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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num canto

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.15

Sasha  - Dido Aeneas.jpgProcurou silenciar a criança tocando-lhe com os dedos longos nos lábios.

- Ouve com muita atenção, minha querida. Esta é a obra de canto mais bela do mundo.

 

Sentou-se na poltrona de forma a não a ocupar completamente. As mãos agora nas minhas procuraram fazer com que eu, não mais do que dez anos, me aproximasse com suavidade do som que se ia erguendo e estilhaçando a placidez da tarde.

A sala era a sua preferida, a virada a Norte, mas pelos rasgões das janelas entrava a luminosidade das Primaveras incipientes e pacatas que nos provoca a enganosa sensação de que a luz, mesmo a mais frágil e evasiva, aquece a madeira do soalho e amorna a tessitura dos veludos das almas.

 

Os sons que ouvi vinham encadeados de forma cerrada, como se tivessem muros ou correntes dentro, como se estivessem presos uns nos outros e não houvesse espaço para desfazer as nuvens entre as notas, unidos por invisíveis dedos, por invisíveis palavras dentro das audíveis. Diferenciando-se, acabavam dolorosamente fundidos. Era nessa fusão, que surgia da colisão de nitidez que cada um possuía, que entravam no espaço do lamento animal. Já não eram voz humana. Tocavam a fronteira. Agonizavam dentro lamentos desumanos e gritos animais, mas com a beleza que nasce da transgressão e da subversão dos fonemas, da desobediência às regras e ao cuidado com que a linguagem verbo cuida em distinguir os sons.

Eram bichos e agonizavam nos lamentos de sons transgressores e subvertidos.

 

Ouvi até ao fim o canto mais belo do mundo e ao tentar mudar a luz da sala fria que trepava pelos móveis, alcançando a taça de prata sobre a mesa e abrasando as maçãs vermelhas, procurei fixar a angústia acidulada que enlaçava os objectos e os gemidos que trucidavam a placidez do instante.

 

- Não tentes. - Disse-me e correu os cortinados que de pesados rosnaram nas argolas, sem agonia, lanho ou subversão. - É O Lamento de Dido, em Dido e Eneias de Purcell. Nunca tentes domar a Tristeza atravessando-a com uma luz imperfeita. Deixa que a Tristeza se canse até que a luz que traz quebre por dentro.

 

Ontem ouvi, ainda às escuras depois de tantos anos, a obra de canto que ele dizia ser a bela do mundo e senti um orgulho imenso por concordar com o meu avô.

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A Gaffe cacarecada

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.15

cacarecos.jpg

Estes são os chamados cacarecos.

 

Encontram-se em qualquer feira de artesanato, mesmo ao lado da banquinha das bugigangas de arame e contas de plástico e em frente da que vende garrafas vazias com coisas de cortiça dentro, tudo vendido por pessoas muito simpáticas, com vestidos de padrões tribais, frescos, amplos e a arrastar, rastas por todo o lado, restos do que fumam no biberão do puto e batuques à disposição.

 

Entre os quinze e os vinte anos achamos aquilo giríssimo e compramos um ou dois exemplares, mas nessas idades também fazemos topless sem primeiro ensaiarmos ao espelho.

A partir dos vinte, passamos a desejar ter nascido em 1755, mesmo que isso nos dê uma certa idade, para que o terramoto escaque aquelas tralhas.

Aos trinta decidimos fazer um desvio descomunal só para não nos cruzarmos em Bragança com os mesmíssimos artesãos que nos impingiram os mesmíssimos cacarecos em Faro, na nossa desprevenida mocidade.

 

São coisas feias, os cacarecos.

Não são práticos, normalmente estão tortos, desengonçados, desequilibram-se, por muito que façamos não encaixam em lado nenhum e tudo o que se coloca dentro fica a saber a barro.  

 

Os de William Martin, da Inglesa Martin & Co., por muito que se tenham internacionalizado e adaptado às exigências dos mercados actuais, não escapam ao habitual. Uma rapariga esperta procura de imediato as portas de emergência quando ao longe esta ameaça artesanal é vislumbrada.

 

No entanto, a Gaffe gostava imenso que as meninas conhecessem este oleiro. 

 

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