Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos ditados machistas

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.15

Leyendecker.jpg

Não sou uma grande feminista. Considero aliás que o machismo é uma arma excelente posta ao serviço do sexo mais fraco quando nas mãos de mulheres inteligentes. Permite-lhes apossarem-se de uma coisa dando a sensação que dela abdicam. No entanto, irritam-me os ditados populares que trazem apensos noções básicas de machismo patético. Erram consideravelmente.

Deixar que digam, por exemplo, a melhor maneira de conquistar o coração de um homem, é pelo estômago, é ouvir uma idiotice. É mais fácil conquista-lo pela lisonja.

 

Todos os homens podem ser alcançados pela lisonja. Até Deus - afinal o que é uma oração?

 

Ilustração - J. C. Leyendecker

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe passada

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.15

foto1.JPGChegaram ontem protegidas por películas translúcidas e separadas por almofadas de espuma.

São fotografias velhíssimas que mandei restaurar e copiar. Ao lado tenho o CD onde permanecerão por mais algumas décadas.

Encontrei-as carcomidas. Expulsas dos livros de ouro das memórias mais acarinhadas por razões que desconheço.

Numa delas, a minha trisavó, ao colo do pai, é uma criança que casará adolescente e que será mãe de mulheres, prolongando o matriarcado que ali se adivinha.

É fácil ainda identificar cada elemento do grupo. A s suas posições na hierarquia, o grau do seu poder, o parentesco, o espaço que ocupam na arquitectura da família. Percebem-se os elos afectivos distintos que unem esta gente longínqua. As interacções são reveladas por braços que protegem, por inclinações da cabeça ou por colos que se dão numa indiferença masculina.

 

O desamor também.

 

Ainda hoje é fascinante o modo como reagem e interagem os descendentes deste clã quando se agrupam.

 

Existe uma cidadela onde se fortificam aqueles que já nasceram dentro. Os elementos anexos, aqueles que chegam, provenientes de ligações, uniões ou acordos, são tidos e vistos como inevitáveis apêndices. Os homens e as mulheres, sobretudo eles, devem passar por longos períodos probatórios até adquirirem estatuto que lhes permita opinar, ser ouvidos e tidos como elementos de pleno direito e sobretudo penetrar nas defesas fechadas das matriarcas. Entretanto, é necessário que se reproduzam para que se espalhe a sombra deste voo.

É tão fácil reconhecer os mais frágeis! Os que chegam embaraçados e constrangidos, ao covil atento daquelas que dominam.

 

Dos mais frágeis, o meu mais amado, a minha saudade, a minha dor mais funda, tinha olhos que lembravam terra arrancada ao mar e a fragilidade insuspeita da tulipa. Tinha as mãos longas de peregrinação e a corrente de um relógio eterno que enrolava nos dedos. Tinha a benevolente paciência dos ouvintes ternos e a doçura das palavras certas ditas baixinho para não doer. Tinha cabelos de seda penteada. Usava camisolas de gola alta que o alongavam e o transformavam em cisne ou em espiga de trigo. Tinha a voz dos meigos, aquela voz que é bom ouvir quando troveja e um sorriso de lua a crescer numa noite de Verão.

Penteava-me o cabelo com os dedos e murmurava a ladainha docemente e depois de me beijar, arranjar as almofadas, saía a sorrir fechando as asas.

 

Anjo da Guarda 
De olhos cinzentos 
Protege minh’alma 
Da fúria dos ventos 

 

Anjo da Guarda 
Doce companhia 
Não deixes morrer 
A luz do meu dia 

Num alto rochedo 
Pousa a minha mágoa 
E faz com que o medo 
Se transforme em água

 

E quando eu partir 
Ó doce bonina 
Dá-me as tuas asas 
Qu’eu sou pequenina
 

(Oração francesa do século XIX na tradução livre do meu avô)

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD