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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe deslumbrada

rabiscado pela Gaffe, em 04.06.15

Músico RajastaniTal como a verdade, a beleza extrema raramente se encontra em linha recta. Temos de ziguezaguear ou percorrer atalhos incontáveis para que de súbito se revele nas paragens mais íngremes.

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A Gaffe à bofetada

rabiscado pela Gaffe, em 04.06.15

Notre de Dame de Lorette Metro station in the 9th Repleta de saudades, recordo o único episódio em que um valoroso cavaleiro lutou por mim.

 

Como habitualmente, o grupo tinha-se reunido numa esplanada de Paris. Era de noite e o estreante, pelo braço de uma branca e discreta criatura companheira das cavalgadas pelas ruas da cidade, falava compulsivamente.

Irritava.

Cruzavam-se as palavras e as conversas e só por instantes se cruzavam os olhos na estrada verborreica do novato, uma algazarra preenchida por lugares-comuns cansativos que iam desde a defesa de causas ecológicas, ao amor de Sting que apenas livre é mais amor, passando por resquícios de feminismos balofos.

Nada existe de mais entediante do que transformar a vida numa fotocópia do manual do correcto.

 

Cedo aprendi que a fanfarronice é uma presa fácil de se abocanhar.

 

Foi no instante em que o rapazinho sentiu finalmente a acidez que disparou à queima-roupa. Trémulo, o dedo no gatilho deslizou e o menino feriu o tigre ruivo que não sentiu sequer a bala da palavra por contar com ela há algum tempo. Faz parte das caçadas distraídas.

 

Ninguém dos seis teve muito tempo para se espantar com o estampido.


De súbito, sem qualquer indício, aviso, sinal ou previsão, há louça revirada, em cacos espalhados pelo chão e um gigante recortado já no ar, pupilas dilatadas, narinas que fumegam, cospem fogo e, de peito aberto voltado para a lua, crava uma estalada imensa e dura no rapaz que desanda junto com a loiça.

 

O grupo sentadinho em redor da ausência da mesa revirada, escacada a um canto, dir-se-ia pertencer a uma sessão de terapia onde confessamos que bebemos muito.

Fomos convidados a desaparecer do mapa da savana pela manápula de um gorila com a dimensão convincente de um embondeiro.

 

Pelas ruas de Paris espalhávamos palavras em brasa pela noite dentro. Dizíamos furiosos aquilo que queríamos e mais o que deixávamos pelos caminhos.

Que eu não passava de uma menina de filigrana no pescoço do sarcasmo. Que ele não era mais do que uma mutação civilizacional. Que eu padecia de uma profunda miopia e que nada enxergava a não ser as pérolas das tias. Que ele não era mais nada a não ser uma ratazana bibliotecária, um intestino grosso a rebentar de livros. Que eu sofria de um egoísmo presunçoso armado em espadachim…

 

Floreados.

 

Findas as frases mais complexas, passamos ao curto insulto que resulta bem:

 

- Nazi paternalista.

- Mata-Hari enfezada.

- Joana d’Arc parola.

-  Maquiavela ruiva.

- D’Artagnan suburbano.

- Dióspiro tomatalho.

 

Parou tudo.

 

A segunda palavra, filha de pais que aqui se evitam por decoro e regra, eu entendia. O fruto, ali, causava certo espanto.

O Professor já de paciência mestre-escola explica baixinho de mãos abertas:

 

- Dióspiro-semelhanças-tomates-cor-alaranjado-laranja-ruiva-tu-estúpida.

 

Não faço ideia quem foi o primeiro. As gargalhadas maiores e mais sonoras do que a estalada no rapaz, fizeram explodir a lua de Paris. Agarrados aos joelhos, asfixiados pelo riso, os dois vagabundos na noite adormecida, deixam-se levar depois por dois abraços.

 

Em Paris, outrora, a madrugada nascia à bofetada.

 

Foto - Notre de Dame de Lorette - Estação de metro

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