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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de borracha

rabiscado pela Gaffe, em 18.08.15

O rapazinho brinca com uma bola de borracha presa por um fio a uma tábua de madeira.

Manobra o brinquedo improvisado com perícia e a pequena bola é impulsionada nas direcções mais díspares, para voltar a bater, sistematicamente, na pequena tábua de madeira e de novo projectada e de novo de regresso e de novo batida para voltar atrás.

 

A consciência da bola é a minha.

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Gavetas:

A Gaffe a voar

rabiscado pela Gaffe, em 18.08.15

gaffe.jpgNão vale a pena!

É ingénua ilusão pensar possível um amor feito numa minúscula cabine do avião onde o odor a desinfectante poderoso, próximo do perfume da assistente de bordo gorducha e loira, nos entope a libido. Não é viável pensar sequer cumprir uma das fantasias sexuais mais comuns ao mais comum dos mortais, passageiros espevitados e marotos do voo que faz escala no centro da mais destravada e esconsa manobra da nossa excitação inconfessada.

Não é possível encaixar um matulão num espaço exíguo, habitado por apetrechos destinados apenas a destruir resíduos pouco motivadores, que outros como nós, mas com intenções organicamente menos controláveis e mais solitárias, deixaram fluir com o alívio de evadidos condenados. Não é agradável fechar duas criaturas num cubículo e esperar que as duas consigam travar uma luta que de grega tem apenas a nudez olímpica e de romano uma lança gladiadora. Não é relaxante tentar a despercebida entrada na gaiola e a esperada saída desse espaço sem apanhar com o espavorido e esbugalhado olhar dos que nunca esperam ver dali sair dois passarinhos suados e com o pecado agarrado às calças e às alças do soutien, ainda a latejar de transgressão.

 

A Gaffe senta-se conformada e sossegada junto a companheira de viagem com que a sorte a brindou, grávida e sueca com marido vesgo e norueguês, que enjoa - a pobre da mulher! -, e pálida se escoa.

É chamada a menina de uniforme, solidária e entretida com o esvair da dama. Que lhe trará as gotas. Pois verá que passa.

As gotas já vieram. Será tomado tudo, de uma vez apenas. Tudo de rajada.  

A grávida hesita. Não entende. A menina do uniforme explica ao futuro pai o modo de operar. Também hesita, mas perante o vómito que insiste em torturar a rapariga, tenta partir o plástico da tampa e enfiar todo o conteúdo pelo feto dentro.

Resiste a pobre grávida. Só mais um bocadinho sem o auxílio do milagroso líquido.

Agonizante, estóica, espera o fim o turbilhão que a invade.

 

A Gaffe sorri para o jovem pai, em norueguês, ou seja, desenha um sorriso pálido, indiferente e inócuo para que o tempo passe mais depressa e sem os solavancos do enjoo. 

A loira rapariga de uniforme já não volta mais.

A mulher adormece lentamente e é adormecida que a encontra a outra jovem de uniforme igual, mas que é morena e magra.

 

- Sente-se melhor? Não esqueça que só pode tomar duas a três gotinhas e nada mais do que isso. Não é um medicamento muito recomendável a senhoras no seu estado! – Informa em Inglês.

 

Com tripulações destas, a frustração invade o mais ingénuo, pois que se descobre que todas as aventuras destravadas, dislates e tontices, transgressões e faltas são possíveis e com um ligeiríssimo esforço até no cockpit se poderiam cumprir as enunciadas fantasias passageiras.

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