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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem comunicações

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.15

lillian bassman.jpgO rapagão está debruçado sobre o meu telemóvel.

 

O aparelho, um topo de gama oferecido pela minha irmã, nunca recebeu a importância que dizem merecer. Usava-o essencialmente para atender chamadas, já que quase nunca tenho saldo para as fazer.

 

Deixou de funcionar. Morte súbita.

 

Liga-se, a luz azul invade a larga, moderníssima e dinâmica janela rectangular e passados alguns segundos o negrume apodera-se do bicho.

Segundo o rapaz inclinado sobre o cadáver, o problema está na bateria. Deixou de alimentar condignamente o animal que sucumbiu assim exausto e esfomeado.

Uso agora um caco velho que encontrei dentro da lata de vidro, vazia de bolachas, pronto para ser reciclado. Tem dentes cariados, é careca, teclas desengonçadas, tampa segura por um pedaço nauseabundo de fita adesiva e uma janelinha toldada e baça como um óculo de porta em noite de névoa.
O grande problema deste vergonhoso substituto é que me faz ouvir as pessoas como se gritassem no meio do mato, desesperadamente perdidas, horripilantemente perseguidas por seres de outros mundos que sugam sangue, mas que fortalecem durante a sucção as cordas vocais de todas as vítimas.

 

O aparelho podre estoura-me os tímpanos.

 

- Ajudas-me se fizeres baixar a este o volume do som. – Suplico ao rapaz que continua a fazer, no moribundo, reset atrás de hard reset, como na urgência um transtornado médico a desfribrilhar com pás e outras descargas acidentados corações sem pio.

 

- Mas não podes usar um traste desses! Parece que foi roubado.

 

- Basta-me que não grite. – Reafirmo com os olhos a destilar esperança. Depois repenso o que foi dito e arrisco um toque travesso:

 

- ... Basta-me que não grites.

 

O corado rapagão empurra-me com o jeito de quem, maroto, não quer, mas que deseja.

Depois de declarar a morte do design e de me prometer que iria, de loja em loja como de flor em flor, em busca errante de um aparelho novo, decidiu provar que não me incomodava nada aos gritos, sobretudo nas chamadas mais privadas, mais internas, feitas no gabinete dos arquivos mudos.

 

Foto de Lillian Bassman

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A Gaffe em Julho

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.15

Julho.jpgO Sol de linho branco desfaz o nó das sombras sob as árvores e no coração estrídulo dos grilos.

A Terra é uma laranja. O céu liláses. O sardão na cal escalda e sonha sedento de frescura. A carne em carne viva das amoras. O lanho das laranjas labaredas. Espesso o vinho ferve em taças de metal. As agulhas do sol picam os pássaros parados na água extenuada.


Abrasa.


Queima na cal do muro a cicatriz da espera.
Ferrugem nos cabelos dos peixes que cegaram na luz de ferro que se espetou no ninho.

 

E eu sem ti, roxa de frio.  

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