsunamis, conseguem fazer tremelicar o que temos com certo, permitindo-nos a grandeza de questionarmos o que pensamos ser e o que realmente somos.

Falo de dois.

Não teço considerações literárias, não me atrevo à crítica do género, porque perante um livro sou apenas a que o lendo o reescreve. Mostro-vos os títulos apenas. Indico autores. Acredito porém que quando os abrimos, há pequenas almas dentro da nossa que se movem.

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