Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe migrante

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.15

Evgeny Viitman.jpg

A Gaffe sabe, como é evidente, que existe diferenciação entre refugiado e migrante. São razões sociológicas, antropológicas, demográficas, económicas, geográficas, sociais e societais, políticas e outras que tais, que se tornam maçadoras e confundem uma pobre rapariga.

A Gaffe considera muito mais simples seguir as suas descobertas nesta área. As premissas que estabeleceu permitem com imensa facilidade distinguir as duas situações.

 

A invasão da Europa por gente que não tem noção que viajar exige algumas precauções e pelo menos um nécessaire no colo, assemelha-se, diria Cameron, a uma das pragas do Egipto: a dos gafanhotos – embora ainda não haja notícia de esfíngicos habitantes do delta do Nilo entre a multidão destruidora. Felizmente que, tal como na altura faraónica, temos hoje alguém para separar as águas. Angela Merkel exige seleccionar quem terá de ser recambiado e quem poderá solicitar o estatuto de refugiado.

 

A primeira distinção é vislumbrada. O refugiado vem com um estatuto apenso, o migrante terá de preencher a papelada e entregar no guichet alemão - e toda a gente sabe que não convém entregar aos alemães a tarefa de seleccionar quem fica e que tem de partir. 

Embora esta seja uma diferença básica, existem para nosso descanso outras mais simples.

 

Ora vejamos:

 

O refugiado normalmente chega chamuscado e com estilhaços cravados na família. Fugiu de lugares para onde não é conveniente viajar, porque o demónio perdeu lá as botas e tem medo de as ir procurar. Convém que esteja desnutrido, desidratado, traga gente às costas – podem ser crianças amarradas por uns tecidos coloridos -, e com colchões, cadeiras, fogareiros, cobertores e toda uma tralha sem fim e sem qualquer design, na cabeça. Tem à sua espera umas tendas giríssimas, umas ONG de fazer inveja à Jonet e pode, com alguma sorte, ser visitado pelo casal Guterres/Angelina Jolie.

 

O migrante não é forçosamente um espoliado crestado pelas granadas da desumanidade. A Gaffe ouviu na RTP1 um respeitável e sábio comentador anunciar que existe uma percentagem significativa de representantes da classe média na multidão que invade e conspurca o sossego europeu. A Gaffe já desconfiava da marosca, porque achou alguns parecidos com muitos portugueses medianos. Já o refugiado é paupérrimo e chega de buracos inclassificáveis onde não há média sejam do que for.

 

Ao contrário dos refugiados, há migrantes giros. O allure trash-chic fica sempre bem num sírio ou num afegão e o vintage nunca é démodé, assumindo a poesia da aventura náutica aliado ao brilho dos olhos dos desertos e das explosões. Os refugiados não têm qualquer noção de estilo e desconhecem que uns bons sapatos podem salvar uma imagem. O look descalço e com um pano estampado, muito tribal, enrolado no corpo, não favorece o tom de pele.

 

Os refugiados estão circunscritos a territórios bem delimitados. Facilita a distribuição de garrafinhas de água para entreter o estômago, farinha para os bebés e cereais para o pequeno-almoço. Podiam perfeitamente funcionar como parques temáticos. Compensava a despesa. Os migrantes são o caos! Encarnam a desordem e personificam o descalabro de qualquer estratégia organizacional. Não admira que não tenham visitas das ONG. Estão sempre a mexer-se!

 

Para os refugiados as pessoas civilizadas constroem reservas devidamente limitadas - método semelhante ao usado quando a civilização chegou aos Índios americanos e aos daquela parte mais abaixo. Em relação aos migrantes é a civilização que se barrica erguendo muros de arame farpado. A Gaffe acha uma pobreza! Seria de todo muito mais interessante o revivalismo das muralhas de pedra, de inspiração medieval, onde se poderia atirar ainda a ferver o óleo de fritar batatas no McDonald’s aos que tentassem escalar a fortificação. Reciclava-se.

 

A Gaffe não entende o alarido em redor quer dos refugiados, quer dos migrantes. A preocupação europeia seria muito atenuada, ou mesmo extinta, se os considerássemos turistas - de pé-descalço, vá! Dinamizava-se o comércio local e não se falava mais disso.

 

Ilustração - Evgeny Viitman

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD