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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pacífica

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.15

A minha irmã acompanhou fotograficamente o meu querido gigante durante um dia inteiro.

A vitória foi brutal. Desde sempre que captar a imagem do homem é tarefa inglória.

Apesar disso, suspeito muito no talento da fotografa que usa a mais capaz, eficaz e sofisticada das máquinas do planeta. É fácil recolher as mais fantásticas imagens que grassam por aí.

 

No entanto, as fotografias captadas são quase comoventes.

 

A preto e branco, a minha irmã recolheu o meu Amigo pleno e deslumbrante. Reconhecemos na esmagadora maioria das imagens, a densidade do homem, a sua claridade e a sua sombra, o angustiante e doloroso jogo de luz e ausência, a sua tristeza misturada com a quase felicidade que mergulha em pacífica e serena calma e silêncio.

As imagens são belíssimas porque, para além de tecnicamente perfeitas, são o mais impressionante retrato do momento da vida do homem.

(Espero que este esquiço chegue, porque tudo o que foi recolhido pertence ao recanto mais privado da vida de duas das criaturas que mais amo.)

Há, pela primeira vez desde há alguns anos, um pedacinho de luz, que me é estranha e que se torna renovada a cada passo, na pesada melancolia dos penedos do caminho que parece brotar do absolutamente nada, mas que fugaz surge nos olhos do gigante.

O despertar desse relâmpago acordou-me o espanto.

À noite, com as luzes da Avenida a entrar esmaecidas, tentei decifrar a luz vibrante que se espelhou em mim e aplacar a curiosidade.

Aproxima-se o meu rapagão e pousa a mão morena no meu ombro branco. Abraça-me e beija-me a nuca.

Volto-me e procuro na sombra os olhos ternos do rapaz. O seu mirar de chocolate quente, as estradas macias das pestanas.

Então subitamente entendo a luz que vi, porque é a mesma.

 

Como pétala branca em campo abandonado de batalha, cintila a mesma luz nos olhos de ambos.

 

Cintila a Paz.

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Gavetas:

A Gaffe banal

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.15

Group self-portrait. New York, 1920..jpgPreocupamo-nos demasiado em parecermos invulgares, originais, únicos, diferentes. Somos levados pelo desejo de nos mostrarmos peça rara capaz de figurar no museu das emoções alheias. Arriscamos mesmo o ridículo se tal for necessário.

No entanto, os nossos mais pequenos gestos, aqueles que fazemos com a maior das naturalidades, aqueles que se tornam automáticos, os banais e corriqueiros, revelam a nossa pertença à imensa maioria dos vulgares.

O nosso polegar direito fica mais próximo de nós quando entrançamos os dedos; a nossa perna esquerda fica por cima quando cruzamos as pernas; a palma da nossa mão esquerda fica virada para cima quando aplaudimos; a nossa mão esquerda fica debaixo do cotovelo direito quando cruzamos os braços.

 

Somos banais, inevitavelmente. Mesmo coroados. Se sentados num trono nos pavoneamos, seria sensato pensarmos na pouquíssima importância que Deus atribui às coroas e aos reinos, tendo em conta a gente a quem Ele os entrega. 

 

Foto - selfie em NY, 1920

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