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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe envelhecida

rabiscado pela Gaffe, em 11.06.15

 

À sombra dos teixos, olho as hortênsias abertas azuis. Moldaram-nas, modelaram-nas. São esferas pousadas num tapete macio de relva primorosamente escanhoado. Não há anomalias naquela gigantesca explosão controlada.

No chão, no verde húmido e uniforme, oscila no entanto uma minúscula flor amarela, rasa, inútil, transgressora, esquecida pela sanha perfeccionista do homem que trata do jardim.

 

De súbito, tudo é engolido pelo amarelo inadmissível. A planura da relva, as hortênsias, os teixos, a casa, o céu, o rio e os socalcos.     

A minúscula flor improvável absorve as paisagens que trago dentro da mesma forma que dilui o que vejo. Nada há a não ser aquele ínfimo tom a oscilar no vazio.

 

É como uma desilusão.

 

São estas insignificantes flores imprevisíveis que anulam as braçadas, os ramos, os bouquets que tínhamos escolhido para adornar os dias. Passamos a olhar apenas a pequena anomalia.

É nesse instante que envelhecemos.

 

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A Gaffe tertuliana

rabiscado pela Gaffe, em 11.06.15

Tertúlia.jpgA Gaffe esteve presente numa tertúlia literária a pedido encarecido da sua boa amiga que, mesmo sabendo que esta rapariga fica deprimida com este tipo de manifestações, a convenceu a acompanhar o sacrifício.


As tertúlias literárias são reuniões estranhíssimas de gente que diz gostar de poesia e que a declama como se estivéssemos todos presos no wc e com prisão de ventre. Geme ao dizer Espanca, prolonga as últimas vogais de cada verso como se de eco se tratasse ao recitar Eugénio de Andrade, ronca e rosna revoltada com Ary e treme e trina perante a inquebrável palavra de Cesariny, atestando a incompetência escandalosa de Mário Viegas, lançando peçonha na cantante pronúncia de Villaret e danando as pausas tristes de Germana Tânger.

 

Vestem-se todos pessimamente e provam que apenas se preocupam com a alma, já que o corpo há muito foi esquecido e abandonado no sedentário gordo da preguiça.  

 

Há senhores de barba mal tratada a tombar na barriga de proeminências vastas, de negrume vestidos, calças largas a tombar na cinta e de trapo inevitável ao pescoço. Há senhoras com matizes tribais presos às coxas de embondeiro fazendo adivinhar as suas preferências pelo versejar africano. Há pretensas divas solitárias que encontram nos tules tísicos e na tosse rendilhada de Nobre a doçura acidulada de uma parca companhia. Há catraios esquálidos que sonham encontrar lençóis de carne na exuberância dos rasgos de Natália e há meninas vagas, vagas de vida, mortiças e meladas, melaço e abatimento a murmurar Camões.    

 

A poesia é tida como maldição suprema e desejada. O poeta é sempre a alma amargurada, condenada e sofredora, anquilosada pela dor que a destrói, de corpo arrasado pelo vício escondido na palavra que arde como ferida aberta ou que revolta e ergue as crostas da verdade.

Como será de esperar, estas doses cavalares de trágicos destinos não são compatíveis com a elegância e sofisticação de Sophia, de David Mourão-Ferreira ou mesmo de Graça Moura ou de Natália cujas imagens são preteridas em favor da de Luiz Pacheco, protótipo do poeta português porco, devasso, lúbrico e maldito.

 

Agudiza-se a tragédia quando decidem ganir a sua própria cuesia. É ver então desfilar pingados amores a rimar com dores, voar a rimar com sonhar, passarinhos a rimar com ninhos e molhados Verões e encharcadas paixões que não rimam com nada porque a maré está sempre baixa nestas ocasiões. 

 

A Gaffe detesta tertúlias literárias.

Sai sempre com os ouvidos a zoar, a zunir, a zarguear e repleta de perdigotos que lhe mancham indeléveis o vestido.

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