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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe fashionista

rabiscado pela Gaffe, em 17.08.15

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Gavetas:

A Gaffe clínica

rabiscado pela Gaffe, em 17.08.15

N. Rockwell.jpgO governo actual promete que em 2016/17 todos os portugueses terão médico de família.

A oposição emudece, porque o estratagema que irá ser usado pode resultar, possibilitando-lhe uma eventual recolha de louros; as Comissões de Estudantes estão ocupadas a fazer ninhos e a programar a próxima Queima e a Ordem dos Médicos oferece-nos um inexplicável silêncio vergonhoso, apresentando mais uma vez o seu Bastonário como um mono apanhado num museu de cera qualquer.

 

A solução parece simples e passa pela abolição do Ano Comum.

 

Até à data, os recém-licenciados em Medicina teriam, durante um ano, supervisionados por médicos seniores, de trabalhar no terreno de forma activa e interveniente todas as valências hospitalares e a dos Cuidados de Saúde Primários. Este Ano Comum permitia que o médico bebé começasse a gatinhar com alguma segurança e fornecia-lhe muitas das ferramentas indispensáveis à sua missão futura. Alguns, por exemplo, ficavam só então a saber que o SNS tinha sofrido alterações substanciais e que se torna obsoleto falar de Centros de Saúde, passando a realidade a ser constituída por Unidades de Cuidados de Saúde Primários e Unidade de Saúde Familiares. Para além destas matérias organizacionais, a presença omnipresente do médico tutor facilitava a correcção de falhas e de erros clínicos que surgem da inexperiência, fornecendo ao imberbe profissional a rede que durante um treino é sinónimo de confiança, facilitando em simultâneo uma real experiência prática imprescindível a quem vai hesitar milhares de vezes.

 

A abolição do Ano Comum retira ao recém-licenciado a possibilidade de gatinhar na realidade com a segurança de quem sabe que pode cair, porque essa queda irá ser amparada e transformada num curto espaço de tempo em aprendizagem e em caminho andado e já batido, mas, em contrapartida, permite que sejam injectados no sistema sensivelmente o dobro dos médicos habitais. Aqueles que terminam o Ano Comum antes da sua extinção e os que acabam a licenciatura sem necessidade de o efectuar, entrando directamente no processo de recrutamento.

 

Esta manigância permite que o número de médicos inoculados no sistema - que vai também colidir com a decadência e a pequenez das infra-estruturas que acolhem os Cuidados de Saúde Primários e na mais que previsível falta de gabinetes médicos -, seja suficiente para suprir a carência de médicos de família, mas entrega profissionais bebés empilhados nos corredores, a tactear e a gatinhar com muito pouco chão, a metade da turba que se vê de repente com a alegria de poder ser consultada a tempo e a horas e que pasma com a eficácia governativa.

 

A congestão esperada facilita a vã glória e a vanglória dos governos, actual e futuro, mas contribui para o descrédito que vai cavalgando o SNS e o da classe médica em particular e prova que para ludibriar um povo cego basta que o olho do trafulha seja em vidro e que haja cera para moldar bastonários coniventes.    

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