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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num canto

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.15

Sasha  - Dido Aeneas.jpgProcurou silenciar a criança tocando-lhe com os dedos longos nos lábios.

- Ouve com muita atenção, minha querida. Esta é a obra de canto mais bela do mundo.

 

Sentou-se na poltrona de forma a não a ocupar completamente. As mãos agora nas minhas procuraram fazer com que eu, não mais do que dez anos, me aproximasse com suavidade do som que se ia erguendo e estilhaçando a placidez da tarde.

A sala era a sua preferida, a virada a Norte, mas pelos rasgões das janelas entrava a luminosidade das Primaveras incipientes e pacatas que nos provoca a enganosa sensação de que a luz, mesmo a mais frágil e evasiva, aquece a madeira do soalho e amorna a tessitura dos veludos das almas.

 

Os sons que ouvi vinham encadeados de forma cerrada, como se tivessem muros ou correntes dentro, como se estivessem presos uns nos outros e não houvesse espaço para desfazer as nuvens entre as notas, unidos por invisíveis dedos, por invisíveis palavras dentro das audíveis. Diferenciando-se, acabavam dolorosamente fundidos. Era nessa fusão, que surgia da colisão de nitidez que cada um possuía, que entravam no espaço do lamento animal. Já não eram voz humana. Tocavam a fronteira. Agonizavam dentro lamentos desumanos e gritos animais, mas com a beleza que nasce da transgressão e da subversão dos fonemas, da desobediência às regras e ao cuidado com que a linguagem verbo cuida em distinguir os sons.

Eram bichos e agonizavam nos lamentos de sons transgressores e subvertidos.

 

Ouvi até ao fim o canto mais belo do mundo e ao tentar mudar a luz da sala fria que trepava pelos móveis, alcançando a taça de prata sobre a mesa e abrasando as maçãs vermelhas, procurei fixar a angústia acidulada que enlaçava os objectos e os gemidos que trucidavam a placidez do instante.

 

- Não tentes. - Disse-me e correu os cortinados que de pesados rosnaram nas argolas, sem agonia, lanho ou subversão. - É O Lamento de Dido, em Dido e Eneias de Purcell. Nunca tentes domar a Tristeza atravessando-a com uma luz imperfeita. Deixa que a Tristeza se canse até que a luz que traz quebre por dentro.

 

Ontem ouvi, ainda às escuras depois de tantos anos, a obra de canto que ele dizia ser a bela do mundo e senti um orgulho imenso por concordar com o meu avô.

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A Gaffe cacarecada

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.15

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Estes são os chamados cacarecos.

 

Encontram-se em qualquer feira de artesanato, mesmo ao lado da banquinha das bugigangas de arame e contas de plástico e em frente da que vende garrafas vazias com coisas de cortiça dentro, tudo vendido por pessoas muito simpáticas, com vestidos de padrões tribais, frescos, amplos e a arrastar, rastas por todo o lado, restos do que fumam no biberão do puto e batuques à disposição.

 

Entre os quinze e os vinte anos achamos aquilo giríssimo e compramos um ou dois exemplares, mas nessas idades também fazemos topless sem primeiro ensaiarmos ao espelho.

A partir dos vinte, passamos a desejar ter nascido em 1755, mesmo que isso nos dê uma certa idade, para que o terramoto escaque aquelas tralhas.

Aos trinta decidimos fazer um desvio descomunal só para não nos cruzarmos em Bragança com os mesmíssimos artesãos que nos impingiram os mesmíssimos cacarecos em Faro, na nossa desprevenida mocidade.

 

São coisas feias, os cacarecos.

Não são práticos, normalmente estão tortos, desengonçados, desequilibram-se, por muito que façamos não encaixam em lado nenhum e tudo o que se coloca dentro fica a saber a barro.  

 

Os de William Martin, da Inglesa Martin & Co., por muito que se tenham internacionalizado e adaptado às exigências dos mercados actuais, não escapam ao habitual. Uma rapariga esperta procura de imediato as portas de emergência quando ao longe esta ameaça artesanal é vislumbrada.

 

No entanto, a Gaffe gostava imenso que as meninas conhecessem este oleiro. 

 

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A Gaffe exigente

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.15

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Depois de lhe ter sido mostrado TODO o stock da loja, a minha prima finalmente encontra!

 

- É exactamente esta a cor que eu queria, só que em verde.

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Gavetas:

A Gaffe de Afonso Cruz

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.15

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A Gaffe ficou sentadinha à espera que Afonso Cruz entrasse no Contentor 13 e ficou apaixonada.

O homem é lindíssimo, apesar da barba mal tratada! Tem uns olhos do tamanho do mundo, doces e ternurentos, uma boca e um sorriso de deixar a Gaffe derretida e a pensar se as estrelinhas que vê pertencem apenas ao libidinoso sonho de acordar com ele na cama.

A masculinidade do rapagão desaba sobre nós com uma suavidade inesperada e a voz baixa e ligeiramente cava arrasa-nos o coração.

 

Os depoimentos que coadjuvavam o documentário foram inúteis. O testemunho da senhora que o edita, escapa e é ouvido sem surpresas, mas é desastrosa a participação da amiga do escritor. Surge de repente uma mulher pedante a esbardalhar análises literárias pretensamente eruditas, com um cheirinho psicanalítico misturado com Voltaire que esconjura sempre que pode, fazendo-nos suspeitar que decorou o nome na véspera.  Uma chata inútil com a boca repleta de frases feitas que consegue a façanha de aborrecer mesmo quem a deixou de a ouvir logo de início, embora não tenha deixado escapar a barbaridade que soltou ao comparar o amigo a Gonçalo M. Tavares, mas com alma, subvalorizando o escritor em foco, aproximando-o de um outro ainda por cima da mesma geração, vivo e a mexer – é sempre aconselhável comparar um autor vivo com um autor morto há muito tempo -, e reduzindo Gonçalo M. Tavares a uma máquina que produz uma gelada intelectualidade. A verdade é que Afonso Cruz às vezes, longe, muito longe, lembra o mais ínfimo e o mais imperceptível risco breve de Gonçalo M. Tavares, mas o contrário também é visível. É uma tolice retirar a alma a um para valorizar o outro.

 

A Afonso Cruz devia ter escolhido um inimigo.

 

É evidente que este homem é um magnífico escritor. A Gaffe ficou rendida debaixo dos seus guarda-chuvas, mas o impacto físico do rapaz, nunca adivinhado nas pobres fotografias, deixou-a muito bem impressionada e decidida a dispensar os habituais e maçadores critérios literários na apreciação dos novos vultos da nossa escrita. Há imensa gente que escolhe os livros pelas capas ou pelos títulos, a Gaffe não vê nenhum inconveniente em seleccioná-los pelos rabiosques dos autores.

Se José Luís Peixoto tem as perninhas curtas e gorduchas e um sorriso macabro; se Valter Hugo Mãe nos surge anafadito e baixinho pronto a rebentar os botões das camisas pretas, com uma barba empolada que até lhe alarga as ancas; Se Tordo tenta ser tão pouco atraente como é tão pouco escritor e se Gonçalo M. Tavares quer parecer um civilizado troglodita tímido e tão interiorizado que não deixa espaço para uma visão mais do exterior, a Gaffe fica reduzida às estupendas nádegas e aos volumosos peitorais de Afonso Cruz que são sempre óptimos de ler ao deitar.

 

Tendo em conta os factos, a Gaffe espera ansiosamente que o rapagão escreva muito mais.

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A Gaffe no palácio

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.15

Lucrécia Panciatichi.jpg

Em Florença, no Palácio Uffizi, uma das mulheres mais belas do mundo, Lucrécia Panciatichi, retratada por Bronzino, inquieta-me e surpreende-me numa tranquilidade sombria e malancólica que afasta o homem do centro do mundo, lançando a ousadia humana num qualquer ponto periférico da Criação.

Gosto desemsuaradamente desta mulher e de joelhos a venero. Nada é imperfeito. Nada se reduz ao inacabado e mesmo na perplexa hesitação do gesto, existe a tristeza infinda de uma história que de longínqua se reduz ao seu olhar.

 

Em Florença, num Palácio, uma das mulheres mais belas do mundo espera em contido desespero que alguém entenda a doentia paisagem do seu isolamento.

 

A Beleza perdura e é eterna quando na bainha do tempo está inscrita a dor de ser sozinha numa história.

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A Gaffe leiloada

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.15

G..jpgÉ constrangedor o modo como algumas raparigas espertas conseguem unir a desfaçatez com que nos tentam impingir uma quantidade imensa de produtos que lhes oferecem umas amostras ou lhes pagam uns trocados ao facto de acreditarem que somos todas parvas e crédulas até à imbecilidade ou à idiotice catatónica.

 

A Gaffe não é de todo contra as artimanhas que ajudam uma pequena a safar o orçamento à custa da papalvos que estão convictos que a honestidade e o desinteresse são notas vivas nas pautas dos seus blogs e, embora suspeite que é crime leiloar a descendência, não lhe parece mal emprestar os miúdos amados até ao infinito a uma cadeia de supermercados ou a uma boutique trendy em troca de um babygrow. Uma rapariga tem de fazer pela vida e os miúdos podem contribuir para o sustento da casa, da ADIDAS e do made in Indonésia. A cavalo dado não se olha o dente, que normalmente nos putos leiloados ainda não eclodiu.

 

O que a intriga, para além do facto de suspeitar que estas moçoilas estão convencidas que mais do que meia dúzia de tolas, existe uma multidão imensa que ainda não percebeu o esquema montado e que se vai enrolando na pureza e na inocência das suas tão simpáticas intenções, é a completa devassa da intimidade a que se predispõem.

 

Vai tudo a eito. Nada escapa desde que traga uns trocaditos. Colocam-se bebés nas montras, etiquetados e identificados; colam-se fotografias de WC com o marido dentro, sentado na sanita, muito contente porque o papel higiénico tem macaquinhos desenhados e veio às resmas; come-se na varanda, decorada com tralha oferecida pelo IKEA, o frango dado pelo restaurante da Baixa na caçarola que chegou da CASA AO LADO, decorado com as folhas de ervas aromáticas com sabor a plástico enviadas pela ERVANÁRIA do MONTE ou remodela-se o quarto do casal com paspalhos coloridos fornecidos pelo ERNESTO&FILHOS - móveis e iluminação -, enquanto ao espelho há o espalhar em lingerie recebida na véspera do bronzeador que a Perfumaria ESTRELA D’ALVA pagou para que se fizesse de conta que se está a usar. Tudo é exposto, comentado e publicitado e a Gaffe até nem se importa de visitar a mostra de quando em vez.

Há milhares de olhos estranhos que conhecem de cor a cor da pele das crianças e a dos tarecos que se apregoam através daquilo a que Miguel Esteves Cardoso chamou lambecusice interesseira e é intrigante perceber como estas raparigas felizes despejam na rua sem qualquer pudor e se lhes pagarem o que se deveria manter privado a todo o custo.

 

A diluição de fronteiras entre o que deve ser nosso e o que pode ser de todos, nunca deu resultados animadores. A promiscuidade entre o público e o privado foi uma das responsáveis pelo trambolhão de Impérios e contribuiu grandemente para a derrocada da Idade Média. Convenhamos que é exagerada e possivelmente descabida a alusão histórica, mas o certo é que os nossos impérios mais íntimos carecem de muralhas intransponíveis e, em média, já temos idade para perceber que quanto mais nos curvamos para apanhar as moedas ou polir os metais à clientela, mais o cu mostramos e que acabamos por ficar com ele sempre ao dispor.  

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A Gaffe do Continente

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.15

Se nos atrevemos a declarar inocentemente que somos obrigados a ir ao Modelo, ao Continente, ao Pingo-Doce, ao Intermarché para, por exemplo, comprar umas coisitas banais e baratas imprescindíveis à nossa higiene pessoal, somos olhados com o mais profundo e sobranceiro desprezo pelo pessoal que por aqui, sofisticado, só se desloca a Grandes Superfícies.

 

Fomos então, eu e a minha prima, à Grande Superfície comprar cereais e algodão, desodorizante e sabonete Patty de que a minha costela parisiense tem saudades.

Encontrado o desejado - embora tenha havido filosófica, assanhada e desabrida hesitação em relação à marca do desodorizante a escolher -, descobrimos que a caixa destinada aos clientes que trazem no cesto nada mais do que dez unidades estava atulhada por um carrinho a vomitar produtos pelas grades, rodas, frinchas e interstícios.

De saco de arroz carolino nos dentes, com os dedos enfiados na ranhura da moeda, rabiava uma criatura daquelas que parecem ter saído do chão do Senhor dos Anéis para atacar o Castelo. Uma anã horripilante, medonha, feia, disforme e maldosa.

Com voz de macaco de ventríloquo, aquela coisa má e cabeçuda, de pernas arqueadas e braços mesquinhos, arreganha os dentes e tenta morder:

- A gente sabemos como bocês soindes! Ambas as duas com a mania cas finas chêgo e puode tudo. Num bale a pena armar-vos aos cágados qu’eu tenho dois pares d’olhos e ninguém se ponhe à minha frente!

A anã esgadanhava o ar a rosnar furiosa com os olhos raquíticos cravados nas minhas rótulas.

Pensei dar-lhe um chuto nos dentes ou espetar-lhe os dedos nos quatro olhos e arrumar o assunto, mas a minha prima, mais presa pela surpresa do que por distinção fleumática, tentou mostrar-me que havia uma caixa livre e solta alguns produtos mais à frente. A nojenta criatura que ficasse desonesta e insultuosa a ocupar lugares a que não tem direito.

Hesitei, mas não transigi, não condescendi, não tolerei.

A anã estava escandalosamente a usar armas inconstitucionais! Percebi que o facto da mulher ser um cangalho feio e disforme, saído directamente do Senhor dos Anéis para servir no exército de Saruman, estava a ser usado para provocar uma espécie de piedosa compreensão, permissividade e condescendência perante a prepotência nata, ofensiva e intrinsecamente maldosa, independente do facto do tamanho do bicho não ser o da Naomi Campbell - igualmente cabra.

Se é para sacar da artilharia ilegal, eu também tenho algumas surpresas proibidas e MUITO TREINO no uso de reles artimanhas.

Perante a estupefacção da minha companheira de infortúnio, atiro o mais rasgado, encantador, fascinante e sedutor sorriso ao menino da caixa das dez unidades e num lance bem sujo levo o dedinho à boca, amuadita e indefesa, suplicando ao jovem cavaleiro da máquina registadora que soltasse o herói desconhecido que bem no fundo lhe cavalga o peito e que defendesse a ruiva prisioneira do dragão raquítico.

O menino da caixa abana as melenas e as crinas do cavalo no interior e já de Távola Redonda, ralha esganiçando espadas disposto a despejar tudo no carro da anã:

- Estas meninas assistezes-lhes a razão. Esta caixa é só para menos de dez unidades.

- Eu sou menos que dez unidades, Toninho! Tu bias isso, mas já num tiras os olhos de dois pares de mamas finas que de dez unidades também num bejo nada. – Grunhe a anã dos olhos invejosos.

 

De soutiens humilhados, com os pares referidos mais ou menos embaraçados, rumamos à caixa quatro, quatro pares de carrinhos à frente.

 

Há treinos que apesar de pequenos são mais intensivos e bem mais eficazes que os meus.

 

Ilustração - Norman Rockwell

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Gavetas:

A Gaffe questiona

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.15

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A sweet tongue, a dirty mind, a playful heart and a loving soul.

Wouldn’t that be an amazing combination?

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Gavetas:

A Gaffe com um plano B

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.15

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Esta rapariga tem de admitir que atingiu o nível de exaustão que faz com que acordar lhe dê vontade de chorar. Não se espantaria se arrastada pelos corredores largasse o cérebro transformado em baba ou se caminhasses como um macaco drogado apenas porque já não aguenta levantar os braços.

 

Três pesados dias me separam das férias. Três dolorosos dias em que corro o risco de desabar em lágrimas no meio de uma irritação e impaciência injustificadas. Três medonhos dias em que terei de encontrar forças para articular palavras de modo a que ninguém perceba que não foi ouvida.

 

Deixei os planos de férias ao cuidado do rapagão. Vou para onde me levar o coração. Neste caso, o dele. Nunca é boa ideia gerirmo-nos pelas batidas de corações alheios e, apesar de arrasada, consegui engendrar um plano B.

Recuso-me terminantemente a ser enfiada no meio da selva, toda caqui e de chapéu de lona, à procura da tribo Tiruné-tupiraná para estudar os métodos de cultivo do tribibiré ou em busca da raiz do fungagueiré, mesmo que tenha propriedades alucinogénicas. Geralmente estas tribos têm um cabeleireiro miserável e desactualizado, os SPA resumem-se a umas terrinas repletas de argilas alaranjadas que vão secando durante a semana e a maquilhagem é sempre igual à das meninas dos festivais de Verão na Caparica. Depois, as mulheres têm todas as mamas caídas, trazem gente pequena as costas e usam fio dental de folhas de árvores que arranham imenso. Os homens são todos baixinhos, andam aos saltos, têm sempre umas pilas grandes, pintadas ou enfiadas num corno e disparam setas impregnadas em curare. Curare por curare, prefiro o parisiense que é injectado em pequenas doses produzindo imunidade e já ninguém tem pachorra para discutir as vantagens e as desvantagens do tamanho das pilas. Cansada com estou, é-me indiferente que haja espaço para reproduzir Guerra e Paz ou apenas para rubricar o apelido do autor sem riscar os outros papiros.

Não adianta argumentarem com a explosão orgíaca de cores. Em Madrid, no La Chueca, toda a gente é arco-íris e ninguém me assusta com as coisas que se enfiam na boca.

 

O plano B inclui uma brutal e insuspeita alergia ao tirimbimdum e à dança tupiraué, uma passagem para Paris e alojamento no Ritz-Carlton no quarto de onde a Princesa saiu para se esbardalhar contra o muro.  

 

Haja respeito!

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Gavetas:

A Gaffe na cama

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.15

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Deus dorme.

Deus dorme numa Hästens. Aliás, para os mais fervorosos, Deus é uma Hästens.

 

A loja do Porto, aberta recentemente, tem no atendimento um cruzamento entre um arquivista conservador e um playboy de meia-idade que usa como referência Cristiano Ronaldo para nos impressionar com os escolhidos dois metros quadrados de paraíso celestial garantido por 25 anos, de que a vedeta não prescinde.

A Hästens é o Rolls-Royce das camas, apregoa. O slogan não deixa de parecer ranhoso, mas acaba por se revelar bem conseguido, tendo em consideração a excelentíssima qualidade do produto sueco e o seu preço que, como seria de esperar, não admite negociação. 70% no acto da encomenda e o restante no da entrega.       

A composição das Hästens é complexa. Recorre-se a métodos de fabrico artesanais e as matérias que as constituem são rigorosamente escolhidas e de qualidade extrema. As camadas distintas, sobrepostas, produzem um espaço insonorizado e proporcionam um conforto a que só os deuses costumam ter direito.

As duas classes existentes - escandinava e continental - diferem ligeiramente no preço, mas são ambos de uma perfeição inigualável.

A entrega demora cerca de oito semanas, porque uma Hästens é sempre personalizada pelo cliente e executada à medida dos seus desejos que devem no entanto respeitar o padrão que a identifica.

 

Se Deus dorme numa Hästens, é altura de acordar com ele ao lado. 

 

No Porto - Av. Marechal Gomes da Costa, 218 / Rua de Jorge Reinel, 40

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A Gaffe doméstica

rabiscado pela Gaffe, em 25.07.15

Mary Petty.jpgFranzina e hiperactiva, a Rosa  tem um problema grave de motricidade fina, ou seja, tenta no mais curto espaço de tempo partir o maior número de pequenas coisas.

O Arcanjo soberbo, barroco e piedoso, aponta agora para o céu de forma pouco convincente, com dois dedos ratados; o cavalo de marfim, de difícil dano, relincha agora sem orelha e o bule de uma perdida dinastia antiga abre o bico lascado sobre o tempo.

Há cacos por todo o lado!

- Já não falo naquela escultura de madeira rara que o teu pai comprou em Madrid. Aquela coisa moderníssima está literalmente dividida a meio. Já sei que fica bem mais agradável assim, mas vai ser um choque quando o teu pai descobrir que não era essa a intenção do autor.

Sugiro a minha irmã para o desempenho do papel de carrasco na produção da minha mãe. Mais habituada do que eu a estas andanças, o potentado pode com eficácia carregar no corta ou no delete.

- Não sejas sádica!  - Suspira a minha mãe, fechando os olhos em martírio.  - Não quero que a rapariga sinta que há alguém a retirar prazer deste imbróglio.

Depois de admitir que nenhuma das três era capaz de assinar a ordem de execução, a mente labiríntica da minha mãe encontra a solução.

- A tua avó está a queixar-se da falta de outra empregada há já algum tempo. Não achas boa ideia a Rosa ir escacar-lhe os tarecos todos por uns dias?! Deixamos de esbarrar com bibelots estranhos e impossíveis e com o feitio da tua avó é a rapariga que se despede.                                                                                                

(Agora sei, minha mamã fofinha, donde partiram os genes que a maninha herdou.)

 

A Rosa acolheu a proposta com uma alegria imensa. Retornar ao lugar de raiz era um dos sonhos.

Trabalha há largos meses em casa da minha avó.

                 

Quando, como quem não quer a coisa, mas se desunha para a ter, a minha mãe pergunta como se tem portado a demolidora, ouve a felicidade numa voz cantante:

- Nem imagina! Tenho despovoado a casa de tarecos que nunca tive coragem para destruir. Tornei-me uma aliada incondicional do pequeno desarranjo da querida rapariga. Partimos, as duas agora, tudo o que sempre desejei ver transformado em cacos, mas que não me atrevia por causa do barulho.

 

Há sempre competências insuspeitas no amontoado amorfo do que dizem ser defeito.

 

Ilustração - Mary Petty

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Gavetas:

A Gaffe esbardalhada

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.15

 

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A Gaffe na vizinhança

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.15

casillas-carbonero.jpgA minha irmã vive numa casa ampla e luminosa que os mais ilustres podem, num vislumbre, considerar minimalista. No entanto, a ausência quase total de objectos não se relaciona com qualquer opção estética. Ausente na esmagadora maioria do tempo e a necessitar de um lugar asséptico quando volta, a minha irmã compra determinado objecto somente se for de importância capital para o seu pleno conforto. Desse modo, um móvel existe porque nenhum outro pode ser movido. Há tarefas definidas para cada um dos objectos e porque a única preocupação na compra é a função que cada um tem de exercer, todos são limpos e puros como as obras de arte. 

Sempre me pareceu fria e demasiado calculista. A minha irmã suporta mal a cor à sua volta. Admite breves tons pastel, muitas vezes cinza, algumas vezes chumbo, outras vezes quase nada, mas recusa frequentemente outras paletas.  

- A cor distrai.
Sempre me pareceu uma casa vazia, como se estivesse eternamente à espera do habitante, e mesmo o espaço exterior foi terraplanado, limpo, despojado, permitindo apenas um tapete de relva macia emoldurado pelas sebes que ainda não tiveram tempo de resguardar e fechar todo o espaço.

 

É uma delícia tê-la na minha frente toda nervosa e toda indignada, a barafustar porque a casa contígua à sua, em silêncio desabitado, corre o risco de passar a albergar inquilinos pouco recomendáveis.

 

Uma nova-rica pedante, de jeans que até o fio dental nos deixam perceber e com uma maquilhagem igual ao snobismo que de tão exagerado denuncia ser de plástico e um homem engraçado, mas com um ar parolo, de pernas depiladas até ao tutano e um nome de um petisco qualquer.

- O homem chama-se Iscas! Valha-nos Deus!

Deus também sabe que não vai adiantar corrigir.

 

O casal Cabonero-Casillas devia ser prevenido que há na paisagem portuense precipícios que não convém descobrir.     

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A Gaffe do Condottiero

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.15

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Quando na Praça de S. João e S. Paulo, em Veneza, me deparei com a estátua equestre de Bartolomeu Colleoni de Verrochio, não obriguei a minha vida inteira a ajoelhar-se perante o poderio frio e seguro do condottiero de bronze.

Adivinhava-lhe a imponência clássica do homem que domina falcões luminosos, cães fenomenais e cavalos lendários, deixando a docilidade dos ambíguos arminhos, a alegria pilrritante dos coloridos pintassilgos ou a placidez dos impenetráveis coelhos, nas mãos da fragilidade das mulheres quinhentistas.

Sabia-lhe do quebrar do conceito de frontalidade que fascinava e viciava os clássicos e obedientes mestres da estatuária da época.

Por isso Bartolomeu Colleoni não se impôs, não me escravizou, não me obrigou a gravar no tempo que guardo para a memória, um lugar cativo com o seu nome em bronze trabalhado.

 

Eu esperava-o.

 

Só entendi completamente a derrota do Condottiero quando pasmei esmagada, na Igreja de Santa Maria del Popolo, com Caravaggio e a Conversão de São Paulo.

Quase ruinosamente erótico, liberto do traço e da iconografia clássica, o homem pintado tombado, aberto, de carne, arranca-nos a vida de repente e de repente lança com violência a nossa alma no espaço da divinal surpresa que é o Homem.

O humilhado desarçoado pelo cavalo é poderosamente mais tirano do que o gigantesco Senhor dono de Veneza.

 

Nenhum potentado é dominador inquestionável quando não tem a arma do inesperado absoluto disparada no centro da vida dos incautos. 

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A Gaffe nas árvores

rabiscado pela Gaffe, em 23.07.15
Às vezes no caminho cai uma árvore. Impede-nos a passagem. Ficamos deste lado. O corpo morto não deixa que avancemos e caminhar ao longo do gigante derrubado é a ilusão que temos de avançar.

A árvore caída continua a crescer. De raízes soltas e libertas da terra, cravadas no ar, e copa escurecida de folhas perenes, sem ninhos que os ninhos requerem as alturas do sossego. Por isso, nunca chegamos a descrever a recta da passagem. Não conseguimos sequer olhar para o outro lado, o lado que devia ser o prolongar do avanço, porque o tronco se agiganta, como se fosse vivo e latejasse. Então andamos ao longo desse corpo impeditivo e acreditamos que é assim que a nossa vida vai fazer caminho.

Quando cai a árvore e se atravessa morta no caminho, creio que deixamos de crescer. Deixamos de crescer e a suavidade, a calma, o amadurecer que se torna visível e palpável, não são mais do que o som das folhas secas dos nossos passos na linha paralela à árvore morta.

Não amadurecemos quando no meio do caminho as árvores tombam decepando o trilho por onde seria de esperar que avançássemos. Mudamos a direcção do caminhar. Agora o em frente é paralelo aos mortos.

Aprendemos depois a redefinir o caminhar. Alteramos o sentir, o sentido, da palavra como alteramos a bússola redesenhando o Norte, mas deixamos de crer que é ponto certo. Sabemos, lá nos confins da alma, que mentimos e que o nosso caminho foi cortado, que os passos que damos podem ser os de outro. Acreditamos às vezes que apesar de tudo prosseguimos e que o novo traçado no solo que pisamos nos vai levar à vida que afinal é uma, mas a cada passo mais ténue, a cada passo mais frágil, tropeçamos com a sombra do que está tombado.

Não amadurecemos ao lado das árvores que um dia quisemos ainda mais que à vida e que desataram a morrer no chão, matando o que em nos seria em frente.

Andamos ao lado.

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