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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de elevador

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.15

S. Cracker.jpgEncostado ao fundo, o rapagão procura demarcar espaço na caixa espelhada do elevador.

Ao lado a senhora gorda de cabelo azul-contabilidade olha de soslaio.

Não gosta de mim e é notória a cisma.

Procuro um caminho entre o exíguo espaço deixado por ela. Empurra. Quer ficar na frente como se o lugar que vai reservando lhe facilitasse o chegar primeiro.

Enfio-me no canto, perto do homem que se encolhe e mirra.

Sorrio.

Sorri.

Estamos tão formais, cordiais figuras levemente frias.

Suspira a senhora, apertada em cinta.

Suspira o rapaz de cinto apertado.

A minha mão, bichana arisca, toca sem tocar nas calças bem justas do meu rapagão.

Subtil sobressalto.

Continua a mão no terceiro andar. Enquanto descemos, a vadia sobe, sabendo que o tempo marcha enfurecido contra o que ela quer.

Toca devagar o roliço rabo do homem que guina de encontro à senhora. A senhora rosna. A mão não descola e aperto forte a nádega esquerda que conheço, porque fui eleita confessionário de outras subidas e de outras descidas, sem elevadores e sem velocidades, nem sempre discretas, mas todas felizes, quer na descolagem, quer no aterrar.  

A mão não despega e sente a tensão da vítima quando, mais ladina, tacteia e encontra a linha das cuecas do rapaz imóvel, desgraçado e verde. Prende o algodão que adivinha - ou quer - branco imaculado e puxa e estica e distende e arrasta.

Depois larga.

O som do rosnido e o salto do rapaz são absolutamente imperceptíveis, mas confirmam o estalo.

Sustenho a gargalhada e escapa-me um descontrolado esguicho, um borrifo, um chuvisco, um salpico que atinge o azul-contabilístico cabelo da senhora.

 

- Valha-nos Deus, nosso Pai do Céu! Já não chega ter de vir convosco nesta merda fechada, tenho de levar também com as vossas indecências. Virgem Santa! Há gente que se controla, porra! Deus nosso Senhor! Há gente que disfarça a nojeira que faz e não anda por aí a incomodar ninguém!

 

Benzo-me?!

 

A senhora de cabelo azul-contabilístico é afinal um patego pároco de aldeia.

 photo man_zps989a72a6.png

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Gavetas:

A Gaffe e a Henriqueta do VIII

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.15

A Gaffe é uma rapariga sofisticada, cosmopolita e com um allure absolutamente internacional, embora - pequenas idiossincrasias de uma rapariga modernérrima - nunca tenha perdido a saudade do embaraçante sabor fronteiriço da alheira e do chouriço.


Lembrou-se dos enchidos, porque acabou de concluir com alguma apreensão que nas suas avenidas a Henriqueta do oitavo continua a ser a catequista.
Neste momento tornam-se necessários esclarecimentos sem os quais esta estonteante rapariga deixa de se fazer entender e é abandonada à sorte madrasta com uma mão atrás e outra nem por isso.
A Henriqueta era - e a Gaffe arrepia-se ao pensar que continua -, uma mulher pequenina, já entradota com buço e sobrancelha a condizer, a lembrar vagamente Frida Kahlo, mas sem talento e sem aquele je ne sais quoi  tão atraente. Anafadinha, rechonchuda, redondinha de cara e papudinha de mãos, de narizito arrebitado e cabeleira rala empolada com laca.

Chamavam-lhe a Henriqueta do oitavo, não porque morasse nesse andar, mas para a relacionar com o monarca Inglês que deu conta de seis mulheres, fora as que a história não fez nota. A Henriqueta, diziam às más-línguas, já tinha aviado um número maior de rapazolas e tinha sido o oitavo a tirar-lhe o apetite de carne demasiado fresca e de hortaliça pouco madura, confessando ao pároco a interpretação bastante ousada que a catequista fazia do livrinho santo.


No dia mundial do petiz, a Gaffe assusta-se ao pensar que existe a hipótese de ter crianças saudáveis e libertas a tropeçar nos sapatos de tacão pequenino, fechadinhos e discretos, de uma Henriqueta qualquer pronta a saltar da caixa de esmolas dos escuros anódinos das sacristias.


A Gaffe conheceu esta, a do oitavo, que lhe chamava coisa boa e que a beliscava sem ninguém dar conta acoitada em catecismos, em morais, em bons costumes, em parolas pagelas decoradas e que do esconso riscado das sacristias ia roendo a vida dos paroquianos.

 
A Henriqueta ainda arrasta os sapatinhos cambados pelo salão paroquial, mas não lhe causa dano.
Nós, raparigas espertas, aprendemos depressa que uma Henriqueta destas não desaparece com facilidade. Pode nem sequer ser a do oitavo, mas continua a tentar catequizar as nossas vidas e ser, sem surpresa, the girl next door.

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