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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe orgulhosa

rabiscado pela Gaffe, em 09.07.15

ingres-napoleon.jpgDe acordo com o especialista, tenho de depurar aquilo que faço passear por estas avenidas. Decepar os adjectivos, decapitar os advérbios e anular as metáforas, tentando ao mesmo tempo desviar-me dos clichés e das frases feitas. Só dessa forma poderei almejar um dia fazer de conta que escrevo como o que se lê aqui.

A verdade é que passo de rajada pelo calcetado destas avenidas. Não há motivo de orgulho no desenho que vou fazendo com as pedrinhas das palavras.

 

Felizmente.

 

Das várias espécies de orgulho, apenas uma é salutar. As outras transformam-se a curto prazo em soberba.

O orgulho é impiedoso. Não estanca deslumbrado perante o que fizemos, dissemos ou pensamos. Responde a uma exigência e nada mais é do que a confirmação do que somos, realizados naquilo que produzimos. Não nos considera grande coisa. Cumprimos o que esperávamos de nós. Torna-se implacável e quase assassino, disfarçado muitas vezes de abatimento e de opróbrio, quando falhamos. Faz com que o cirurgião, por exemplo, chore desalmado escondido numa retrete nauseabunda por não ter conseguido salvar o paciente e castiga-o de modo subtil fazendo com que se torne obrigatório ser o choramingas a comunicar a notícia àqueles que esperavam um milagre ou manipula a palavra profissionalismo enfiando-a na boca do polícia que nada mais faz do que cumprir um dever com a qualidade que se espera óbvia, protegendo a criança da sanha violenta do colega, mas que apesar de tudo é evidentemente maior do que a dos companheiros de infortúnio, espectadores inertes.

 

O orgulho, o que vale a pena, é um factor de prevenção. Permite que evitemos cometer erros. Protege-nos. Ergue-nos, endireita-nos a coluna. Com a coluna erguida é muito mais difícil entrar nas caixinhas da traição, da mentira, da intriga, da mesquinhez e das tantas outras coisas que rastejam. 

 

O orgulho, o que vale a pena, não se ergue daquilo que fazemos, dizemos ou pensamos (talvez, nestes casos, dê lugar a uma vaidade que é sempre um fogo fátuo). É outro virar de cabeça para trás. Olha o que somos em retrospectiva, porque sabe que somos sempre uma fusão do passado. Geração atrás de geração, atrás de geração, atrás de geração, mas indiferente ao facto de chegarmos até Napoleão ou pararmos no avô que nos pariu, o orgulho adquire neste recuo uma das suas componentes imprescindíveis. A vergonha.

 

É este orgulho facetado que impede a desonra de aviltarmos o que se reflecte no espelho quando nele tombamos. Não somos Alice num país de maravilhas, somos os que nos precederam todos juntos e o orgulho sabe que só o passado é eterno.

 

Imagem - Jean Auguste Dominique Ingres

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A Gaffe opticalizada

rabiscado pela Gaffe, em 09.07.15

nick sushkevich.jpgA Gaffe foi comprar uns óculos de sol.

Encontrou-os, após penar, suar e quase desistir de tentar evitar as rugas provocadas pelo franzir dos olhos, exactamente iguas aos que Alina Zolotykh usa na imagem.

Não se pode dizer, como é uso, que lhe custaram os olhos da cara, pois deixariam de fazer sentido pousados na cana do nariz, e não se consegue encher a boca com o levaram-lhe o couro e o cabelo, tendo em conta que os está a usar e o contraste que fazem com os caracóis afoguedos é notório.

Digamos apenas que foram carotes.

 

O que mais intrigou esta rapariga nas ópticas visitadas foi o uso do singular aplicado a palavras que não o possuem, sendo invariáveis.

A menina do balcão, aperaltou a simpatia e perguntou se a Gaffe desejava um óculo de sol em massa ou noutro material e se o óculo de sol desejado teria uma lente graduada. Recordou entretanto que um óculo de sol tem de ser robusto.

A Gaffe não saberia o que fazer com uma lente graduada e repetiu que o seu objectivo era apenas o de comprar uns óculos de sol, sem mais nem menos, puros e duros.

A menina informou que lhe iria mostrar uma quantidade substancial de óculo de sol.

A Gaffe esperou ver surgir um bando de piratas munidos de extensivos apetrechos de mirar ao longe, mas refreou a alegria quando a menina simpática lhe estende no balcão um manancial de óculo de sol que não foi do seu agrado.

Três ópticas depois e depois de ter experimentado em todas um quantidade absurda de óculo de sol sem lente graduada, decidiu esquecer singulares amostras e acabou por comprar, segundo a menina amorosa:

-O óculo de sol mais mederno.

 

a Gaffe fica a pensar se o novo Acordo Ortográfico teve a ousadia de surripiar o s a estes objectos tão simpáticos e tão estivais e sente-se feliz por não ter pedido dois, porque suspeita que saíria dali de binóculo.

 

Foto de Nick Sushkevich

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