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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe solene

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.15

Daffy duck.pngDurante imenso tempo mantive-me em silêncio. Considerei que tudo não passava de um cartoon onde por motivos obscuros tinha sido incluída.

Era referida amiúde e sem qualquer pudor nos escritos de alguém que assumia que tudo o que aqui se rabiscava tinha um único objectivo que se consubstanciava na tentativa de destruir e esbardalhar a reputação da suposta vítima.

Como não tenho página de facebook, a alegada perseguição tinha o seu palco nestas avenidas. As minhas opiniões mais críticas, os meus rabiscos menos simpáticos, embora jamais aludissem a quem quer que seja em particular, não passavam de ataques descarados, de indignas manchas provocadas na pacífica e inocente escriba espezinhada por esta rapariga que supostamente passou a dedicar toda a sua atenção e apontamentos a uma criatura que jamais lhe despertaria qualquer emoção.

Nunca dei importância.

É evidente que existem posts burka. Enfiam-se até aos tornozelos de quem os lê. Uma das suas características, uma das suas especificidades, é exactamente a de não se reportarem a uma criatura em particular, mas a todas aquelas que percebem que estão debaixo do pano. Tendo consciência desse facto, não podia nem devia reagir.

 

Acontece que, ultrapassando todos os limites da decência, do bom gosto e do bom senso, a suposta vítima acaba de me referir como besta esfaimada a quem é preciso colocar uma trela e um açaime a fim de deixar de ladrar.

 

Devo dizer que não me ofenderam os impropérios. São-me, como habitual, indiferentes. Lamento, embora vagamente, que me sejam dirigidos por quem se sentiu tão insultada por mim.

 

Considero no entanto elegante da minha parte informar solenemente que nada do que se aqui se lê tem como alvo uma criatura específica. Nada, rigorosamente nada, foi aqui escrito para transtornar a paz e o sossego a quem quer que seja ou provocar inibições e bloqueios de escrita a potenciais Nobel. É uma presunção desmedida alguém pensar e sentir que é alvo daquilo que humildemente vou riscando.

 

Esta é a derradeira vez que aludo a um assunto que não mereceria mais do que um miserável apontamento em rodapé.

 

Sublinho finalmente que o meu querido Daffy Duck não está de todo a tentar insultar alguém em particular. É só um pato com tendência a generalizar.

 photo man_zps989a72a6.png

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A Gaffe no trânsito

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.15

police.jpgQuando a minha irmã telefonou, com voz esganiçada, não entendi de imediato aquilo que se passava e, quando o fiz, espantou-me o seu pedido de socorro.

Não sou decididamente nada boa a socorrer quem quer que seja e no meio dos problemas alheios fico perdida como um sapo no meio da estrada.

 

Com a ganância enfurecida, a minha irmã ao lutar por um lugar de estacionamento perto do idolatrado cabeleireiro, tinha raspado o carro no pequenino brinquedo conduzido por uma matulona que não se conformava com o risco digno da arquitecta, nem era seduzida pelo glamour da infractora que simulava arrependimento e desprotegida inocência.
Fui ver!
A minha irmã embaraçada, dava início à impaciência e à inevitável maçada que seria perder a tão marcada, tão apetecida, tão namorada, tão suspirada hora no seu cabeleireiro mais amado. 
A senhora, de arreganhados dentes, tinha chamado a Óturidade e a Óturidade justificava todos os fetiches pelas fardas desgarradas e soltas neste vale de lágrimas.


De camisa azul que é quase céu, o boné com a pala rígida, pistola, cinturão, botas de cano, galões, divisas, cassetete duro e calças a alargar nas coxas e a arredondar o rabo, a afagá-lo, a desenhá-lo, a formatá-lo, a prometer prisões onde é bom morrer ou suspirar fechada.

Escanhoado a lâmina assassina, o maxilar quadrado e cinza de tão dura a barba. A boca desenhada com o lábio superior ligeiramente erguido e um sulco nasal onde é bom tombar e escorregar. Nariz direito, nervosas narinas e olhar castanho com pestanas negras e compridas.
Olhou para mim que a sorrir pateta não descolava os olhos do fardado. Sorriu também - os dentes tão perfeitos! - e com voz rouca anunciou:


- E eis que chega o sol poente disfarçado de mulher. 

 

Olhei para os lados e olhei para trás. Não vi ninguém chegar e percebi, já lenta e apatetada pelo assombro, que se referia a mim o colossal exemplar de Óturidade.

De escaramuça resolvida, decido mártir assumir todas as culpas, esbardalhando-me patética perante a Óturidade, pronta a rasgar as vestes, a obedecer, a perder a dignidade, a desmaiar deitada sobre nuvens. 


Nenhuma rapariga resiste a um belo piropo bem fardado.

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