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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num "déjà vu"

rabiscado pela Gaffe, em 08.07.15

Louvre 4.jpgO tempo curva-se, circular como pulseira. Fecha-se com um estalido e sustenta a união improvável dos espaços.

Foi há três anos? Quatro? Foi agora?

 

A noite no Douro escalda. Aproximo-me do gigante que não dorme. Está sentado na varanda para onde arrastou uma poltrona. Tem vinho maduro no copo alto e bolas de chocolate numa taça ao lado. Na penumbra distingo-lhe a camisa larga de linho claro e as calças amarrotadas e sujas pela tarde. Tem os pés descalços sobre as pedras quentes. Vai enegrecendo lentamente e os ângulos do corpo descrevem gestos lentos.

É noite dentro.

Sento-me no chão, aos pés do homem.

- Contas-me uma história?

O homem atravessa-me o cabelo com os dedos. Depois e devagar vai desfiando contas de rosários feitos de palavras. Fala-me da terra e da água, dos livros e das letras que diz ouvir crescer e da imensidão dos brevíssimos instantes do voo das páginas.

Depois sorri.

- Agora vai dormir. Já se fez tarde.

Quero sempre mais do colo dele.

- Agora vai dormir.

E eu obedeço.

Perco-o devagar ao afastar-me e é já por dentro do silêncio do perdido que o oiço esvoaçar por entre a noite:

- Não posso deixar que tu me ocupes tudo.

 

Em Paris, foi ontem?

Fugimos pelas ruas como dantes.

Tenho o mesmo homem a contar-me histórias. Conta-me segredos que eu não sei. Não tenho passos para pousar no espaço que de repente ele abre no caminho. É mais do que ele o homem que me descreve o mundo.

Deita-se no chão com a cabeça no meu colo. Atravesso-lhe o cabelo com os dedos. Sinto um caracol negro a abraçar-me o dedo como a pequena mão de um recém-nascido.

É noite dentro e bebe vodka.

Traz uma t-shirt cor de telha, justa, e calças negras de uma sarja fina que lhe marcam as coxas robustas e potentes e lhe desenham o sexo, inevitavelmente.

Não tenho escrúpulos. Sei como me atrai a inocência.

- Sabes que te posso ter agora, se quiser?

- Sei. Já te apanhei a olhar duas vezes para a minha braguilha – Os olhos pretos sem qualquer receio, – mas sei que não arriscas perder isto.

Não arrisco perder a inocência no meu colo. Não arrisco ficar sem a noite de Paris nos meus joelhos. Não sei se conseguia sobreviver à ausência do gigante que me atou as mãos do amor por dentro e me doou a mais perfeita forma de um Encontro.

- Conta-me uma história e eu fico quieta.

Conta-me das ruas que deixou de ter e dos pássaros que voam em direcção ao Fado.

- Agora leva-me a casa. Já não consigo guiar coisa nenhuma.

Levanto-o. Abraço-o e no morno do abraço ouço baixinho:

- Não posso deixar que tu me ocupes tudo.

 

O tempo curvou e é pulseira nas noites do meu pulso.

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