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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe Número Zero

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.15

Umberto Eco.jpgMuito mais do que a história de um jornal que jamais verá luz do dia, muito mais do que a narrativa aparentemente tresloucada de um redactor paranóico que aparece assassinado depois de ter desaencatado ou reconstruído uma conspiração que envolve Mussolini, o Papa Luciani, a CIA e as Brigadas Vermelhas; muito mais do que a suposta revelação da fraude que que dura desde o fim da Segunda Guerra até aos nossos dias, Número Zero de Umberto Eco é sobretudo a denúncia do cada vez mais constante mau jornalismo e a demonstração dos meios mais ou menos subtis usados e abusados pelos meios de comunicação social na manipulação, controlo e domínio da opinião pública.

 

É irónico perceber que a apresentação televisiva de Número Zero coube a José Rodrigues dos Santos que pouco antes tinha sido responsável pela vergonhosa reportagem sobre os gregos, vazando a sua opinião no que era dito, modelando, orientando e dirigindo dessa forma a do público e atribuindo a todo um povo - sem pudor e através de insinuações ou afirmações aparentemente objectivas - comportamentos anómalos, fraudulentos e corruptos de determinadas classes que detinham algum poder na Grécia.

 

Número Zero é uma obra de referência, bastando para tal a capacidade que detém de acordar o leitor tornando-o capaz de gerir a informação que recebe com parcimónia, sobretudo em alerta constante e usando lamentável mas obrigatoriamente a desconfiança da primeira à última leitura.

 

A alternativa é deprimente.

 

"Amor, não estás a considerar que, pouco a pouco, também a Itália se está a tornar como os países de sonho para onde te queres exilar. Se somos capazes, em primeiro lugar, de aceitar e, em seguida, de esquecer todas as coisas que nos contou a BBC, isto significa que estamos a habituar-nos a perder a vergonha.

(…)

Não mais claros-escuros do barroco, coisas de Contra-Reforma – os tráficos emergirão en plein air, como se os impressionistas os pintassem: corrupção autorizada, o mafioso oficialmente no parlamento, o evasor fiscal no governo, e na prisão só os pilha-galinhas albaneses. As pessoas de bem continuarão a votar nos patifes, porque não acreditarão na BBC, ou não quererão ver programas como os desta noite, porque terão aderido a qualquer coisa mais trash, provavelmente as televendas de Vimercate acabarão no horário nobre. (…) Quanto ao resto, um bom filme à noite, o weekend aqui em Orta – e que se lixem todos os outros. Basta só esperar: um vez que, tendo-se tornado definitivamente Terceiro Mundo, o nosso país será plenamente habitável (…)

(…) A vida é suportável, basta conformarmo-nos."

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