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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe fantasmagórica

rabiscado pela Gaffe, em 01.07.15

A Gaffe fantasmagórica.jpgO amor é o único lugar onde é permitido roubar ou mesmo violar quase todos os outros Mandamentos. Daí haver sempre a possibilidade de vencer o rival ou a rival - para simplificar vamos chamar-lhes o Outro - desde que saibamos que, em última instância, é permitido arrancar olhos e pontapear miudezas.

 

É lamentável e deprimente que uma mulher, chorando baba e ranho, possa perder sem dar luta renhida o que pensa ser o Amor da sua vida, mesmo quando o rapaz em causa se inclina para lugares nunca dantes navegados, mesmo quando o Outro é um matulão de bigode e barba rija ou uma loira luxuriante saída de um panfleto das Marés Vivas.

 

Há, contudo uma excepção: o que perdemos, está morto.


A morte transforma a vida em destino e lava todas as máculas, todas as nódoas, todas as ofensas, todas as manipulações malditas que por amor e em vida foram existindo. Contra isso todas as armas tombam num Alcácer-Quibir mais que previsto.
Fica apenas a memória do que foi divino, perfeito e demasiado grandioso para ser tocado ou alterado e, mesmo essa memória, lapidada pela morte, ampliada na luz que irradia, faz do nosso amor perdido a Eternidade.

Não há saída. Perdemos mesmo antes de pegar em armas, somos vencidos mesmo antes de começar a luta. Iniciamos o que não pode ter início. A morte tem sequestrado o  coração que desejamos nosso.


Tenho uma fotografia de um destes mortos.
Um manipulador de almas, perigoso e implacável que desaparece substituído por um anjo branco, esguio, descalço, de olhar esverdeado, frágil e belíssimo que, dizem as vozes em surdina, surge, alma penada, na humidade da cisterna à procura do amor que destruiu.    


Sabemo-lo da morte, mas sentimos também que nos assombra a vida. 

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A Gaffe de Margarida

rabiscado pela Gaffe, em 01.07.15

Há acessórios que substituem na perfeição os braços de um homem. Usados, dão-nos por comparação a certeza da fragilidade de uma história de amor embora nos causem também algum incómodo. Transportar o da imagem não deve ser como esquecer um caso amoroso que não foi entrançado com os fios correctos.

Tentar saber quais são os filamentos que conseguem, de forma certeira e consistente, tecer uma narrativa de amor, é uma tarefa que de tão inglória nos deixa sozinhas, espapaçadas no sofá, a mirar o infinito.

Há quem nos diga para não pensarmos nisso, para vivermos cada sopro do vento, cada minúsculo movimento de uma folha, cada suave deslizar de um seixo. O tempo encarrega-se de transformar um fio de baba em fio de seda.

 

Concordaria, não fosse a minha amiga - há sempre uma oportuna amiga nestas coisas - a brutalizar este rasgo muito ao gosto de Confúcio.

Viveu, a pobre, uma história de amor quase encantada, unida a um homem que, de tão perfeito, conseguia a façanha de estar sempre presente, mesmo quando as ausências eram mais frequentes. Um príncipe que nem sequer passou pela fase de batráquio. 

O principado implodiu quando o viu entrar afogueado e aflito na urgência hospitalar - onde, bata branca e estetoscópio em riste, a interna da especialidade socorria os mais feridos - com um filho nos braços (um episódio de asma, nada grave) e com a preocupada esposa apensa, loira, linda e chorosa, arrastando o segundo rebento pela mão.

Enfrascou um Valium 10, pediu que a substituíssem e foi para casa destruir à pancada os bichos-da-seda.

No dia seguinte foi comprar acessórios.

Enrolada em caxemira, ainda a pode encontrar numa loja perto de si ou no sítio do costume.

 

O amor não escreve histórias, por uma das razões mais prosaicas que conheço: todos os brevíssimos momentos de felicidade que vivemos, são analfabetos.

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