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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe homofóbica

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.15

droid.jpgA história é breve.                   

O meu gigante foi processado por ter agredido um amigo que no meio da discussão se descontrolou e o mimou com o que se segue:

- Tu, para além de gostares de homens, és um alienado. Uma coisa deve ser consequência da outra.

Os 1.97m de músculos olímpicos desabaram sobre o pobre que ficou com a cana do nariz partido e sem um dente incisivo.

Apresso-me a telefonar ao agressor, toda solidária e muito indignada, prontificando-me a estar presente na defesa do alvo de tamanha desfaçatez e preconceito. O apoio de uma rapariga francamente civilizada é sempre uma mais-valia, sobretudo para o seu ego que se vê dessa forma todo desempoeirado.

 

Esbardalho-me contra o muro da minha imbecilidade.

O gigante declara assumir todas as culpas, lamentando o seu mau feitio que tantas vezes o faz pisar os limites do bom senso e atropelar as mais básicas noções de interacção social e os mais intuitivos comportamentos ditos civilizados.

 

O nariz partido e o dente perdido resultaram apenas de uma bravíssima e gravíssima discordância. O meu gigante - mau humor eterno! -, defendia a marca indelével da escultura na obra pictórica de Miguel Ângelo, acreditando na influência de Platão na produção artística do Mestre, enquanto que o adversário defendia Rafael que ao renegar os mil metros quadrados do tecto da Capela abjura ao mesmo tempo a parafernália de conceitos caducos dos Clássico que encharcaram a obra do pintor de tectos.

- Então não foi pelo comentário homofóbico? – Consigo ser idiota muito mais do que uma vez no espaço de meia hora.

- Qual comentário homofóbico?! - Aposto que, do outro lado da linha, franziu as sobrancelhas até ficar apenas com dois lanhos no lugar dos olhos. – O tipo já foi uma ou duas vezes alienado comigo. Só o esmurrei porque não admito que alguém inteligente se recuse a dar o braço a torcer e finalize uma discussão de uma forma desconexa.

Descubro muito lentamente que a pretensa homofobia acabou por ser a minha disponibilidade solidária.

- Não há verdadeiramente comentários homofóbicos. Há só paspalhos obcecados que acreditam na existência dos seus umbigos e eu não esmurro ilusões.  

 

Desligo e vou enfiar papel higiénico na boca.

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A Gaffe em êxtase

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.15

Quando a vi pela primeira vez, soube de imediato que seria uma das minhas obras-primas favoritas.

 

As razões serão várias, inumeráveis, mas a principal é ter achado que as horas de cada um podiam pertencer as ondas do manto da freira em êxtase, ao turbilhão aflito do mármore do hábito da freira trespassada.

 

Na Igreja de Santa Maria da Vitória, na Capela Cornaro, Bernini tinha erguido Santa Teresa em Êxtase e tinha esculpido uma das mais perfeitas representações do erótico.

Não ceguei. Não me despojei. Não fui trucidada pelo esmagador deslumbre de uma das mais perfeitas estátuas barrocas. O que quis foi procurar no bronze e na pedra os rastos de Bernini.

 

Teria lanhos nos dedos? Como havia o homem sofrido o rosto daquela mulher? Que mordia, que mastigava, que cantarolava, que dizia, enquanto erguia o braço daquele anjo? Que motes e que quadras, que lanços, que degraus, que mortes e acasos e que doridos dias?

 

Depois, e mais depois, e muito mais depois, senti vontade de olhar os dentes cariados de Bernini, saber-lhe dos piolhos, dos eczemas, das maleitas, das venéreas chagas incuráveis, dos achaques, do cheiro nauseabundo de suor e pão azedo, dos vómitos do vinho fermentado e velho e dos mais imundos trapos que vestia.

 

É imprescindível tocar o homem, mísero e mesquinho, para poder tentar depois tocar nos deuses. 

 

 

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