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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe motorizada

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.15

BMW.jpg

A diferença mais óbvia que existe entre Portugal e a Grécia é que os ministros gregos chegam de moto enquanto os portugueses chegam de lambreta com muita vontade de sair de triciclo.  

Como toda a rapariga esperta reconhece, impressiona muito mais aquele que traz uma coisa grande entre as pernas.

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A Gaffe Número Zero

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.15

Umberto Eco.jpgMuito mais do que a história de um jornal que jamais verá luz do dia, muito mais do que a narrativa aparentemente tresloucada de um redactor paranóico que aparece assassinado depois de ter desaencatado ou reconstruído uma conspiração que envolve Mussolini, o Papa Luciani, a CIA e as Brigadas Vermelhas; muito mais do que a suposta revelação da fraude que que dura desde o fim da Segunda Guerra até aos nossos dias, Número Zero de Umberto Eco é sobretudo a denúncia do cada vez mais constante mau jornalismo e a demonstração dos meios mais ou menos subtis usados e abusados pelos meios de comunicação social na manipulação, controlo e domínio da opinião pública.

 

É irónico perceber que a apresentação televisiva de Número Zero coube a José Rodrigues dos Santos que pouco antes tinha sido responsável pela vergonhosa reportagem sobre os gregos, vazando a sua opinião no que era dito, modelando, orientando e dirigindo dessa forma a do público e atribuindo a todo um povo - sem pudor e através de insinuações ou afirmações aparentemente objectivas - comportamentos anómalos, fraudulentos e corruptos de determinadas classes que detinham algum poder na Grécia.

 

Número Zero é uma obra de referência, bastando para tal a capacidade que detém de acordar o leitor tornando-o capaz de gerir a informação que recebe com parcimónia, sobretudo em alerta constante e usando lamentável mas obrigatoriamente a desconfiança da primeira à última leitura.

 

A alternativa é deprimente.

 

"Amor, não estás a considerar que, pouco a pouco, também a Itália se está a tornar como os países de sonho para onde te queres exilar. Se somos capazes, em primeiro lugar, de aceitar e, em seguida, de esquecer todas as coisas que nos contou a BBC, isto significa que estamos a habituar-nos a perder a vergonha.

(…)

Não mais claros-escuros do barroco, coisas de Contra-Reforma – os tráficos emergirão en plein air, como se os impressionistas os pintassem: corrupção autorizada, o mafioso oficialmente no parlamento, o evasor fiscal no governo, e na prisão só os pilha-galinhas albaneses. As pessoas de bem continuarão a votar nos patifes, porque não acreditarão na BBC, ou não quererão ver programas como os desta noite, porque terão aderido a qualquer coisa mais trash, provavelmente as televendas de Vimercate acabarão no horário nobre. (…) Quanto ao resto, um bom filme à noite, o weekend aqui em Orta – e que se lixem todos os outros. Basta só esperar: um vez que, tendo-se tornado definitivamente Terceiro Mundo, o nosso país será plenamente habitável (…)

(…) A vida é suportável, basta conformarmo-nos."

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Gavetas:

A Gaffe grega

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.15

Haderer.jpgÉ irónico – de uma ironia trágica como seria de esperar – que o povo que criou e ofereceu o conceito de Democracia à Europa seja aquele que a Europa vai humilhando e destruindo numa espécie de freudiana vendetta da era pós-democracia.

 

Ilustração - G. Haderer

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A Gaffe circular

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.15

1.jpgA temperatura facilmente ultrapassa os 35º. Empurra-nos para o interior dos muros, para o interior das sombras das árvores, dos buchos e das pedras das escadas frescas de granito guardado do sol pelas trepadeiras. No interior protegido das sombras escapa-se à asfixiante atmosfera que faz estourar os frutos e levanta a poeira dos caminhos que levam à casa.

 

É a canícula a desenhar círculos concêntricos, apertados e distintos. Claramente sentidos, evidentemente adivinhados. Forças centrípetas sorvem-nos e arrastam-nos como títeres, fazem-nos impotentes marionetas movidas pelos fios de fogo do calor.

 

Ao fim do dia mesmo a penumbra escalda e são as salas interiores onde a temperatura desce abruptamente, as procuradas.

 

Neste fechar quente e claustrofóbico, o interior da sala maior, daquela em que as janelas se abrem para Norte, é escolhido invariavelmente. É aqui que a noite é aguardada e pela noite fora nos falamos.

 

Estes anéis circulares que se vão estreitando, são concêntricos e, se analisados sem réstia de emoção, parecem indicar a única direcção daqueles que, como agora nós, enredados neles acabam por seguir. Fatais, empurram-nos para dentro, para o mais ínfimo ponto onde se iniciam ou, nesta perspectiva, onde se acabam.

 

Se observar com a mais profunda atenção e afastamento a sala onde a noite se inicia com toda a gente pousada, vejo-me longe de tudo, com uma ausência completa de vontade e sem mácula ou culpa pelo facto. Afasto-me ds conversas, não por impulso desgarrado, teatral, furioso e momentâneo, mas porque não sinto falta das palavras. Talvez seja feliz e como diz o outro a felicidade não saiba contar histórias. No entanto, esta minha espécie de se ser feliz é como o bicho-monstro que as crianças suspeitam que existe debaixo da cama nas noites sem sono. É uma felicidade de antes de dormir. Uma estranha suspeita de que depois do beijo da mãe que nos sossega, há mais coisas que ninguém nos diz. É uma felicidade minada pelo receio de escuro. É um sentir que há qualquer coisa central que nos invade e nos sorve e nos deixa exaustos e escandalosamente vazios e alarves; que faz com que os dias permaneçam mudos, tombados a um canto, tocados pelas mãos de alguém estranho que não tem força para lhes arrancar um choro ou um riso, mas que fascinado aflora as rodelas das horas.

 

Há objectivamente neste interior do interior do Douro um maléfico sorver da alma dos outros.
Tornamo-nos ninguém porque deparamos de forma abrupta com a avassaladora e incongruente coisa inamável que jamais conseguiremos definir.

 

No cerne, no mais profundo interior dos interiores, o primeiro círculo tem como centro a forma quase melífera e maligna que absorve tudo, mesmo a seiva nos olhos da vontade dos outros. Deixamos de sentir para sentir para ele, por ele, através dele.

 

Diriam os entendidos que é o círculo d’oiro e que tem réplica no fundo de cada um de nós.

 

Eu gosto de ferrugem. 

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A Gaffe muito querida

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.15

um querido.jpg

São amáveis, gentis, prestáveis, educadíssimos, atenciosos, ingénuos, cavalheirescos e toda uma panóplia de predicados que por norma apensamos aos referidos e que neles se encaixam sem destoar.

 

Quando sorriem, juramos que há pão quente nas nossas madrugadas mais friorentas. Quando nos seguram a mão, pensamos ter saído de coches encantados. Quando nos elogiam, fazem a coroa dos Stuart parecer brinquedo de menina. Quando nos protegem – e fazem-no com insistência – sentimos que há exércitos à porta e que nada nos poderá tocar sem primeiro os fazer ruir. Quando nos apaziguam, oferecem-nos a mansidão de todas as planícies. Quando o sol abrasa, estendem toalhas de linho branco e de cetim no céu e sempre que chove mergulham na torrente para nos fazer chegar um guarda-chuva.

 

Cheiram bem. Cheiram a sabonetes Ach Brito. São como as manhãs frescas junto ao mar ou pêssegos pousados sobre a mesa e cuidam dos corpos perfeitos só para nós.

 

São uns queridos.

 

A Gaffe não entende como consegue pensar, quando apanha um pela frente, em como seria bom esbardalhar-lhes as qualidades contra um muro e no meio da porcaria do mato,violá-los com uma motosserra.  

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A Gaffe recomenda

rabiscado pela Gaffe, em 26.06.15

Super

Nunca deixar um homem dormir connosco a noite inteira, sobretudo quando não o conhecemos muito bem. Podem ter sido formidáveis as horas que passaram, mas é aterrador acordar na manhã seguinte e apanhar com ele a coçar o rabo enquanto regula a temperatura do duche.

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A Gaffe ao pequeno-almoço

rabiscado pela Gaffe, em 26.06.15

Lillian Bassman-Paris 1949.jpgA criança tem olhos de psicopata, esgazeados e dementes, um dente a abanar constantemente assediado pelo dedo indicador e uma saia de tule enfunado.

O meu prosaico croissant é perturbado pelos guinchos e gritos estridentes da miúda.
A mãe, esgrouviada, procura controlar a esfregona minúscula que se espolia no chão, agarrada ao pão com manteiga.
As senhoras de café com leite fazem descair os cantos dos lábios enquanto o cabelo se ergue arrepiado e o empregado, um bom rapaz, afável e paciente, faz ranger os dentes.
A menina gane, uiva e muge as velas pandas!
Levanto-me de croissant irritado e chá enfurecido.

Levanta-se o pai esganiçado:


-Bês?! Se te purtáres benhe ficaz assinhe bunita cumuestae sinhora! Olha bê, que sinhôra legante! Se cuntinuas cuesta merda ficaz cumá tua mánhe que num bale um chabelho.


A manhã começa rigorosa e objectiva.

 

Na foto - Lillian Bassman, Paris -1949

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A Gaffe no pedestal

rabiscado pela Gaffe, em 25.06.15

Vargas - 1920.jpgConta a minha avó que em tempos ido uma das suas amigas favoritas ao passar por uma chapelaria – Chapéus de senhora e cavalheiro – no Porto, na velha rua de Stª Catarina, se encantou com um busto feminino que na montra ostentava um magnífico chapéu com duas penas negras.

Entrou e confessou que por aquela cabeça de boneca pagaria o que lhe fosse pedido.  

A moçoila do balcão, encarregada da loja, firmou que era peça que não estava à venda, troçou do excêntrico desejo e gosto da senhora e perante a sua insistência decidiu calçar chinelos, traçar o avental e aproximar a chapelaria das bancas do Bolhão, ali tão perto.

A senhora saiu de mãos vazias.

 

Meses depois comprou a chapelaria e despediu a mulher.

 

O busto era dela finalmente.

 

Por manigâncias do destino que se tornam enfadonhas referir aqui, tenho-o agora na sua peanha Arte Nova pousado na mesa de vidro.

Para além da sua indiscutível beleza guardada nos olhos lânguidos, nas ondas de madeira do cabelo, na boca breve desenhada pelo batom rigoroso e nos adornos subtis que identificam a corrente artística que a esculpiu, a cabeça agora sem chapéu esconde a história da mulher que perdeu o emprego por ousar negar com alarido vender aquela peça.    

 

Sei-lhe o nome, porque foi o nome dado à mulher do busto. Chamava-se Luísa. Não sei mais nada. 

 

Aquando do sorteio, os deuses raramente retiram a bola branca que dá acesso a alguns a quase tudo sem restrições ou constrangimentos, mas são largamente generosos quando constroem estas minorias e brutais com os que restam.

Sou suficientemente fútil e superficial para passar ao lado das grandes dores sem queimar as asas da minha indiferença, recuso equacionar todas as tolices do Universo e, embora não se perceba muito, não sofro de grandes angústias existenciais.
 

No entanto, ao olhar para a Luísa, dói-me sem eu saber porquê o abismal e tenebroso buraco vazio que se ergue daquela peanha Arte Nova.

 

Ilustração - Alberto Vargas - 1920

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A Gaffe pacífica

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.15

A minha irmã acompanhou fotograficamente o meu querido gigante durante um dia inteiro.

A vitória foi brutal. Desde sempre que captar a imagem do homem é tarefa inglória.

Apesar disso, suspeito muito no talento da fotografa que usa a mais capaz, eficaz e sofisticada das máquinas do planeta. É fácil recolher as mais fantásticas imagens que grassam por aí.

 

No entanto, as fotografias captadas são quase comoventes.

 

A preto e branco, a minha irmã recolheu o meu Amigo pleno e deslumbrante. Reconhecemos na esmagadora maioria das imagens, a densidade do homem, a sua claridade e a sua sombra, o angustiante e doloroso jogo de luz e ausência, a sua tristeza misturada com a quase felicidade que mergulha em pacífica e serena calma e silêncio.

As imagens são belíssimas porque, para além de tecnicamente perfeitas, são o mais impressionante retrato do momento da vida do homem.

(Espero que este esquiço chegue, porque tudo o que foi recolhido pertence ao recanto mais privado da vida de duas das criaturas que mais amo.)

Há, pela primeira vez desde há alguns anos, um pedacinho de luz, que me é estranha e que se torna renovada a cada passo, na pesada melancolia dos penedos do caminho que parece brotar do absolutamente nada, mas que fugaz surge nos olhos do gigante.

O despertar desse relâmpago acordou-me o espanto.

À noite, com as luzes da Avenida a entrar esmaecidas, tentei decifrar a luz vibrante que se espelhou em mim e aplacar a curiosidade.

Aproxima-se o meu rapagão e pousa a mão morena no meu ombro branco. Abraça-me e beija-me a nuca.

Volto-me e procuro na sombra os olhos ternos do rapaz. O seu mirar de chocolate quente, as estradas macias das pestanas.

Então subitamente entendo a luz que vi, porque é a mesma.

 

Como pétala branca em campo abandonado de batalha, cintila a mesma luz nos olhos de ambos.

 

Cintila a Paz.

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A Gaffe banal

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.15

Group self-portrait. New York, 1920..jpgPreocupamo-nos demasiado em parecermos invulgares, originais, únicos, diferentes. Somos levados pelo desejo de nos mostrarmos peça rara capaz de figurar no museu das emoções alheias. Arriscamos mesmo o ridículo se tal for necessário.

No entanto, os nossos mais pequenos gestos, aqueles que fazemos com a maior das naturalidades, aqueles que se tornam automáticos, os banais e corriqueiros, revelam a nossa pertença à imensa maioria dos vulgares.

O nosso polegar direito fica mais próximo de nós quando entrançamos os dedos; a nossa perna esquerda fica por cima quando cruzamos as pernas; a palma da nossa mão esquerda fica virada para cima quando aplaudimos; a nossa mão esquerda fica debaixo do cotovelo direito quando cruzamos os braços.

 

Somos banais, inevitavelmente. Mesmo coroados. Se sentados num trono nos pavoneamos, seria sensato pensarmos na pouquíssima importância que Deus atribui às coroas e aos reinos, tendo em conta a gente a quem Ele os entrega. 

 

Foto - selfie em NY, 1920

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A Gaffe de Jacinto Lucas Pires

rabiscado pela Gaffe, em 23.06.15

JLP.jpgDepois de ouvirmos João Tordo a informar que estará em breve no Contentor treuze começamos a perguntar se a novíssima literatura portuguesa está ou não bem servida. Neste caso a dúvida tem proporções ínfimas se comparada com a que nos assalta quando todas as Sextas-feiras, às 09.20, na TSF, Jacinto Lucas Pires nos brinda com a rubrica Canções Crónicas.

 

A primeira reacção ao ouvir o rapaz chega a ser pacata. Atribuímos-lhe o benefício da dúvida e supomos que Jacinto Lucas Pires quer apenas satirizar determinado tipo de imbecilidade cruzada com anseios intervencionistas. A sátira é medíocre e de mau gosto, mas há dias em que adoecemos e nada nos sai bem.

A situação agrava-se quando descobrimos que o jovem talento repete o esquema em todas as suas interferências, musicando e cantando um chorrilho de rimas rasas, rentes e paupérrimas.

 

Jacinto Lucas Pires não canta. Grasna como um pato tímido. Fá-lo pior do que eu que abandonei os duches musicais que faziam com que a minha avó batesse à porta a perguntar preocupada se me sentia bem. Jacinto Lucas Pires toca guitarra como um adolescente que arranha as cordas num retiro de escuteiros. Jacinto Lucas Pires compõe como se tivesse uma galinha dentro a debicar colcheias numa pauta rasgada. Jacinto Lucas Pires escreve o que coaxa com a qualidade de um versejador de aldeia de que vai forçando a rima escolhendo o que de mais óbvio e fácil tem na boca.

 

As Canções Crónicas sucedem-se lastimáveis, aumentando a nossa vergonha alheia e a nossa perplexidade perante a total ausência de qualidade e acabando a provocar uma irritação incontida ao apercebermo-nos que Jacinto Lucas Pires, mantendo aquela miséria, não entende que descredibiliza por completo todo o seu trabalho passado e futuro. Depois de ouvir aquilo ninguém mais conseguirá respeitar o autor.

É demasiado mau. É constrangedor e patético.

 

Sobram duas perguntas no campa rasa que sobra de cada intervenção do jovem talento premiado:

 

- Será que Jacinto Lucas Pires não tem um único amigo que lhe diga que é bem melhor bater com um gato morto nas costas até que o pobre mie do que aquela radiofónica humilhação?

 

- Como é possível a TSF pagar a alguém para desconsiderar desta forma os seus ouvintes?

 

Tendo em conta que mais vale uma previsível mediocridade a um choque anafilático, é caso para desatarmos a gritar:

Volta Zé Cabra, que estás perdoado!

 

Nota – O presente rabisco não dispensa a audição das peças.    

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A Gaffe acalorada

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.15

c.jpg- A menina janta cozido ou prefere arroz de pato? – O Domingos pergunta à minha irmã que tinha desabado na poltrona no início tarde de preguiça e de calor em brasa.
A minha irmã ergueu a sobrancelha.
Procurava na pergunta um laivo de troça escondida, um rasto de gozo miúdo, que os homens do Douro usam de modo tão discretamente certeiro. Nada! O Domingos queria mesmo saber as preferências culinárias da menina.
- Oh! Domingos! – Espanta-se a minha irmã, depois de ter vazado a alma do homem com os punhais desconfiados do olhar. – Ninguém come essas coisas hoje em dia! Eu só quero uma salada. Daquelas que o Domingos sabe fazer, muito ecológicas e verdes, com alface de folha lisa. Mas, por favor, retire-lhe as fêmeas dos caracóis.

 

- Diga, menina?! – Insiste, mas já de sorriso discreto à tiracolo.
- As coisas sem casca. As mulheres dos caracóis. – Explica sobranceira.
- As lesmas. – Procura esclarecer o senhor.
- Não me faça isso, Domingos! Eu não quero saber como se chamam as senhoras.


É do calor. Esgana-nos o cérebro.


Depois há a ausência de piscinas.
Em todos os cantos onde fico, há uma escandalosa falta de piscinas.
Há repuxos, copos, tanques, esguichos, torneiras, lavatórios, bidés, lagos, bicas, fontes, poças, garrafas e alguidares, mas piscinas nem pingo.

 

Há aqui, é bem verdade, a gigantesca cisterna, mas ninguém em condições psicológicas ditas razoáveis se atreveria a mergulhar no desmedido e medonho espelho de água gélida, capaz, tenho a certeza, de sinistramente sorver o mais incauto puxando-o para as profundezas negras muito Stephen King.
Contentemo-nos com o chuveiro improvisado de água fria, tomado lá fora, na sombra do início do jardim, de rendas brancas, aos gritinhos e à vista dos homens suados e bravos e fortes e duros que começam a chegar ao fim da tarde.


São uma apetitosa salada, estes rapazes, depois de despejadas as mais atrevidas esposas dos caracóis. 

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A Gaffe proletária

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.15

Agnus_Dei.jpgA Gaffe está chocada.

 

Acusam o senhor engenheiro de ter escondido várias obras de arte em casa da empregada de limpeza da mãe.

Um terror!

 

As pessoas que trabalham para nós são umas queridas. É gente muito dedicada, disposta a sacrifícios abnegados e de suores que nem à força do sabão que usam se atenuam.

É gente pobre, mas disponível e criativa que enfia queijo da serra no bacalhau soltando a memória das peúgas do avô pastor e da avó pouco dada a banhos. É gente séria e empenhada que leva o trabalho para casa.

 

Acusar o senhor engenheiro de enfiar parte da sua colecção de arte na despensa da empregada de limpeza da mãe, para além de se tornar mais um pedregulho atirado à probidade da vítima, é insultar esta gente tão trabalhadora, que nos é devota, sempre amorosa e que não olha a meios para nos agradar, mesmo que tal signifique levar os móveis para casa para os polir. O tempo não chega para tudo e a Gaffe não consegue imaginar as horas que se gastam a limpar corredores ou a escovar as molduras dos Almada Negreiros com cotonetes.

 

É evidente que há de tudo. A Gaffe admite que no meio desta multidão haja uma peça de fruta maculada capaz de nos levar o couro e o cabelo por doze ou treze (ou treuze para harmonizar) horitas de esfrega, mas é gente não distingue um Pomar ou um Paula Rego de uma estampa do Ikea. Normalmente surripiam-nos as sobras do almoço ou um alfinete de peito que já não usamos e declaramos perdido.

 

Os critérios do senhor engenheiro na escolha dos amigos e dos serviçais está acima de toda a suspeita e, como está sobejamente provado, o bom coração, a lisura de carácter, a honra, a honestidade, a mais profunda solidariedade e a devoção sem limites ou condições encabeçam estas exigências.

 

A Gaffe pasma perante tanta crueldade e considera um ataque à democracia e aos direitos dos trabalhadores recusar que as horas extraordinárias se façam no aconchego do lar das pessoas que se esforçam.  

 

Imagem - El Greco

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A Gaffe sem-abrigo

rabiscado pela Gaffe, em 18.06.15

Timothy Lamb.jpgA voz giríssima da porta-voz de uma organização de solidariedade social sediada em Faro explica cabalmente a inexistência de apoios aos sem-abrigo.

A Gaffe não pode estar mais de acordo com a razão apontada que explica de modo cristalino o aumento e a persistência de gente a viver na rua e congratula-se por haver finalmente alguém que esfrega na nossa falta de visão aquilo que é óbvio.

 

Não se consegue apoiar os sem-abrigo porque essa gente não tem endereço.

 

Tão à nossa frente e ninguém deu conta!

Como é possível termos ignorado uma evidência destas?!

 

A Gaffe tem de concordar que um pobrezinho que não consegue indicar uma morada para onde se possa enviar apoio, impede que sejamos solidários ou até mesmo compreensivos. Possuir pelo menos uma casiita  - e não se exige que seja a Herdade da Comporta - é condição necessária para que até o Banco de Portugal se torne um amigalhaço.

Depois, não tendo residência, o pobrezinho não tem net. As nossas transferências bancárias não podem ser efectuadas através da Caixa Directa e, valha-nos Deus, não nos peçam também para ir aos balcões de um banco qualquer e esperar na fila. É sempre uma perda de tempo e uma confusão com as cardenetas que estão sempre ensebadas, desmagnetizadas ou que pura e simplesmente não existem.

A ausência ainda mais gravosa de um endereço electrónico não permite que os sem-abrigo comuniquem às organizações de solidariedade social e aos organismos do Estado as suas carências. Não sabemos nunca se lhes falta um edredão, um talher, um balde para gelo, uma cortina ou - o que sabemos nós?! – papel higiénico, tendo em conta que apesar de tudo os pobres também comem.

Que fique claro que os sem-abrigo não nos ajudam muito.

 

Apesar destes contratempos, a organização de solidariedade social sediada em Faro não vai desistir de apoiar os pobrezinhos. Aproveita e publicita a sua iniciativa. Está prevista para breve uma quermesse com o objectivo de reunir fundos para construir um bairro social para os sem-abrigo. Agradece as contribuições da população e refere que qualquer coisa que se tenha esquecido no sótão pode ser doada. São sempre uns euros que revertem para a causa.

 

A Gaffe vai oferecer o seu velho e querido portátil que já não usa, porque não respeita o Acordo Ortográfico e esta rapariga gosta de cumprir a Lei, mas – que lhe perdoem -, vai entregá-lo directamente a um pobrezinho. Não simpatiza com intermediários que ficam com os louros todos.

 

Ilustração - Timothy J. Lamb

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A Gaffe do avô

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.15

Tenho pensado em ti.

Chegaste sem armas, sem nome, sem peso e sem prestígio. Resististe sempre. Trazias na bagagem um Amor sem qualquer fronteira ou cidadela. Nunca abandonaste a mala pronta para sair a qualquer momento e em qualquer estação, tempo ou descampado e conseguiste que a vida que te rodeava fosse ampliada por milhões de estrelas, constelações inteiras nos teus braços que nunca desejaram mais do que saber Amar.

 

Disseram-me, avô, que tu morreste.

Talvez seja verdade.  
A morte poupou-te os olhos porque os trago agora dentro de mim, como um anel ou como lanhos de roseiras enlutadas. Vejo por eles.

 

Abrias as romãs e dizias-me que eram grãos de fogo, almofadas da terra onde os anjos pousavam as lágrimas dos pássaros.

Sentavas-me nas pedras e ouvíamos juntos o restolhar dos pardais e o germinar das águas. Falavas-me dos dias em que eu seria grande e eu acreditava.

 

 Rouxinóis de Agosto entre os teus dedos.

 

Havia tardes de Outono nos teus braços.

Havia tardes lentas de preguiça das árvores. Tardes de andar muito devagar e tardes de sons de folhas quebradiças que os dedos apertam e desfazem. Havia pingos de chuva do dia anterior pendurados nos galhos. O som dos gestos faziam-nos pesados. Tremiam e tombavam no pescoço da surpresa.

Havia nos teus braços berços e eu queria tanto a madeira morna daquelas traves que me deixava ir abrandado. Encostava a cabeça ao teu peito. As tuas mãos  em concha pousam-me na cara. Nunca vi ninguém reproduzir o gesto. Apoiavas-me as costas com um dos braços e as tuas mãos assim livres tapam-me o rosto por completo. Fazia-se noite de repente. Mais noite ainda do que a noite dos meus olhos fechados. Fazia-se o breu. Um refúgio amornado pelas batidas do coração que eu ouvia. Uma gruta onde soava em eco o murmurar em cadência de uma ladainha cantada sem vogais abertas, sem mover dos lábios. Ficava assim. Rendida e pequena à espera que o sono chegasse para que acordada lhe poder dizer que não o queria e o afugentar.

Havia o vento a engravidar o veludo espesso das cortinas e a chuva a murmurar baixinho uma reza enquanto se descalçava para entrar nas sorrateiras soleiras das portas, mas na tua voz a nudez das árvores enchia-se de pássaros como quem veste uma camisa branca. 

 

Era belíssimo o modo como te debruçavas sobre as palavras. Quase se percebia entre as tuas frases o barulho de folhas a virar. Ouvia-te como quem lê.
Transformavas as palavras em imaginárias melodias e eu tentava adivinhar a curva melódica que as frases desenhavam espalhadas no ar. Havia ritmos estranhos, outros conhecidos, havia ainda aqueles que cumpriam a magia.
Ficava parada a ver-te mexer os lábios, a gesticular, a inclinar a cabeça, a esticar o pescoço como um pássaro à escuta de outra entoação, a observar-te as sobrancelhas subindo e descendo neste vale de lágrimas, os olhos pardos que se semicerravam quando havia coisas elevadas a dizer, as mãos tamborilando na mesa sempre à procura de um objecto qualquer para o fazer rodar por entre os dedos e surpreendia-me com o fabuloso ser que eras.


Quando falavas, avô, encontrava-te a alma em todas palavras.

 

Depois de ti, a vida pouco me deixou para morrer. Não mais me vestirei de luto. O meu coração de vidro agora bate na sombra picada por vespas. Habito o país da Memória. Há lá lugar mais triste!

 

Mas estou grata.

Estou grata aos gatos que atravessavam o pátio dos teus braços, ao pão que me deste com o teu coração dentro, à minuciosa eternidade sobre os teus lábios quando nos lábios o silêncio cintilava a pedir casa ou vidros de janelas para entrar.

Estou grata a tudo o que me deste, que me protege do frio e faz da luz da pedra uma repentina gota de poesia.

 

Creio, avô, que há dores que nos confiscam a vontade.

São cobradores de impostos por pagar.
Hipotecam pedaços de nós e deixamos de saber se algum dia os reaveremos. Talvez o som, o timbre da tua voz, me tenha sido confiscado. Fosse o que fosse, o cobrador segue-me sempre, como um cão de guarda. Muitas vezes pensei que o via atrás de mim, mas percebia depois que tudo não passava do teu silêncio.
Com o tempo outras formas de mudez se vão dizendo. Abrem-se grades nos olhos e erguem-se paliçadas em redor do peito. Emparedamos a alma que se torna um tecido branco de mantel, mas eu sinto a tua voz sem timbre, a partir ferro e a desfraldar toalhas brancas de linho sobre a minha vida inteira.

 

Quando eu crescer, avô, quero trazer o teu coração no peito.

 

Parabéns avô. Tu conseguiste!

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