Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe esbardalhada

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.15

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe na vizinhança

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.15

casillas-carbonero.jpgA minha irmã vive numa casa ampla e luminosa que os mais ilustres podem, num vislumbre, considerar minimalista. No entanto, a ausência quase total de objectos não se relaciona com qualquer opção estética. Ausente na esmagadora maioria do tempo e a necessitar de um lugar asséptico quando volta, a minha irmã compra determinado objecto somente se for de importância capital para o seu pleno conforto. Desse modo, um móvel existe porque nenhum outro pode ser movido. Há tarefas definidas para cada um dos objectos e porque a única preocupação na compra é a função que cada um tem de exercer, todos são limpos e puros como as obras de arte. 

Sempre me pareceu fria e demasiado calculista. A minha irmã suporta mal a cor à sua volta. Admite breves tons pastel, muitas vezes cinza, algumas vezes chumbo, outras vezes quase nada, mas recusa frequentemente outras paletas.  

- A cor distrai.
Sempre me pareceu uma casa vazia, como se estivesse eternamente à espera do habitante, e mesmo o espaço exterior foi terraplanado, limpo, despojado, permitindo apenas um tapete de relva macia emoldurado pelas sebes que ainda não tiveram tempo de resguardar e fechar todo o espaço.

 

É uma delícia tê-la na minha frente toda nervosa e toda indignada, a barafustar porque a casa contígua à sua, em silêncio desabitado, corre o risco de passar a albergar inquilinos pouco recomendáveis.

 

Uma nova-rica pedante, de jeans que até o fio dental nos deixam perceber e com uma maquilhagem igual ao snobismo que de tão exagerado denuncia ser de plástico e um homem engraçado, mas com um ar parolo, de pernas depiladas até ao tutano e um nome de um petisco qualquer.

- O homem chama-se Iscas! Valha-nos Deus!

Deus também sabe que não vai adiantar corrigir.

 

O casal Cabonero-Casillas devia ser prevenido que há na paisagem portuense precipícios que não convém descobrir.     

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe do Condottiero

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.15

12.jpg

Quando na Praça de S. João e S. Paulo, em Veneza, me deparei com a estátua equestre de Bartolomeu Colleoni de Verrochio, não obriguei a minha vida inteira a ajoelhar-se perante o poderio frio e seguro do condottiero de bronze.

Adivinhava-lhe a imponência clássica do homem que domina falcões luminosos, cães fenomenais e cavalos lendários, deixando a docilidade dos ambíguos arminhos, a alegria pilrritante dos coloridos pintassilgos ou a placidez dos impenetráveis coelhos, nas mãos da fragilidade das mulheres quinhentistas.

Sabia-lhe do quebrar do conceito de frontalidade que fascinava e viciava os clássicos e obedientes mestres da estatuária da época.

Por isso Bartolomeu Colleoni não se impôs, não me escravizou, não me obrigou a gravar no tempo que guardo para a memória, um lugar cativo com o seu nome em bronze trabalhado.

 

Eu esperava-o.

 

Só entendi completamente a derrota do Condottiero quando pasmei esmagada, na Igreja de Santa Maria del Popolo, com Caravaggio e a Conversão de São Paulo.

Quase ruinosamente erótico, liberto do traço e da iconografia clássica, o homem pintado tombado, aberto, de carne, arranca-nos a vida de repente e de repente lança com violência a nossa alma no espaço da divinal surpresa que é o Homem.

O humilhado desarçoado pelo cavalo é poderosamente mais tirano do que o gigantesco Senhor dono de Veneza.

 

Nenhum potentado é dominador inquestionável quando não tem a arma do inesperado absoluto disparada no centro da vida dos incautos. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD