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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de última hora

rabiscado pela Gaffe, em 13.07.15

Barbara Mullen - 1956 por Norman Parkinson.jpg

ÚLTIMA HORA

A Gaffe acaba, há cerca de cinco minutos, de ser convidado para, no início de Agosto, viajar até Riade, Arábia Saudita, onde poderá permanecer durante duas semanas, hospedada num dos palácios de um jovem árabe megalómano!

 

Tudo porque o milionário absolutamente ensandecido achou que a cor dos olhos desta pobre rapariga lhe traria o pássaro de esmeralda que se encontra nas alas mais douradas dos palácios da Fortuna e o rapagão anuiu muito contente, sem ter ouvido o que antecedeu o flamejante piropo, provando que quando se escuta um poeta - árabe ou não - é sempre conveniente estar atento à totalidade do verso, não vá ser explosivo.

 

Deuses! O que faria a Gaffe com o seu passarinho no deserto, se aceitasse?!

 

Foto - Barbara Mullen por Norman Parkinson, 1956

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Gavetas:

A Gaffe a valsar

rabiscado pela Gaffe, em 13.07.15

ParisA madrugada do Douro nos telhados doura a saudade de Paris no peito. Cachos de janelas, parras de cortinas e a quietude dos socalcos dos andares onde se cansam os olhos na subida. Paris despovoada de vindimas e um rio no voo do pardal. A concertina no avental da água e um coração de valsa nos rochedos.

 

Cet air qui m'obsede jour et nuit
Cet air n'est pas né d'aujourd'hui
Il vient d'aussi loin que je viens
Trainé par cent mille musiciens

 

Padam, padam, padam
Il arrive en courant derrière moi
Padam, padam, padam
Il me fait le coup du souviens-toi
Padam, padam, padam

 

Il dit, "Rappelle-toi tes amours
Rappelle-toi puisque c'est ton tour
'y a pas d'raison pour qu'tu n'pleures pas
Avec tes souvenirs sur les bras" 

 

O tempo que aqui permaneci, longe de casa, foi o de aprender a atenuar a mágoa.

Aprendemos a envolver a mágoa em algodão, pousá-la com cuidado numa caixa, fechar a tampa e colocar depois o relicário numa das estantes mais escuras da alma dolorida. 
Não acredito que desapareça da memória o local onde a pousamos. Por muita poeira que sobre ela tombe, se a levantamos para lhe sentir o peso, fica no chão do peito a marca que ela deixa.
Ocupamos a alma com caixinhas destas e mesmo sabendo que ficam para sempre as marcas impolutas no polido e no limpo das estantes, continuamos a manter a colecção.
Assusta-nos perder a dor, tanto como a de a sofrermos. Custa-nos quase tanto abandoná-la como nos custou a penar. A memória do que nos foi doloroso surge quase como paradoxal prolongamento do prazer que obtivemos um dia. 


A dor engana tanto como o seu oposto e acreditamos que, na caixa onde repousa em algodão, ao tocar o monstro que ainda nos fere, conseguimos em simultâneo despertar a ténue recordação do seu reverso. Por isso mantemos pela noite dentro a dor que sentimos outrora. Invoca e retém o que lhe deu origem ou o que de feliz a antecedeu.


É a memória da Alma.


Se tocarmos a dor, encontramos um lugar de partida - há sempre partidas e chegadas quando Pandora move o braço! -  do suave milagre do beijo que se deu ainda cedo, no tempo permitido do começo. Se abrirmos a dor encontramos a ingenuidade, a inocência do mais completo acreditar ou do mais perfeito crer no amor. Se movermos a caixa de algodão, um fio da memória tange e há guitarras. No entanto, tudo é apenas um reflexo daquilo que fixamos no luzir de um voo breve e leve.


A memória da Alma é bipolar.

Piaf (1951)

Música - Norbert Glanzberg

Letra - Henri Contet 

 

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