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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe grega

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.15

Haderer.jpgÉ irónico – de uma ironia trágica como seria de esperar – que o povo que criou e ofereceu o conceito de Democracia à Europa seja aquele que a Europa vai humilhando e destruindo numa espécie de freudiana vendetta da era pós-democracia.

 

Ilustração - G. Haderer

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A Gaffe circular

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.15

1.jpgA temperatura facilmente ultrapassa os 35º. Empurra-nos para o interior dos muros, para o interior das sombras das árvores, dos buchos e das pedras das escadas frescas de granito guardado do sol pelas trepadeiras. No interior protegido das sombras escapa-se à asfixiante atmosfera que faz estourar os frutos e levanta a poeira dos caminhos que levam à casa.

 

É a canícula a desenhar círculos concêntricos, apertados e distintos. Claramente sentidos, evidentemente adivinhados. Forças centrípetas sorvem-nos e arrastam-nos como títeres, fazem-nos impotentes marionetas movidas pelos fios de fogo do calor.

 

Ao fim do dia mesmo a penumbra escalda e são as salas interiores onde a temperatura desce abruptamente, as procuradas.

 

Neste fechar quente e claustrofóbico, o interior da sala maior, daquela em que as janelas se abrem para Norte, é escolhido invariavelmente. É aqui que a noite é aguardada e pela noite fora nos falamos.

 

Estes anéis circulares que se vão estreitando, são concêntricos e, se analisados sem réstia de emoção, parecem indicar a única direcção daqueles que, como agora nós, enredados neles acabam por seguir. Fatais, empurram-nos para dentro, para o mais ínfimo ponto onde se iniciam ou, nesta perspectiva, onde se acabam.

 

Se observar com a mais profunda atenção e afastamento a sala onde a noite se inicia com toda a gente pousada, vejo-me longe de tudo, com uma ausência completa de vontade e sem mácula ou culpa pelo facto. Afasto-me ds conversas, não por impulso desgarrado, teatral, furioso e momentâneo, mas porque não sinto falta das palavras. Talvez seja feliz e como diz o outro a felicidade não saiba contar histórias. No entanto, esta minha espécie de se ser feliz é como o bicho-monstro que as crianças suspeitam que existe debaixo da cama nas noites sem sono. É uma felicidade de antes de dormir. Uma estranha suspeita de que depois do beijo da mãe que nos sossega, há mais coisas que ninguém nos diz. É uma felicidade minada pelo receio de escuro. É um sentir que há qualquer coisa central que nos invade e nos sorve e nos deixa exaustos e escandalosamente vazios e alarves; que faz com que os dias permaneçam mudos, tombados a um canto, tocados pelas mãos de alguém estranho que não tem força para lhes arrancar um choro ou um riso, mas que fascinado aflora as rodelas das horas.

 

Há objectivamente neste interior do interior do Douro um maléfico sorver da alma dos outros.
Tornamo-nos ninguém porque deparamos de forma abrupta com a avassaladora e incongruente coisa inamável que jamais conseguiremos definir.

 

No cerne, no mais profundo interior dos interiores, o primeiro círculo tem como centro a forma quase melífera e maligna que absorve tudo, mesmo a seiva nos olhos da vontade dos outros. Deixamos de sentir para sentir para ele, por ele, através dele.

 

Diriam os entendidos que é o círculo d’oiro e que tem réplica no fundo de cada um de nós.

 

Eu gosto de ferrugem. 

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