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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe astrónoma

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.15

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A Gaffe considera lamentável que os homens consigam fotografar Plutão e sejam incapazes de encontrar o ponto G.  

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A Gaffe quotidiana

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.15

1.jpgDizem que a banalidade não tem narrativa, que as histórias que ficam presas à memória cravam as raízes nos dias que não são derramados nas ruas vulgares, que apenas o incomum nos deixa marca.

 

Possivelmente.

 

No entanto, as histórias mais simples, aquelas que atravessam as ruas connosco ao lado, as que se esfumam no passar das horas destinadas a não ser colhidas por ninguém, são sempre as nossas, as que riscamos a todo o instante sem que se percebam os traços que ficaram esbatidos nos instantes que passaram, banais, quotidianos.

Pertencem-nos, são coisa nossa e são coisas dos outros. Iguais ou similares em toda a gente. Não trazem narrativas presas à banalidade comum a todos os que passam, porque o banal é tido como surdo e mudo.

Passamos pelas nossas histórias como cegos.   

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A Gaffe entre dois mundos

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.15

Saul Leiter - 1959.jpgO adolescente é agora um homem de cabelo claro e olhos cor de mel. Magro e esguio, não chega a ser desengonçado. Parece a haste delgada e comprida de uma flor.

Não fala muito. Responde com frases breves, sincopadas, de clareza e nitidez imensa e inusual. Entra nas salas com a elegância imberbe de menino crescido e reservado e aproxima-se de nós tocando com os dedos nos objectos que estão ao seu alcance. É a forma que encontrou de deslocar olhares.

 

Paira entre dois mundos.

 

O da tia, mulher que ainda traz as chaves à cintura, presas por cordel esfacelado. Rude e buçal, capaz de se humilhar por serventia rasa ou porque sente que se causar piedade se redime, escapa ao cutelo dos homens que a esmagam e que nunca teve estrelas por cima da cabeça, a não ser aquelas que servem para depois adivinhar o tempo de mondar ou semear. Mulher aos socalcos, rosa de vento presa às vinhas.

 

O outro mundo é o da senhora absoluta de um reino já perdido no tempo que é sustido por lances e escadas de memórias. Senhora da lonjura e afastamento. Dona do fio de água. A que vê dentro da noite e do passado.

 

O homem de cabelo claro e olhos construídos por abelhas, paira entre dois mundos sem lhes dar sentido sem entender a que lugar pertence. É dono e senhor das cartas de alforria, mas o que por elas tem de ser liberto. Amo e servente, de terra a coroa, o trono de socalcos.

 

Pairando entre mundos antagónicos, somos iguais a ele, apenas a haste de uma flor, sem cálice ou raiz bem definidos, ou um arado que vai lavrar estrelas.

 

Foto - Saul Leiter,1959

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