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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe resgatada

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.15

Jae Lee.jpgRodou a cadeira e cruzou as pernas. Afastou com os dedos o cabelo, prendendo-o atrás da orelha. Os olhos pardos cintilaram.  
- Sabes que sou muito perspicaz.  
Não é completamente verdade. A perspicácia da minha irmã é oscilante e limitada. Dirigida e controlada apenas para armadilhar o incauto e o lucrativo e jamais roçando o soluçar das almas.  
- Minha querida, tens andado estranha. É desagradável e incómodo ver-te pendurada assim. Não é de todo confortável ter uma espécie de morcego ou de coruja tristonha a deambular por aqui. Não te importas de me dizer o que se passa?! Começas a irritar-me. Sabes perfeitamente que fico enervada quando me irrito.  


Não creio que a minha alteração de humor ou estado de alma, que se tem vindo a revelar causa de distúrbio no equilíbrio mental da minha irmã, seja consciente. Confesso que me sinto acabrunhada, aceito o facto de não sentir a vida tão palpitante como outrora, admito que olho mais para dentro do que há cá dentro e que descuro o que vagueia fora, mas reconheço que nada é mais do que o aprender a ver a desilusão por perto.  
Quando, próxima da adolescência, acordava sobressaltada sentindo dores nos músculos das pernas e vislumbrava com terror um futuro medonho de rodas com cadeiras e obstáculos sem fuga ou sem final, a minha avó chegava e sossegava, dizendo-me baixinho: 
- São dores do crescimento. Não te assuste. Tenho orgulho em ti. Estás a crescer de forma tão bonita!  


Há momentos em que dói este crescer da alma, como doíam as pernas da adolescência. Não é uma dor perene a do crescimento e não tem obrigatoriamente outra razão que não seja aquela do impulso. Se cresço ou se envelheço - dentro e fora -, é forçoso que sofra este alterar. Não o poderia entranhar se assim não fosse.  


- Anima-te! - Ordena a minha irmã. - Hoje vem visitar-nos uma criatura que com certeza te fará mudar de rumo. Um jovem que faz corar os deuses gregos. Os tontos deram-lhe um corpo perfeito e depois com ciúmes raparam-lhe o cérebro. Ofereço-to! Vais ver como uma boa caçada te levanta a… bílis.  


A minha irmã é tudo menos perspicaz.

 

Ilustração - Jae Lee

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A Gaffe peregrina

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.15

9211926-lg.jpgDescubro que há diversos e distintos modos das pessoas que mais amo caminharem comigo. Uma espécie de diz-me como caminhas, dir-te-ei quem és, majorada pelo coração.

 

Esguia, delicada, delgada e subtil, mina avó jamais poderá amaldiçoar as suas inexistentes gorduras, flácidas rotundidades ou circular corpulência, mas a fogueira que insiste em atear nestes passeios tem como único objectivo o calor cúmplice, exclusivo, que se cria entre ambas.

A minha mãe, namoriscando, tomba presa no meu pulso, como uma breve e minúscula pulseira de oiro batida pelo sol.
O meu pai caminha comigo como se eu fosse um alfinete de gravata: dispensável, mas que se quer mostrar, porque se ama.

O meu irmão deixa que me encoste a ele. suspensa nele, envolve-me. Prende-me ao seu corpo como serena trepadeira, mimada, terna e doce. O muro é sólido. Sei que posso deixar que as folhas se espraiem sem medo ou queixume.
A minha irmã leva-me com ela, mas nunca vem comigo.
A minha prima pendura no meu braço o seu corrosivo humor, a sua indomável inquietude e a sua irresistível obstinação e rebeldia e transforma-se na mais aventurosa das cúmplices, na mais destemida e perigosa aliada de caçadas e devassas.  
O rapagão é bem maior do que eu! Caminha comigo e sei sempre onde piso. É como ter um mapa e uma bússola, sextante e astrolábio. Sabemos onde fica a estrela certa.


Mas só o meu avô sabia caminhar sorrindo devagar para a minha vida.  

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