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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de uma Mulher

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.15

Maria Bethânia.jpgCreio que sempre tive receio de falar de Maria Bethânia.

Mas fui vê-la e ouvi-la ao Coliseu.

 

A senhora está cada vez mais parecida com o irmão. Se Caetano Veloso enfiasse uma peruca desmesurada, se usasse túnicas brancas longas e largas presas com sereias na cinta, seria Bethânia numa versão mais bonita e, não neguemos, Caetano parece ser do tempo em que os homens construíam pirâmides.  

No entanto, mal esta mulher pisou o palco, a brutalidade do talento, a madura elegância esguia, o desenho de cada gesto feito, o balanço quase frágil, quase duro, do corpo que acompanha numa subtileza intacta e inata as palavras ditas e cantadas, fazem de Bethânia uma das mulheres mais belas que eu vi.  

 

Bethânia é belíssima.

 

Ao longo do desenrolar desta voz percebo lenta e morna a barbaridade que foi a acusação de anti-feminismo que demasiado jovem sofreu por cantar a dor de corno de mulheres abandonadas. Creio que as imbecis imputações chegaram de criaturas iguais àquelas que da mesma forma condenaram Brel por cantar uma das mais perfeitas canções que foram escritas, Ne Me Quitte Pas, porque o poema revelava implicitamente ser anti-feminista.

A idiotice encontra campos impensáveis para desovar.

 

Bethânia está para além da mulher. É um arquétipo.

Aproxima-se do nervo, da corda que corda que faz tanger o coração e dentro de uma voz madura e sapiente, é capaz de encarnar a ilusão e a ausência dela ao mesmo tempo.

Aproxima-se do essencial e estende-nos com a voz que ocupa a aquilo que é humano, dói ou faz sarar.

É dentro da voz de Bethânia que a total beleza se inscreve e é da mulher que surge, presa à voz, o pasmo de a sentir urgente.    

 

Foto - Vinicius Pereira

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A Gaffe anónima

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.15

winter crane.jpgUm anónimo pode ser como o gato que o menino atira do segundo andar. Esbardalha-se-nos na cabeça quando deslizamos breves e leves pela brisa da tarde. Pode também ser a timidez que encontra no anonimato um romantismo seboso, mas esta última variante é menos vulgar.

A Gaffe não acredita que a ausência de referências que caracteriza um anónimo seja devida a uma falta de coragem. Apesar de tudo, tem de se ser corajoso até para se ser um energúmeno.    

Esta energumunice tem, entre outras, duas versões que interessa reter.

 

Há os anónimos que surgem do nada e que de dentes arreganhados, nos rosnam impropérios. Podem usar um petit nom para sossego das suas inseguranças e aparecem como o Príncipe das Trevas ou a Maluquinha de Arroios, muito literários, ou Manuel das Iscas, popular, ou ainda José Dias Aguiar, quotidiano. São os anónimos ligeiramente conservadores cujos insultos trazem um travo de moralidade azeda e de inflamações purulentas que cheiram a mofo e a catequese.

Por estranho que pareça, para além de imbuídos de um patriotismo rançoso, abanam os panos de ideologias e de causas até os rasgarem nos pregos que trazem na língua. Esquecem que para vencer uma batalha é preciso que reconheçamos que somos parte do inimigo. Não há tão grande perdedor como aquele que chega ao campo de guerra a acreditar que é o antónimo do adversário.

A Gaffe fica siderada com estes anónimos. Perante os seus comentários, fica catatônica. Jamais entenderá esta forma de se ser patético.

 

Há depois os anónimos com vago sabor a Pessoa.  

São apanágio daqueles que comentam os seus próprios escritos. O inglês vê o elogio ou a exortação – geralmente não ultrapassam estas fronteiras - e finge acreditar que o que lê é alheio ao comentado. São os mais tristes e patéticos, porque revelam uma solidão desesperada. A inutilidade deles é como que privada, transformada numa ilusória companhia, num desejo doentio de se ser ouvido e de se ter alguém a quem responder.

São os que comovem.

 

Haverá outras modalidades. A Gaffe não tem microscópio para as analisar.

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