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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em fuga

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.15

3a.jpgA Gaffe abandona toda a sua gelada sofisticação e fleumática indiferença quando depara com aquilo a que decidiu chamar solidariedade do pechisbeque

Nessas alturas apetece-lhe apenas agarrar numa tábua com um prego na ponta e desancar as senhoras com ar de freiras à paisana que nos átrios das instituições públicas montam uma mesinha, cobrem o tampo com um paninho engomado e espalham em cima uma caterva de pechisbeques que tentam impingir em nome de uma associação de solidariedade social que ninguém conhece, com um nome habitualmente irritante – a Lacinhos, a Brinquinhos, a Miminhos, ou os Cominhos.

 

São porta-chaves, pingentes, bolinhas, postais, esferográficas, caixinhas, livrinhos, bonequinhos, pins, mascotes e tudo o que for pequenino, irritante, inútil, feio e de plástico.

 

Arregaçam um sorriso que não faz franzir os olhos e desabam sobre nós com a insistência do mosquito nocturno que nos enferma o sono, agindo em nome dos desfavorecidos que aparentemente lhes passaram uma procuração de plenos poderes ou do planeta das crianças disléxicas, cada mais povoado por miúdos que tropeçam três vezes na bola no mesmo jogo ou que, para além de dizerem treuze, o escrevem - se os Estados Unidos produzem crianças obesas a um ritmo alucinante o sistema de ensino português vomita com a mesma velocidade crianças disléxicas. É o seu new black.

 

A Gaffe desconhece o circuito, posterior à mesinha dos pechisbeques, do parco pecúlio que esta espécie de catequista anzoneira consegue angariar. Ninguém a informa. Pode ser perfeitamente usado na compra de santinhos para oferecer durante a procissão de beneficência ou na aquisição de um vibrador para beneficio da acólita, mas, tendo em conta o ar de coruja com que a senhora fica quando vê a Gaffe esconder a carteira, descalçar os sapatos, arregaçar a saia e desatar a fugir, desconfia que é usado na compra de adubo para abastecer os obesos mentais que continuam a engolir esta dislexia social.

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A Gaffe poética

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.15

Sam Fisher of the St Kilda Saints.png

Tremem leve, levemente,

como quem espera por mim.

Será medo a bater dente?

Medo não é certamente,

e o dente não bate assim.

 

É talvez a ventania,

mas há pouco, há poucochinho,

nem uma agulha bulia

na quieta melancolia

das areias do caminho...

 

Quem treme, assim, fortemente,

com tão estranha firmeza,

que mal percebo o que sente?

Não é medo, nem é dente,

nem é de dor com certeza.

 

Fui ver. A água de fria

Rivalizava com o céu,

Tanta água cinza e fria...

- Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!

 

Olho-a através da vidraça.

Põe a carne cor de vinho.

Tem dentro gente que traça

os braços para que não faça  

tanto frio no peitinho...

 

Fico olhando esses sinais

dos rapazes a tremer,

e noto, por entre os mais,

os traços miniaturais

duns speedos de morrer...

 

E molhadinhos, doridos...

a água deixa inda vê-los,

primeiro, bem definidos,

depois, muito esmaecidos,

que o frio não deixa erguê-los!...

 

Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas estes speedos, Senhor,

porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...

 

E uma infinita tristeza,

uma onda de pesar

entra em mim, fica em mim presa.

Há speedos na Natureza                                                                   

- e eu aqui a trabalhar.

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