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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do avô

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.15

Tenho pensado em ti.

Chegaste sem armas, sem nome, sem peso e sem prestígio. Resististe sempre. Trazias na bagagem um Amor sem qualquer fronteira ou cidadela. Nunca abandonaste a mala pronta para sair a qualquer momento e em qualquer estação, tempo ou descampado e conseguiste que a vida que te rodeava fosse ampliada por milhões de estrelas, constelações inteiras nos teus braços que nunca desejaram mais do que saber Amar.

 

Disseram-me, avô, que tu morreste.

Talvez seja verdade.  
A morte poupou-te os olhos porque os trago agora dentro de mim, como um anel ou como lanhos de roseiras enlutadas. Vejo por eles.

 

Abrias as romãs e dizias-me que eram grãos de fogo, almofadas da terra onde os anjos pousavam as lágrimas dos pássaros.

Sentavas-me nas pedras e ouvíamos juntos o restolhar dos pardais e o germinar das águas. Falavas-me dos dias em que eu seria grande e eu acreditava.

 

 Rouxinóis de Agosto entre os teus dedos.

 

Havia tardes de Outono nos teus braços.

Havia tardes lentas de preguiça das árvores. Tardes de andar muito devagar e tardes de sons de folhas quebradiças que os dedos apertam e desfazem. Havia pingos de chuva do dia anterior pendurados nos galhos. O som dos gestos faziam-nos pesados. Tremiam e tombavam no pescoço da surpresa.

Havia nos teus braços berços e eu queria tanto a madeira morna daquelas traves que me deixava ir abrandado. Encostava a cabeça ao teu peito. As tuas mãos  em concha pousam-me na cara. Nunca vi ninguém reproduzir o gesto. Apoiavas-me as costas com um dos braços e as tuas mãos assim livres tapam-me o rosto por completo. Fazia-se noite de repente. Mais noite ainda do que a noite dos meus olhos fechados. Fazia-se o breu. Um refúgio amornado pelas batidas do coração que eu ouvia. Uma gruta onde soava em eco o murmurar em cadência de uma ladainha cantada sem vogais abertas, sem mover dos lábios. Ficava assim. Rendida e pequena à espera que o sono chegasse para que acordada lhe poder dizer que não o queria e o afugentar.

Havia o vento a engravidar o veludo espesso das cortinas e a chuva a murmurar baixinho uma reza enquanto se descalçava para entrar nas sorrateiras soleiras das portas, mas na tua voz a nudez das árvores enchia-se de pássaros como quem veste uma camisa branca. 

 

Era belíssimo o modo como te debruçavas sobre as palavras. Quase se percebia entre as tuas frases o barulho de folhas a virar. Ouvia-te como quem lê.
Transformavas as palavras em imaginárias melodias e eu tentava adivinhar a curva melódica que as frases desenhavam espalhadas no ar. Havia ritmos estranhos, outros conhecidos, havia ainda aqueles que cumpriam a magia.
Ficava parada a ver-te mexer os lábios, a gesticular, a inclinar a cabeça, a esticar o pescoço como um pássaro à escuta de outra entoação, a observar-te as sobrancelhas subindo e descendo neste vale de lágrimas, os olhos pardos que se semicerravam quando havia coisas elevadas a dizer, as mãos tamborilando na mesa sempre à procura de um objecto qualquer para o fazer rodar por entre os dedos e surpreendia-me com o fabuloso ser que eras.


Quando falavas, avô, encontrava-te a alma em todas palavras.

 

Depois de ti, a vida pouco me deixou para morrer. Não mais me vestirei de luto. O meu coração de vidro agora bate na sombra picada por vespas. Habito o país da Memória. Há lá lugar mais triste!

 

Mas estou grata.

Estou grata aos gatos que atravessavam o pátio dos teus braços, ao pão que me deste com o teu coração dentro, à minuciosa eternidade sobre os teus lábios quando nos lábios o silêncio cintilava a pedir casa ou vidros de janelas para entrar.

Estou grata a tudo o que me deste, que me protege do frio e faz da luz da pedra uma repentina gota de poesia.

 

Creio, avô, que há dores que nos confiscam a vontade.

São cobradores de impostos por pagar.
Hipotecam pedaços de nós e deixamos de saber se algum dia os reaveremos. Talvez o som, o timbre da tua voz, me tenha sido confiscado. Fosse o que fosse, o cobrador segue-me sempre, como um cão de guarda. Muitas vezes pensei que o via atrás de mim, mas percebia depois que tudo não passava do teu silêncio.
Com o tempo outras formas de mudez se vão dizendo. Abrem-se grades nos olhos e erguem-se paliçadas em redor do peito. Emparedamos a alma que se torna um tecido branco de mantel, mas eu sinto a tua voz sem timbre, a partir ferro e a desfraldar toalhas brancas de linho sobre a minha vida inteira.

 

Quando eu crescer, avô, quero trazer o teu coração no peito.

 

Parabéns avô. Tu conseguiste!

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Gavetas:

A Gaffe de um blog

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.15

PC.JPGTalvez se nos deitarmos na terra e no chão cavarmos uma cova com os lábios como quem beija amantes ou estios.

Talvez se tombarmos lá dentro a nossa casa.
Talvez se lavarmos com terra, depois, as nossas mãos, até a saudade se abrir na lama.

Talvez se mergulharmos no tempo de dentro dos olhos, como um lanho na água, talvez então acorde o minúsculo coração que respira o vento Norte.

Só depois.  

 

Espalhar metáforas de gosto e qualidade duvidosos por estas avenidas fora, é de uma confrangedora inutilidade. Ninguém decifra o que dentro vive - se viver - e arriscamos a coleccionar subjectividades ilegíveis.

Um blog é uma das mais interessantes formas de se dizer a verdade. Raros são os que acreditam e a catarse assim despenalizada inscrita na escrita é compensação.

O lê-me o que escreves dir-te-ei como és não é de todo descabido na sucessão de posts e, mesmo não querendo, a criatura que os vai mostrando acaba não só por revelar alguns dos lugares que lhe povoam os dias, como também imprimir em quem a lê uma imagem que se aproxima com relativa segurança do dono das palavras se a clareza incluída na objectividade for ponto assente. 

A metáfora é portanto um entrave a essa compreensão. Na vida acontece o mesmo.

 

As ligações que se estabelecem entre quem escreve e quem lê incluem muitas vezes uma cumplicidade oriunda da empatia que se vai criando ao longo do tempo das duas acções. Escrever e ler é dessa forma uma troca profícua de cumplicidades, sobretudo tendo em conta que a leitura é já uma reescrita.

Esta afinidade torna-se no entanto demasiado exigente.

Se a amizade pode ter mais direitos do que o amor, visto não ter as mesmas compensações, a que se estabelece na forma citada impõe condições e regras de difícil manutenção. Não sendo detentores de toda a informação, somos levados a perceber o outro que lê ou que é lido como entidades impolutas e desprovidas de mácula. 

 

É a imprevisibilidade do erro, do pequeno lapso, do minúsculo deslize, da mais ínfima e desculpável aleivosia cometidos por um dos interlocutores que adquirem proporções de catástrofe. O absolutamente inócuo acto falhado torna-se bisturi e separa a unha da carne.

 

Após a tragédia é inútil abrir covas com os lábios. Não resulta, deve ser doloroso e esbardalha-nos o batom.

Acreditávamos ter encontrado a água mais fresca da terra e descobrimos que afinal não é aquela que nos mata a sede.

 

O vento Norte talvez nos traga um outro coração.

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