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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem planos

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.15

1.1.2.jpgÉ sempre duvidosa a veracidade do inscrito na imagem quando a segunda hipótese é esmagada pelos planos dos que a transportam numa cadeirinha de rodas.

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A Gaffe com vampiros

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.15

lisa-fonssagrieves.jpg- Estou?! ... Tu ouves-me?! – Pergunta a minha avó.  

A minha irmã sofre uma massagem dada por um potentado vestido de branco que a torce toda e a obriga a descontrair. Apesar de pouco confortável, com uma perna enfiada nas costas e dedos dos pés torcidos, consegue afastar da boca as madeixas lisas do cabelo e responder. 
- Ouço-te mal, mas isso já não é novidade para ti. Diz depressa o que tens para dizer. Não é normal atender telemóveis quando estamos a tentar colocar as coisas no sítio. Vou pôr-te em alta-voz. Aqui não há ninguém capaz de atender chamadas que ultrapassem o ó boneca
Recuso-me a encaixar a indirecta. Continuo fascinada pelo homem que amassa a minha irmã.  
- Então?! – Insiste perante o silêncio do outro lado da linha, olha que estou com um braço torcido e os dedos dos pés enfiados no nariz, mas sempre atenta.
- Consegues surpreender-me sempre! – Responde a avó ligeiramente preocupada. – Estás bem?! Se a Polícia se intrometer diz que tens advogados caros e não sopres em coisa nenhuma. Há imensas coisas contagiosas. Pelo menos não partiste nada?  
- Não sei, avó. Não faço a mínima ideia. Os resultados são a médio prazo.  
- Telefonei para te perguntar se vens a casa este fim-de-semana.  
Não! Não tinha ainda decidido, mas ficou alerta.  
- Pois, minha querida, a tua prima chega amanhã e vai ficar aqui.
- Só depois de eu morrer! Sabes perfeitamente o que aconteceu da última vez.  
O referido meeting não tinha corrido como o previsto. A minha irmã tinha-se engalfinhado com a prima e a fasquia civilizacional tinha baixado consideravelmente.

- Vá. Toda a gente concorda que a rapariga não devia ter convencido as crianças a colocar aquelas coisas do nariz nas bochechas.

Burriés! A mulher chamou-lhes burriés, avó! Os miúdos andaram toda a tarde com essas coisas coladas à cara a pensar que eram piercings. Achas normal?! 
- Ninguém achou normal. - Apaziguou. - É certo que não devíamos ter deixado a tua irmã com ela durante tanto tempo, mas tu também não devias ter referido as raízes pouco claras da tua prima.  
- Só lhe aconselhei outro cabeleireiro.  
- Todos concordaram contigo - pacificou -, mas desta vez vai correr tudo bem. Basta que a afastes da tua irmã. Além disso, a tua prima está a passar por uma crise de identidade muito desagradável. Anda assustadora! Muito deprimida e com um péssimo aspecto.  
A minha irmã saltou. O potentado vestido de branco foi projectado contra a parede por garras nacaradas YSL, voaram toalhas e unguentos, tombaram candelabros e ruíram perfumes de aloés.  
- Amanhã! Vou a casa amanhã! - Quase gritou compadecida.  
- É de louvar a tua simpatia. Afinal, minha querida, ainda tens hipóteses de ser considerada humana. - Tentou gracejar a voz do outro lado.  

 

Desligou e fez-me anotar.

- Nós, vampiros, sabemos onde jorra o sangue. Não te fies nunca na minha simpatia e na minha capacidade de ser solidária. Em mim tudo é assustadoramente menos do que aquilo que alguém pode imaginar.


Apesar de se esperar umas boas mordidelas,

a minha prima vem aí!

e a vida toda inteira vai começar a dançar.

 

Foto - Lisa Fonssagrieves por Lillam Bassmen

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