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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe equina

rabiscado pela Gaffe, em 31.08.15

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A Gaffe foi apresentada ao Sr. Presidente da Câmara.

O formulado exacto seria o Sr. Presidente da Câmara foi apresentado à Gaffe, mas esta rapariga não considera grave deixar que o ilustre cavalheiro continue a cultivar a menos danosa das suas ilusões. 

 

Quarentão em excelente forma física, fato azul suspeito, camisa branca entretelada, gravata de seda amarela com a palavra Moschino entretecida e sapatos bicudinhos, o autarca provou que para aprender a beijar a mão a uma mulher não chega um mandato.

 

Durante o almoço de aniversário da Confraria - conjunto de homens de meia-idade unidos por propósitos corporativistas, que usam capelinas, opas pesadas e medalhões ao peito - a Gaffe percebeu que o seu lugar no opíparo festim, aquele que vislumbrara ao entrar com receio do que lhe cabia em sorte, tinha sido mudado. Sentada à mão esquerda do Sr. Presidente, a Gaffe depressa compreendeu que a mão direita do eleito lhe tinha alterado o destino.

Dois minutos bastaram para que esta rapariga esperta compreendesse a causa da manipulação dos lugares, porque dois minutos após lhe terem servido a canja de galinha - entrada essencial nestas capoeiras - a Gaffe descobriu que estava a ser galada.

O Sr. Presidente encristava-se debruçado sobre a esquerda numa apetência até ali desconhecida, desprotegendo a direita povoada pela esposa, numa reviravolta dir-se-ia que política, tendo em conta a manha com que a executava.

 

A Gaffe aguentou até se cansar e deixar de ouvir o cavalheiro do lado a sorver a canja. É sempre interessante ter um ruído alternativo quando o que nos maça se torna exagero. Hesitou entre espetar o garfo na perna do Sr. Presidente, que se aproximava distraída do assado em que se envolveria se continuasse, e sacar da arma infalível que é partilhar as cavalgadas furtivas do cowboy mais votado alardeando o cartaz de Mae West -  Is thatgun in your pocket, or are you just glad to see me? - de forma a que todo o rodeo espreitasse o coldre.

Decidiu por fim cravar-lhe um tacão - ou uma espora? - no bico do pé.

O Sr. Presidente relinchou, provando ao público que apesar de ter sido eleito o cavalito mais sofrível dos que por ali trotavam, não é caso para se crer que agora toda a gente pratica equitação.

 

Há carrosséis montados ao lado dos coretos.

 

Ilustração - Waldemar von Kozak

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A Gaffe genética

rabiscado pela Gaffe, em 31.08.15

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Roma Antiga comercializava por mais altos preços, dada a raridade, os escravos ruivos, enquanto os egípcios ateavam fogo às cabeleiras ruivas para lhes destruir a cor.

Para alguns, em tempos que não se apagaram de todo, ser-se ruivo seria padecer de uma mutação genética. Talvez seja por isso que as abelhas picam mais estas criaturas. Os insectos são muitas vezes aliados a tolices humanas e, por sua vez, todas as tolices humanas nos vão transformando em rastos de insectos. 

 

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A Gaffe bibliotecária

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.15

biblioteca.jpgA biblioteca do meu avô – agora minha por desejo dele -, é um lugar aprazível e recatado, com cheiro a couro antigo e um breve timbre de cânfora que não desagrada, porque nos faz respirar como se estivéssemos a beber água com limão, mas sem açúcar. Sempre na penumbra – as avalanches de luz são impedidas pelos cortinados pesados, polícias respeitáveis, temidos e imponentes -, a atmosfera permite, nas tardes de Primavera que entra coada pela água do lago do lado de fora, vislumbrar as partículas de pó e de pólen que flutuam douradas nas autorizadas lâminas iluminadas de silêncio.

 

Ao lado da caixa de madeira de cedro onde o meu avô guardava, catalogadas com inimaginável mestria, os milhares de fichas de leitura que permitem ainda encontrar a obra que quisermos em poucos minutos e que humilham a pedante informatização mais recente, existe uma escada que pode ser presa às estantes intermédias possibilitando alcançar as obras colocadas nas prateleiras mais altas, junto ao tecto. Lembro-me que o meu avô, suspenso num degrau dessas escadas, de braços estendidos, parecia um dos homens que vindimavam o telhado do alpendre construído por cachos de uvas roxos e gorduchos. Disse-lho um dia e ele confirmou. Era também um vindimador.

 

Num tempo já ido, mesmo aqui tão perto, nos finais de Agosto, o meu avô revia e actualizava as fichas do seu catálogo, acrescentando as obras que entretanto tinham sido adquiridas.

 

É a minha vez de abrir a caixa de cedro.

 

Em menina, não mais de quatro anos, acompanhava-o sem perceber que me iniciava no modo de operar que seria meu, por desejo dele, e nessa altura, contrariando todas as recomendações, o meu avô deixava que brincasse com as obras mais próximas do chão, que era o meu tamanho.

 

Da estante baixinha que guarda a Questão Coimbrã, retirei ontem O Crime do Padre Amaro que tinha escolhido com o tino da infância. É um volume supostamente autografado por Eça, com dedicatória à minha bisavó materna que acolheu o seu spleen francês com o estoicismo e humor das parisienses da época.  

Ao folheá-lo revi as minhas ilustrações. Rabiscos vermelhos, azuis e amarelos, com apontamentos verdes que se passeavam pelas páginas ao sabor da pena e do lamento da minha mãe e do traço rombo dos lápis de cor de uma menina de quatro anos. Ninguém retirou e protegeu das mãos da pequena criminosa o volume precioso que perdeu a áurea divinal que alardeava e que acabou por ver reconhecido o seu valor real, que não o inflacionado por uma assinatura comprovadamente falsa.   

 

Folhear o volume que encontrei tem a consistência do milagre.

Percebo claramente, para além de ter aprendido a povoar a caixa de cedro do meu avô, fui compreendendo que amar um livro é torna-lo tão nosso como se abríssemos as asas quando nos perguntam se sabemos voar.

 

Não vou ter filhos. Soube muito cedo que não sou uma galinha de óvulos de oiro. Se pudesse ter um filho, sei que o traria, nos finais de Agosto, à minha biblioteca para abrir a caixa de cedro e aprender comigo sem saber a catalogar os livros que chegavam e a ilustrar aqueles que próximos do chão lhe iam dando asas.  

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A Gaffe e a teoria da relatividade

rabiscado pela Gaffe, em 27.08.15

Lions

Quando os deuses se recusam a olhar, a hora das hienas é mais longa.

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A Gaffe migrante

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.15

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A Gaffe sabe, como é evidente, que existe diferenciação entre refugiado e migrante. São razões sociológicas, antropológicas, demográficas, económicas, geográficas, sociais e societais, políticas e outras que tais, que se tornam maçadoras e confundem uma pobre rapariga.

A Gaffe considera muito mais simples seguir as suas descobertas nesta área. As premissas que estabeleceu permitem com imensa facilidade distinguir as duas situações.

 

A invasão da Europa por gente que não tem noção que viajar exige algumas precauções e pelo menos um nécessaire no colo, assemelha-se, diria Cameron, a uma das pragas do Egipto: a dos gafanhotos – embora ainda não haja notícia de esfíngicos habitantes do delta do Nilo entre a multidão destruidora. Felizmente que, tal como na altura faraónica, temos hoje alguém para separar as águas. Angela Merkel exige seleccionar quem terá de ser recambiado e quem poderá solicitar o estatuto de refugiado.

 

A primeira distinção é vislumbrada. O refugiado vem com um estatuto apenso, o migrante terá de preencher a papelada e entregar no guichet alemão - e toda a gente sabe que não convém entregar aos alemães a tarefa de seleccionar quem fica e que tem de partir. 

Embora esta seja uma diferença básica, existem para nosso descanso outras mais simples.

 

Ora vejamos:

 

O refugiado normalmente chega chamuscado e com estilhaços cravados na família. Fugiu de lugares para onde não é conveniente viajar, porque o demónio perdeu lá as botas e tem medo de as ir procurar. Convém que esteja desnutrido, desidratado, traga gente às costas – podem ser crianças amarradas por uns tecidos coloridos -, e com colchões, cadeiras, fogareiros, cobertores e toda uma tralha sem fim e sem qualquer design, na cabeça. Tem à sua espera umas tendas giríssimas, umas ONG de fazer inveja à Jonet e pode, com alguma sorte, ser visitado pelo casal Guterres/Angelina Jolie.

 

O migrante não é forçosamente um espoliado crestado pelas granadas da desumanidade. A Gaffe ouviu na RTP1 um respeitável e sábio comentador anunciar que existe uma percentagem significativa de representantes da classe média na multidão que invade e conspurca o sossego europeu. A Gaffe já desconfiava da marosca, porque achou alguns parecidos com muitos portugueses medianos. Já o refugiado é paupérrimo e chega de buracos inclassificáveis onde não há média sejam do que for.

 

Ao contrário dos refugiados, há migrantes giros. O allure trash-chic fica sempre bem num sírio ou num afegão e o vintage nunca é démodé, assumindo a poesia da aventura náutica aliado ao brilho dos olhos dos desertos e das explosões. Os refugiados não têm qualquer noção de estilo e desconhecem que uns bons sapatos podem salvar uma imagem. O look descalço e com um pano estampado, muito tribal, enrolado no corpo, não favorece o tom de pele.

 

Os refugiados estão circunscritos a territórios bem delimitados. Facilita a distribuição de garrafinhas de água para entreter o estômago, farinha para os bebés e cereais para o pequeno-almoço. Podiam perfeitamente funcionar como parques temáticos. Compensava a despesa. Os migrantes são o caos! Encarnam a desordem e personificam o descalabro de qualquer estratégia organizacional. Não admira que não tenham visitas das ONG. Estão sempre a mexer-se!

 

Para os refugiados as pessoas civilizadas constroem reservas devidamente limitadas - método semelhante ao usado quando a civilização chegou aos Índios americanos e aos daquela parte mais abaixo. Em relação aos migrantes é a civilização que se barrica erguendo muros de arame farpado. A Gaffe acha uma pobreza! Seria de todo muito mais interessante o revivalismo das muralhas de pedra, de inspiração medieval, onde se poderia atirar ainda a ferver o óleo de fritar batatas no McDonald’s aos que tentassem escalar a fortificação. Reciclava-se.

 

A Gaffe não entende o alarido em redor quer dos refugiados, quer dos migrantes. A preocupação europeia seria muito atenuada, ou mesmo extinta, se os considerássemos turistas - de pé-descalço, vá! Dinamizava-se o comércio local e não se falava mais disso.

 

Ilustração - Evgeny Viitman

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A Gaffe atrasada

rabiscado pela Gaffe, em 25.08.15

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A Gaffe e Sua Senhoria

rabiscado pela Gaffe, em 25.08.15

Oxf.jpgNão vou fazer aborrecidas considerações linguísticas acerca do Significante e do Significado, mas quando tilinta no meu cérebro a palavra Senhora, de imediato surge a imagem da minha mãe.

Esta colagem instantânea deve-se a inúmeros episódios vividos por ela e com ela, a incontáveis momentos partilhados pela minha mãe e pelo espaço externo ao círculo formado pelos mais amados e o interior desse mesmo reduto onde, mesmo ilusoriamente, quero ocupar o centro.


Lembro-me de um guarda-sol com franjas, de vestidos pastel, leves, de seda, de algumas pérolas e de perfumes calmos de Verão na relva.
A minha mãe beberricava chá com as amigas, por chávenas de século já passado, vagamente barrocas, ligeiramente pálidas. O açucareiro faltava inexplicavelmente e a senhora que as servia, embaraçada, equilibrava o precioso objecto na bandeja de serviço.
Num percalço, num tropeço, num deslize, com um alarido de galinha esgrouviada, a pobre deixou-o cair, estilhaçando ao mesmo tempo o coração da minha mãe que várias vezes lhe havia suplicado que segurasse as bandejas com as duas mãos. Esperou-se a desgraça e o desgosto e o imediato fuzilamento da chorosa prevaricadora.
A minha mãe dedicava ao serviço de chá - exactamente aquele -, um amor chinês e a mudez repentina das amigas antecipava a tempestade. Sem pestanejar, sem sequer mover o mais pequeno músculo, a minha mãe continuou serena:
- Mais Verlaine! Oh! Il est parfois un peu désagréable, le petit garçon! On doit être d'accord.
Nos olhos de azul-claro nem a sombra de uma flor maldosa.


Recordo, também, a festa de anos da minha prima.
Em início da adolescência de esplendor na relva.
Começava eu a ser trucidado pela crueldade alarve dos rapazes convidados, borbulhentos que achincalhavem o meu cabelo ruivo e me condenavam a ficar sozinha por toda a eternidade. Escondidos atrás do tempo de machos infantis e loiros, conseguiam isolar-me e espetar-me na pele os espinhos dos cactos que eram.
Desisti e afastei-me, aproveitando a aproximação da minha mãe que nunca gostou de gargalhadas sujas.
Sorriu e pousou a mão no ombro da ruiva humilhada e secretamente ciente da verdade berrada pela boca dos machões minúsculos.
- Não esqueça que lhes terá de pedir desculpa. Eles não fazem ideia que farão parte do número de homens que vai recusar.

 

Quando tilinta no meu cérebro a palavra Senhora, vejo os olhos de azul-claro da minha mãe.

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A Gaffe pública

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.15

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A Gaffe escolhe como ilustre representante desta silly season o casal Lorenzo e Pedro.

 

Os dois meninos - um com corpo digno de selfie de facebook, o outro nem tanto, não deixando por isso de parecer muito saudável -, decidiram passear de mãos dadas e carinho exposto pelas ruas de Lisboa.

Os meninos, exibindo com insistência o facto de estarem apaixonados, são catapultados para a ribalta das notícias que os fazem render, dando que falar, dando que comentar, dando qualquer coisa desde que os mostrem.

A mimosa performance tem como objectivo medir o nível homofóbico da cidade, documentando as diversas reacções dos transeuntes que se cruzam com o doce enlaçar dos rapazinhos.

É evidente que não avaliam coisa que valha a pena registar, pois que se esquecem que a omnipresença da máquina que os vai filmando altera, diminuindo ou inflamando, provocando ou anulando, reacções e comportamentos de muitos emplastros.

 

As manifestações públicas de afecto nunca agradaram à Gaffe. Esta rapariga sempre sentiu que se espalharmos a privacidade na estrada, corremos o risco de cedo ou tarde a vermos atropelada e não adianta justificarmos a exibição amorosa com a necessidade de afirmação de uma causa. A performance de Lorenzo e Pedro não passa de um fait-divers em excelente forma física. Não é de todo um contributo para a denúncia da discriminação, positiva ou negativa, com raiz na orientação sexual. É maçador que a reivindiquem como tal, porque não representa nem significa nada, a não ser a tontice que grassa nos Verões do nosso contentamento.

 

Se os dois meninos desejam medir o que quer que seja, a Gaffe sugere que não o façam na rua usando a régua de uma exposição gratuita e inconsequente. Podem perfeitamente medir a pilinha um do outro no aconchego do lar.  

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A Gaffe em fuga

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.15

3a.jpgA Gaffe abandona toda a sua gelada sofisticação e fleumática indiferença quando depara com aquilo a que decidiu chamar solidariedade do pechisbeque

Nessas alturas apetece-lhe apenas agarrar numa tábua com um prego na ponta e desancar as senhoras com ar de freiras à paisana que nos átrios das instituições públicas montam uma mesinha, cobrem o tampo com um paninho engomado e espalham em cima uma caterva de pechisbeques que tentam impingir em nome de uma associação de solidariedade social que ninguém conhece, com um nome habitualmente irritante – a Lacinhos, a Brinquinhos, a Miminhos, ou os Cominhos.

 

São porta-chaves, pingentes, bolinhas, postais, esferográficas, caixinhas, livrinhos, bonequinhos, pins, mascotes e tudo o que for pequenino, irritante, inútil, feio e de plástico.

 

Arregaçam um sorriso que não faz franzir os olhos e desabam sobre nós com a insistência do mosquito nocturno que nos enferma o sono, agindo em nome dos desfavorecidos que aparentemente lhes passaram uma procuração de plenos poderes ou do planeta das crianças disléxicas, cada mais povoado por miúdos que tropeçam três vezes na bola no mesmo jogo ou que, para além de dizerem treuze, o escrevem - se os Estados Unidos produzem crianças obesas a um ritmo alucinante o sistema de ensino português vomita com a mesma velocidade crianças disléxicas. É o seu new black.

 

A Gaffe desconhece o circuito, posterior à mesinha dos pechisbeques, do parco pecúlio que esta espécie de catequista anzoneira consegue angariar. Ninguém a informa. Pode ser perfeitamente usado na compra de santinhos para oferecer durante a procissão de beneficência ou na aquisição de um vibrador para beneficio da acólita, mas, tendo em conta o ar de coruja com que a senhora fica quando vê a Gaffe esconder a carteira, descalçar os sapatos, arregaçar a saia e desatar a fugir, desconfia que é usado na compra de adubo para abastecer os obesos mentais que continuam a engolir esta dislexia social.

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A Gaffe poética

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.15

Sam Fisher of the St Kilda Saints.png

Tremem leve, levemente,

como quem espera por mim.

Será medo a bater dente?

Medo não é certamente,

e o dente não bate assim.

 

É talvez a ventania,

mas há pouco, há poucochinho,

nem uma agulha bulia

na quieta melancolia

das areias do caminho...

 

Quem treme, assim, fortemente,

com tão estranha firmeza,

que mal percebo o que sente?

Não é medo, nem é dente,

nem é de dor com certeza.

 

Fui ver. A água de fria

Rivalizava com o céu,

Tanta água cinza e fria...

- Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!

 

Olho-a através da vidraça.

Põe a carne cor de vinho.

Tem dentro gente que traça

os braços para que não faça  

tanto frio no peitinho...

 

Fico olhando esses sinais

dos rapazes a tremer,

e noto, por entre os mais,

os traços miniaturais

duns speedos de morrer...

 

E molhadinhos, doridos...

a água deixa inda vê-los,

primeiro, bem definidos,

depois, muito esmaecidos,

que o frio não deixa erguê-los!...

 

Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas estes speedos, Senhor,

porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...

 

E uma infinita tristeza,

uma onda de pesar

entra em mim, fica em mim presa.

Há speedos na Natureza                                                                   

- e eu aqui a trabalhar.

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A Gaffe manual

rabiscado pela Gaffe, em 19.08.15

f1107.2L.jpgA Gaffe vai à manicure.

Sempre que tem de entregar a alguém pedaços de si, a Gaffe bisbilhota dias antes alguns exemplares do retalho disponíveis no mercado. Se, por exemplo, quer comprar um rímel, esta rapariga esperta debruça-se nas pestanas alheias até ficar cansada de tanto olhar e se decidir a escolher o próprio destino.

Com a manicure  o mesmo se passa.

A Gaffe, de tanto fazer tombar os olhos nas mãos dos que passam, descobre que a variedade insuspeitada de mãos que com ela se cruzam.

 

Há mãos como o traço negro das gôndolas ou o abandono frio de estandartes.

Há mãos, como mapas de corpos e de desespero desfeito nos canais do lento arrasto da melancolia dos trajectos.

Há mãos ágeis, de dedos e brancos e angulosos. Parecem insectos presos na angústia das teias de aranha. Outras que se movem devagar, como as ondulações meigas dos ramos das árvores de tronco quieto quando chega o vento sem qualquer barulho.

Há mãos como pequenos mosteiros de portas abertas numa estrada por onde não passam peregrinos. Reza-se lá dentro, pedem-se coisas, mas a terra do caminho que vai a essas súplicas não é abrandada pelos pés de ninguém.

Há mãos como peregrinos. Trazem dentro um som de catedrais.

Há mãos divinas.

Há mãos como comédias, saltimbancos súbitos que assustam prendendo pássaros aos dedos.

Há mãos como o esboço morto de um poeta. Trazem apagadas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos dessas mãos.

 

A Gaffe acredita que dar a mão a alguém é não a ter de volta nunca mais, é jamais aquele membro gestuar do mesmo modo, com o mesmo rumor subtil da identidade aprisionada.

Reconhecemo-nos ao dar a mão, ao dar verdadeiramente a mão, como quem vai, indiferente à multidão, desabotoando o coração.    

Dar a mão a alguém é como ver com os seus olhos. É raro mostrarmos a alguém como vemos com os nossos olhos. Dar a mão a alguém é portanto um risco eterno.

 

- Ainda quer a minha mão? – Pergunta a Gaffe à rapariga dos frascos e unguentos e percebe numa espécie de culpa que a pergunta deveria ser outra.

- Como se vê com os seus olhos?


Esperemos sempre que a mão que é dada ou acolhida faça com que as borboletas cresçam como espuma nos dias e acreditamos. Acreditamos até a dolorosa morte de sabermos que afinal as mãos já não se mexam, nunca mexeram, porque foram apenas cisnes imóveis com pescoços de espada e nós, decepados.

Talvez a noite aquática das nossas vidas vá desfazendo o que as mãos entrançam na varanda dos dedos enlaçados. Nesses momentos as nossas mãos ficam como alguém a ir embora.

Talvez então o silêncio que nos resta nas palmas seja Deus a chorar.

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A Gaffe de borracha

rabiscado pela Gaffe, em 18.08.15

O rapazinho brinca com uma bola de borracha presa por um fio a uma tábua de madeira.

Manobra o brinquedo improvisado com perícia e a pequena bola é impulsionada nas direcções mais díspares, para voltar a bater, sistematicamente, na pequena tábua de madeira e de novo projectada e de novo de regresso e de novo batida para voltar atrás.

 

A consciência da bola é a minha.

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A Gaffe a voar

rabiscado pela Gaffe, em 18.08.15

gaffe.jpgNão vale a pena!

É ingénua ilusão pensar possível um amor feito numa minúscula cabine do avião onde o odor a desinfectante poderoso, próximo do perfume da assistente de bordo gorducha e loira, nos entope a libido. Não é viável pensar sequer cumprir uma das fantasias sexuais mais comuns ao mais comum dos mortais, passageiros espevitados e marotos do voo que faz escala no centro da mais destravada e esconsa manobra da nossa excitação inconfessada.

Não é possível encaixar um matulão num espaço exíguo, habitado por apetrechos destinados apenas a destruir resíduos pouco motivadores, que outros como nós, mas com intenções organicamente menos controláveis e mais solitárias, deixaram fluir com o alívio de evadidos condenados. Não é agradável fechar duas criaturas num cubículo e esperar que as duas consigam travar uma luta que de grega tem apenas a nudez olímpica e de romano uma lança gladiadora. Não é relaxante tentar a despercebida entrada na gaiola e a esperada saída desse espaço sem apanhar com o espavorido e esbugalhado olhar dos que nunca esperam ver dali sair dois passarinhos suados e com o pecado agarrado às calças e às alças do soutien, ainda a latejar de transgressão.

 

A Gaffe senta-se conformada e sossegada junto a companheira de viagem com que a sorte a brindou, grávida e sueca com marido vesgo e norueguês, que enjoa - a pobre da mulher! -, e pálida se escoa.

É chamada a menina de uniforme, solidária e entretida com o esvair da dama. Que lhe trará as gotas. Pois verá que passa.

As gotas já vieram. Será tomado tudo, de uma vez apenas. Tudo de rajada.  

A grávida hesita. Não entende. A menina do uniforme explica ao futuro pai o modo de operar. Também hesita, mas perante o vómito que insiste em torturar a rapariga, tenta partir o plástico da tampa e enfiar todo o conteúdo pelo feto dentro.

Resiste a pobre grávida. Só mais um bocadinho sem o auxílio do milagroso líquido.

Agonizante, estóica, espera o fim o turbilhão que a invade.

 

A Gaffe sorri para o jovem pai, em norueguês, ou seja, desenha um sorriso pálido, indiferente e inócuo para que o tempo passe mais depressa e sem os solavancos do enjoo. 

A loira rapariga de uniforme já não volta mais.

A mulher adormece lentamente e é adormecida que a encontra a outra jovem de uniforme igual, mas que é morena e magra.

 

- Sente-se melhor? Não esqueça que só pode tomar duas a três gotinhas e nada mais do que isso. Não é um medicamento muito recomendável a senhoras no seu estado! – Informa em Inglês.

 

Com tripulações destas, a frustração invade o mais ingénuo, pois que se descobre que todas as aventuras destravadas, dislates e tontices, transgressões e faltas são possíveis e com um ligeiríssimo esforço até no cockpit se poderiam cumprir as enunciadas fantasias passageiras.

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A Gaffe fashionista

rabiscado pela Gaffe, em 17.08.15

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Gavetas:

A Gaffe clínica

rabiscado pela Gaffe, em 17.08.15

N. Rockwell.jpgO governo actual promete que em 2016/17 todos os portugueses terão médico de família.

A oposição emudece, porque o estratagema que irá ser usado pode resultar, possibilitando-lhe uma eventual recolha de louros; as Comissões de Estudantes estão ocupadas a fazer ninhos e a programar a próxima Queima e a Ordem dos Médicos oferece-nos um inexplicável silêncio vergonhoso, apresentando mais uma vez o seu Bastonário como um mono apanhado num museu de cera qualquer.

 

A solução parece simples e passa pela abolição do Ano Comum.

 

Até à data, os recém-licenciados em Medicina teriam, durante um ano, supervisionados por médicos seniores, de trabalhar no terreno de forma activa e interveniente todas as valências hospitalares e a dos Cuidados de Saúde Primários. Este Ano Comum permitia que o médico bebé começasse a gatinhar com alguma segurança e fornecia-lhe muitas das ferramentas indispensáveis à sua missão futura. Alguns, por exemplo, ficavam só então a saber que o SNS tinha sofrido alterações substanciais e que se torna obsoleto falar de Centros de Saúde, passando a realidade a ser constituída por Unidades de Cuidados de Saúde Primários e Unidade de Saúde Familiares. Para além destas matérias organizacionais, a presença omnipresente do médico tutor facilitava a correcção de falhas e de erros clínicos que surgem da inexperiência, fornecendo ao imberbe profissional a rede que durante um treino é sinónimo de confiança, facilitando em simultâneo uma real experiência prática imprescindível a quem vai hesitar milhares de vezes.

 

A abolição do Ano Comum retira ao recém-licenciado a possibilidade de gatinhar na realidade com a segurança de quem sabe que pode cair, porque essa queda irá ser amparada e transformada num curto espaço de tempo em aprendizagem e em caminho andado e já batido, mas, em contrapartida, permite que sejam injectados no sistema sensivelmente o dobro dos médicos habitais. Aqueles que terminam o Ano Comum antes da sua extinção e os que acabam a licenciatura sem necessidade de o efectuar, entrando directamente no processo de recrutamento.

 

Esta manigância permite que o número de médicos inoculados no sistema - que vai também colidir com a decadência e a pequenez das infra-estruturas que acolhem os Cuidados de Saúde Primários e na mais que previsível falta de gabinetes médicos -, seja suficiente para suprir a carência de médicos de família, mas entrega profissionais bebés empilhados nos corredores, a tactear e a gatinhar com muito pouco chão, a metade da turba que se vê de repente com a alegria de poder ser consultada a tempo e a horas e que pasma com a eficácia governativa.

 

A congestão esperada facilita a vã glória e a vanglória dos governos, actual e futuro, mas contribui para o descrédito que vai cavalgando o SNS e o da classe médica em particular e prova que para ludibriar um povo cego basta que o olho do trafulha seja em vidro e que haja cera para moldar bastonários coniventes.    

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