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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe manual

rabiscado pela Gaffe, em 19.08.15

f1107.2L.jpgA Gaffe vai à manicure.

Sempre que tem de entregar a alguém pedaços de si, a Gaffe bisbilhota dias antes alguns exemplares do retalho disponíveis no mercado. Se, por exemplo, quer comprar um rímel, esta rapariga esperta debruça-se nas pestanas alheias até ficar cansada de tanto olhar e se decidir a escolher o próprio destino.

Com a manicure  o mesmo se passa.

A Gaffe, de tanto fazer tombar os olhos nas mãos dos que passam, descobre que a variedade insuspeitada de mãos que com ela se cruzam.

 

Há mãos como o traço negro das gôndolas ou o abandono frio de estandartes.

Há mãos, como mapas de corpos e de desespero desfeito nos canais do lento arrasto da melancolia dos trajectos.

Há mãos ágeis, de dedos e brancos e angulosos. Parecem insectos presos na angústia das teias de aranha. Outras que se movem devagar, como as ondulações meigas dos ramos das árvores de tronco quieto quando chega o vento sem qualquer barulho.

Há mãos como pequenos mosteiros de portas abertas numa estrada por onde não passam peregrinos. Reza-se lá dentro, pedem-se coisas, mas a terra do caminho que vai a essas súplicas não é abrandada pelos pés de ninguém.

Há mãos como peregrinos. Trazem dentro um som de catedrais.

Há mãos divinas.

Há mãos como comédias, saltimbancos súbitos que assustam prendendo pássaros aos dedos.

Há mãos como o esboço morto de um poeta. Trazem apagadas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos dessas mãos.

 

A Gaffe acredita que dar a mão a alguém é não a ter de volta nunca mais, é jamais aquele membro gestuar do mesmo modo, com o mesmo rumor subtil da identidade aprisionada.

Reconhecemo-nos ao dar a mão, ao dar verdadeiramente a mão, como quem vai, indiferente à multidão, desabotoando o coração.    

Dar a mão a alguém é como ver com os seus olhos. É raro mostrarmos a alguém como vemos com os nossos olhos. Dar a mão a alguém é portanto um risco eterno.

 

- Ainda quer a minha mão? – Pergunta a Gaffe à rapariga dos frascos e unguentos e percebe numa espécie de culpa que a pergunta deveria ser outra.

- Como se vê com os seus olhos?


Esperemos sempre que a mão que é dada ou acolhida faça com que as borboletas cresçam como espuma nos dias e acreditamos. Acreditamos até a dolorosa morte de sabermos que afinal as mãos já não se mexam, nunca mexeram, porque foram apenas cisnes imóveis com pescoços de espada e nós, decepados.

Talvez a noite aquática das nossas vidas vá desfazendo o que as mãos entrançam na varanda dos dedos enlaçados. Nesses momentos as nossas mãos ficam como alguém a ir embora.

Talvez então o silêncio que nos resta nas palmas seja Deus a chorar.

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