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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o toureiro

rabiscado pela Gaffe, em 30.09.15

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Tenho uma amiga que é uma das assessoras de imagem de um político francês.

Aprendi imensas coisas engraçadas com ela. Já sei, por exemplo, que se não queremos parecer um enchido, na TV, não devemos usar casacos castanhos e que quando nos sentamos em frente das câmaras, temos de calcar com o rabinho as abas do casaco para que não nos desapareça o pescoço.

Por altura das primeiras eleições que fizeram do eng. Sócrates primeiro-ministro, estávamos as duas em Portugal sentadinhas a ver o início da campanha eleitoral. A determinada altura a miúda desistiu e solenemente declarou:

- Já ganhou e com maioria.

Era uma afirmação complicada. Estava tudo no princípio e pareceu-me demasiado cedo para uma convicção tão profunda. Depois de indagada - eu também indago - a minha querida perguntou-me se eu tinha visto a entrada do Sócrates no edifício. Para vos dizer a verdade, não tinha prestado grande atenção. Então veio o chamado raspanete. O Sócrates estava a usar um fato cinzento muito escuro, que lhe pareceu da Clinic, e um sobretudo discreto, preto.

Nada errado. O senhor engenheiro estava elegante.

A minha interlocutora chamou-me então a atenção para o facto de o candidato ter despido o sobretudo.

Pois tinha, e?...

E o forro, de seda, de um vermelho bandeira muito intenso, chispava de cor.

 

A imagem de um homem discreto, reservado, um niquinho conservador, cuidado, inteligente e sóbrio, escondia, portanto, um valentão, corajoso e dinâmico, capaz das maiores ousadias. Tipo super-homem na cabine telefónica a rasgar o fato de Clark Kent.

No inconsciente do populacho, aquela era a imagem certa. Contribuía para a vitória.

O senhor engenheiro foi sem dúvida o primeiro-ministro português que mais controlo teve sobre a sua imagem.

 

Mostrar o forro, quando o forro está imbuído de uma mensagem subliminar, ainda resulta. O problema é que, nos dias que correm, nem o forro os políticos têm para apresentar.

 

Imagem - Michael McCusker

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A Gaffe pelo espaço

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.15

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Há desilusões que trazem dentro o impulso que nos permite descobrir a água em Marte.

Há outras que nos deixam como símios a partir os restos que sobraram de um cadáver.

 

Zaratustra diria que tudo depende da forma como ouvimos Richard Strauss.

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A Gaffe eleitoral

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.15

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A Gaffe atribui grande importância à eleição da Miss Universo. É tão simples!

As candidatas são giras, não maçam muito, sabemos que querem em uníssono acabar com a guerra e com a fome no mundo, mas que a duração do mandato permite apenas acabar com a delas e ninguém apanha a surpresa de as ver fazer o contrário do que dizem. Nelas, o inverso do Nada é uma questão filosófica e toda a gente sabe que a filosofia é para aqueles que têm imenso tempo livre.

 

A Gaffe, nas campanhas para as próximas eleições para a Assembleia da República, não espera ver os candidatos em fato de banho e embora tenha tido o choque amarelo dos calções justíssimos de António Costa, considera o acidente um percalço isolado e prefere avaliar outras miudezas.

A verdade é que, nestas ocasiões, uma rapariga esperta fica sem cenários adequados. O amontoado de gentalha mal vestida, as feiras de gado, as ruas apinhadas de paus e de panos com padrões absolutamente pindéricos, a papelada que se desperdiça – a Quercus devia congratular-se. Mais uma campanha e ficamos sem a época dos incêndios! - e a barulheira descomunal dos tachos e dos apitos, impedem que qualquer pessoa de bem possa interpelar o candidato, pedir um autografo a Mariana Mortágua - que enfrenta banqueiros como uma Valquíria, mas que se torna liliputiana na frente do povo -, ou apalpar o rabiosque a João Galamba.

 

A Gaffe vai restringir-se, em consequência, aos candidatos mais proeminentes, deixando, por exemplo, Gonçalo da Câmara Pereira longe da ribalta, apesar de ser mimoso vê-lo empolado e empolgado a tentar ler o teleponto ao mesmo tempo que procura perceber o que se está a passar ou Marinho Pinto a berrar que nos vai processar a todos. Não se atreve a tocar no MRPP, porque tem medo de ser morta, nem no NOS, porque está fidelizada à MEO. 

 

Resta-lhe o habitual.

 

A Gaffe tem medo de Paulo Portas. Desvia os olhos quando o senhor esganiça no púlpito, com um bicho morto e espalmado na cabeça e um globo ocular gigantesco na barriga. A Gaffe fica arrepiada quando o ouve a modelar o discurso aproximando o timbre das catequistas anzoneiras de província ou das beatas que dentro dos missais escondem estampas pornográficas. A Gaffe sente que Paulo Portas é o sinistro gato - sempre o mesmo - que aparece nos colos dos mauzões. Ninguém sabe o que lhe acontece quando os vilões são apanhados.

 

Passos Coelho parece ter qualquer coisita enfiada no rabo, mas não quer que o eleitorado se aperceba disso. Sorri, como quem abre um figo com os dedos. Dir-se-ia, caso quiséssemos ser cabras – e nunca o desejamos - , que foi de plástico numa anterior encarnação e que ambiciona voltar a sê-lo num futura. Entretanto, é de barro, moldado na peanha de uma troika.

 

António Costa aparece como um tio bonacheirão. Toda a gente sabe que a eternidade é um tio desses que nos promete a fortuna se dele cuidarmos. Acabamos sempre por descobrir que vai estourando as parcas moedas que tem com as mulheres da má vida. A Esperancinha, dizem, ronda cada esquina. Veste-se de verde. Vem um burro e come-a.  

 

Jerónimo de Sousa é o último pedaço que resta das Ideologias. A Gaffe lembra-se de Álvaro Cunhal, sem as sobrancelhas de carpélio, quando vê surgir este velho e calcinado capitão. Surpreende-se quando percebe que o respeita, porque sempre considerou uma tolice a insistência tenaz com que alguém se esbardalha. Simpatiza com Jerónimo de Sousa, porque reconhece instintivamente que mesmo nas derrotas, podemos sempre recusar a venda burguesa por grifar e mostrar o rabo proletário ao vencedor. 

 

Catarina Martins é pequenina. A porcaria do ditado que a aproximará da sardinha, se não erguer a banca da oposição, é ameaça eleitoral. A peixeirada está macerada de contínua e o pescado de tão exposto cobre-se de moscas. Os eleitores esperam ansiosamente vê-la nua, vê-la depois de burka, depois de Índia Tupi, mais tarde de Louça e a usar as bananas de Carmen Miranda para a poder comparar com as rivais.

 

Elencados os candidatos predominantes, resta reparar na pobre gente que neles votará.

A Gaffe já só tem palavras esgotadas - porque gastámos tudo menos o silêncio, porque metemos as mãos nas algibeiras e não encontramos nada -, e uma fotografia avulsa de um dos eleitores. Eugénio de Andrade terá portanto aqui de bastar, em esperas inúteis, já que os elegíveis parecem as Misses.

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A Gaffe e as “coisas de rapazes”

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.15

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Por motivos alheios à minha vontade, tive de dormir no apartamento de solteiro do meu irmão.

O rapaz retornou ao T1 - que resultou da fusão com um T2, por vontade sua e obra projectada pela mana mais velha, após ambos terem ignorado a minha sugestão de se comprar logo um T3 -, pouco tempo depois do fim da sua longa ligação com uma norueguesa mal disposta.

O resultado obtido, tendo em conta que os espaços originais estavam longe de ser cubículos, foi uma enorme e belíssima área luminosa dividida em espaços harmoniosos que podem albergar funções díspares sem interferirem, dominarem ou se anularem mutuamente. Dei o bracinho a torcer

 

O quarto tem uma cama de solteiro, réstia de um passado cujos pormenores escolho não saber, que me foi amavelmente cedida pelo rapaz com uma alegria precipitada. Dormiria ele no sofá com a abnegação dos puros.

 

Uma da manhã:

O sofá tem pó. Ele é alérgico!

- A minha asma, sabes? - Levanta-se de t-shirt e boxers a avisar-me. Não sabia.

Puxa o colchão escondido na caixa da cama onde bocejo.

- Boa noite, maninha.

 

Meia hora depois:

A almofada! Não dorme sem uma almofada enfiada entre os joelhos e eu tenho a preferida. Arrepio-me quando percebo que a minha cabeça está onde o rapaz costuma pousar as pernas. Não sei para onde aquela porcaria resvala.

Dou-lha.

 

Três quartos de hora depois:

- Tens o despertador ligado para que horas? É que tenho de sair às seis da manhã. Tenho medo de não chegar a tempo ao aeroporto.

O avião é ao meio-dia.

 

Uma hora depois:

- Estás a dormir? Se não conseguires dormir com a luz das janelas, eu corro as persianas.

Levanta-se e corre as persianas.

 

Uma hora e meia depois:

Não consegue dormir naquele colchão. Fica com cócegas.

Ofereço-lhe um lugar ao meu lado. Enfia-se como pode e tenho um monstro de quase dois metros esbardalhado naquele espaço mínimo e começo a temer ser transformada em almofada entre os seus joelhos.

 

Duas horas depois:

Tem calor!

Não! Não pode despir os boxers.

Francamente!

Quero lá saber que a ideia tenha surgido a brincar.

 

Duas horas e meia depois:

- Será que meteu tudo na mala? É que não se pode esquecer dos dois dossiers azuis.

Vai verificar.

 

Duas horas e quarenta minutos depois:

Avisa-me que sim. Tinha os dossiers na mala, mas prefere levá-los na pasta.

- Não viste a minha pasta por aí?

Não. A pasta não estava na cama comigo.

 

Duas horas e cinquenta minutos depois:

Talvez a pasta tenha ficado em casa da avó! Será aborrecido telefonar a verificar? Gosta tanto daquela pasta! Dá-lhe sorte. Não pode sequer suportar a hipótese de a ver perdida.

É escandaloso. Não vai telefonar a ninguém àquela hora. Se tentar, apanha o avião, mas já cadáver.

 

Três horas depois:

Lembra-se onde tem a pasta! Está entre a parede e a cama onde tento controlar os impulsos assassinos. Suplica-me que a resgate. Aceito se ele me der o Buda em marfim, esgotado e antigo como as horas, que me sorri desde a infância.

 

Três horas e quinze minutos depois:

Arrasta a cama e retira a pasta que tinha tombado só Deus sabe em que circunstâncias.

Corro para o sofá e ameaço-o com o bonacheirão de marfim. Haverá sangue se o rapaz não adormecer de imediato.

 

Três horas e trinta e cinco minutos depois:

O rapaz ressona. Estou mesmo ao lado dos motores do avião que levou a norueguesa para longe deste cataclismo.

 

Quando as minhas queridas me voltarem a dizer que as coisas de rapazes se resumem ao abrir das pernas quase em espargata quando se sentam nos sofás a ver futebol, a beber cerveja, a insultar as coisas que correm atrás da bola e a andar por todo o lado de carcela aberta, eu entrego-lhes o meu irmão para adopção.

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Gavetas:

A Gaffe e um triunvirato

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.15

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Quando a minha quarentona favorita me desafia, não consigo negar, sobretudo quando sei que não é extensa a provocação. Os deuses também estão na brevidade das perguntas e na dificuldade das respostas.

Vamos então completar o triunvirato.

 

QUERO - muito, muito, muito, quando for grande, ouvir dizer que me pareço com Kristin Scott Thomas no momento em que protagonizou O Paciente Inglês. Em alternativa, não me importo de tratar o Ralph Fiennes dessa mesma época.

 

POSSO - fazer de uma feijoada servida no meio do vinhedo do Douro ao som de um rancho folclórico, com anedotas já tontas de vinho e gargalhadas suadas e muito pouco discretas, um pequeno-almoço inglês presidido por kristin Scott Thomas, mas jamais deixarei o meu prato vazio.

 

MANDO - que tudo se cale quando ouço - e ouço demasiadas vezes! - o meu musical favorito O Fantasma da Ópera de Andrew Lloyd Webber, sobretudo quando soa Angel of Music ou Think of Me. Morro um bocadinho na lagrimazita que se escapa sempre. Um dia hei-de ser Christine!

 

Na foto - Iekeliene Stange por Serge Leblon

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Gavetas:

A Gaffe e uma verdade simples

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.15

Como diz o meu maravilhoso amigo, quando dizemos sempre aquilo que pensamos, acabamos por descobrir que cada vez temos menos oportunidades para o fazer.

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A Gaffe praxada

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.15

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À entrada da adolescência, decidi que tinha de ostentar um piercing, algures na paisagem do meu corpito ainda breve. Era uma decisão irrevogável até a ter comunicado à minha mãe.

Fui terminantemente proibida.

A minha revolta entrincheirou-se nas acusações de tirania, de insensibilidade, de falta de cumplicidade e de mais uma ou duas tiradas dramáticas até desabar inútil e acabrunhada.

 

- Sou tua mãe. Sê-lo-ei para sempre, minha querida. Não sou e jamais serei a tua melhor amiga.

Estás proibida de te mutilares.

 

Invoco este incidente com imensa ternura e profunda gratidão. Creio que foi em consequência dele que percebi a dimensão do comprometimento que implica a maternidade e recordo-o quando vejo da varanda, pela noite dentro, um carro empapado em jovens machos universitários fardados e bêbados que retiram da mala – da mala do carro, insisto -, um jovem colega que parece bastante divertido, pese embora os ganidos e a necessidade de ser levado em braços.

 

Os jovens machos de traje académico que ficaram para trás, erguem-lhe agora as pernas e o farrapo é transportado deitado de rosto voltado para o chão, para que vomitar não implique paragem.

 

Estranhamente, pela calada da noite, chega-me à memória o triste episódio do meu frustrado piercing.

Lamento profundamente que a mãe de cada um dos protagonistas da praxe a que assisto nunca lhes tenha negado o que exaltava na minha adolescência e que supunha ser a vitória e a glorificação da maternidade. Foi uma pena que nunca tenham ouvido:

 

- Sou tua mãe. Estás proibido de te mutilares.  

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Gavetas:

A Gaffe alienígena

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.15

Quando era muito, muito pequenina, tinha medo do escuro.

Mal se apagavam as luzes, depois do beijinho da praxe dos meus pais, ouvia os monstros subterrâneos que eclodiam rasgando e arrasando o soalho. 

Imaginava então que habitava uma nave espacial sobrecarregada de luz. Era uma menina alienígena que vinha envolta em claridade, não pousar numa oliveira (já nessa altura achava deselegante), mas aniquilar com feixes de luz os mostrengos ameaçadores.

Entretanto cresci.

Abrandou significativamente o medo que tinha das trevas ao mesmo tempo que evoluiu a minha importância dentro da nave. Aos dezoito anos, era já uma Imperatriz capaz de fazer corar de inveja qualquer produção de George Lucas, mas com um problema digno dele: era a soberana de um planeta em vias de extinção. O cromossoma Y tinha sido afectado de modo irreversível por uma epidemia qualquer, provocando um surto demográfico anómalo e uma carência de machos no Império que governava, obrigando-me a ordenar a procura de planetas onde o Y ainda se mantivesse em condições e fosse compatível com a espécie em risco. A Terra preenchia estas exigências e o maldito Freud tem, de certeza, uma explicação para este desvio planetário.

Hoje, vendo o que me é dado, mudava sem hesitar o destino da nave, mesmo correndo o risco de transformar o Império no paraíso de Safo.

O modo como fazia a selecção do macho terráqueo, assim como a forma de extracção e inoculação do cromossoma desejado, era do outro mundo (é fácil de prever). Abstenho-me de o referir, porque já causei desgostos suficientes à minha avó.

A verdade é que, mesmo antes da ameaça de exterminação, sempre me preocupou o facto de nunca ter acertado na fatiota que deveria usar nestas andanças intergalácticas.

Até que a Vogue me fez ver a luz que se reflecte na carteira incómoda, mas resplandecente de glamour, e na blusa com um ligeiro sabor a Vaticano gay. Nada poderia servir tão bem a uma imperatriz com problemas de índole cientificamente sexual como o que é proposto pela imagem e se condenamos a extrema magreza do modelo, tenhamos também a honestidade de reconhecer que sem o Y toda a mulher passa fome.

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A Gaffe escreve ao Ministro

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.15

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Meu caríssimo Nuno,

 

Devo dizer, antes de tudo, que o considero o ministro mais atraente do governo, sobretudo quando aparece ao lado de Mota Soares.  

Posto isto, e sabendo que uma rapariga ajuizada está sempre predisposta a não acolher com bons olhos as diabruras com que criaturas mal intencionadas e feias costumam sujar o chão pisado por um homem sensual, prontifico-me a enfrentar por si a turba esfaimada.

Admiro a sua sensatez, fico deslumbrada com a lógica matemática sublimada nas suas decisões e não posso deixar de prestar a minha homenagem e de lhe apresentar total solidariedade, quando o vejo martirizado perante acusações injustíssimas que lhe ferem o orgulho e minam as suas boas intenções.

 

As demoras nos inícios dos anos lectivos, imputados escandalosamente à ineficácia da equipa que lidera, são claros atrasos dos professores que por tradição chegam sempre quinze minutos depois do segundo toque. Toda a gente sabe desde tempos imemoriais que os alunos esperam imenso que o docente se arraste pelos corredores até chegar à sala, sempre a queixar-se que não tem tempo para dar o programa todo com turmas formadas por um número infindável de alunos. Todas as pessoas de bem sabem que um professor é como um general! Deve saber liderar os seus soldados, incutir-lhes valores morais, cívicos e disciplinados, castigar quando prevaricam, exercitá-los até que reajam em uníssono perante a sua voz de autoridade. Se um general não admite liderar um batalhão de dois ou três pindéricos, um professor não tem o direito de choramingar quando é honrado com uma turma de trinta soldadinhos para treinar.

 

Uns piegas.

 

Este indecoroso comportamento inclui a cegueira humanitária desta gente que é controlada por um homem de bigode estranho. Os professores são indiferentes aos refugiados que - valha-nos Deus! - parecem moscas a assolar a nossa querida Europa fazendo crer que a pobre já está morta e em decomposição. Não vislumbram sequer que as distâncias que estes pobres percorrem são muito superiores àquelas que separam as suas casotas das escolas onde ficam colocados. Não sei se estes migrantes têm casa lá na terra. Penso que vivem naquelas tendas fantásticas, cobertas com tapetes maravilhosos e paisagens de nos tirar a respiração, mas não os vejo a lacrimejar por terem de caminhar alguns Kms até chegar aos seus postos de trabalho.

 

É compreensível a sua indignação, assim como é lógico que impeça que os nossos impostos sejam atirados aos ventos que são as Escolas Artísticas. Temos a Joana Vasconcelos, temos o José Rodrigues dos Santos, Temos o Pedro Chagas Freitas, temos o José Avillez e até temos a versatilidade do Goucha, mas onde estão os picheleiros? Os torneiros mecânicos, seja lá o que isso for? Os serralheiros? Os serventes dos trolhas e os nossos serventes?! Urge apostar nestas formações básicas e acabar com os pliés os tendus e os frappés. Se queremos ver dançar temos o NY City Ballet. É imprescindível que se trave o acesso das multidões desvairadas ao Ensino Superior e ao Ensino Artístico começando, como muito bem prevê - visionário que é -, a dirigir as crianças mais ranhosas para as formações mais práticas e mais úteis, que não vampirizam os nossos impostos e que duram dois ou três meses. O Instituto de Emprego e Formação Profissional é pioneiro e tem larga experiência nestas andanças, mas é a um Ministério esclarecido que compete dar envergadura a estas iniciativas que não descuram, de todo, a vertente cultural da aprendizagem. O ensino do Inglês no primeiro Ciclo é disso exemplo.

 

Pese embora as tolices dos especialistas que afirmam que aprender a falar e a escrever a língua materna exige uma imensa actividade cerebral e que a exposição simultânea e de teor académico a outra língua interfere de modo negativo no processo de aprendizagem, o meu querido Nuno não se deixa enganar e taxa com chumbo quem não torcer o pepino inglês na 4.ª classe.  É claríssimo o disparate dos que defendem que o 1.º Ciclo deve apenas ser embalado com os sons da língua inglesa que vagueiam nas cançonetas e lengalengas de Sua Majestade britânica ou por desenhos, jogos e teatralizações que permitem apreender de forma involuntária e mesmo inconsciente as subtilezas de uma língua estranha. Não nos deixemos enganar! Pagamos os serviços e queremos resultados. Decorar verbos, construções frásicas, frases idiomáticas, vocabulário, a árvore genealógica da rainha e as linhas de caminhos-de-ferro que servem o Reino Unido, produz adultos poliglotas, se na escolinha for também servido o mandarim e coisa assim. É certo que já ninguém sabe - e odeia quem o diz -, onde nasce, passa, tropeça e desagua o rio Alfusqueiro ou o rio Fasfião, mas foi uma aventura sujeita a chumbo decorar estas maravilhas portuguesas. Há que recuperar esta produtiva pedagogia.

 

Mais lhe teria para dizer, meu querido Nuno, mas se já ninguém atura os manuais escolares que se alteram de hora em hora, para que serve uma missiva de uma pobre fã dona de um blog?!

 

Após vénia mimosa, receba um beijinho da Gaffe.       

 

Imagem - Gabriel Ritter von Max

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A Gaffe casamenteira

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.15

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Raparigas!

Não abdiquem. Sejam noivas tradicionalmente perfeitas.

Nunca se esqueçam que um pecado, um erro e uma mentira, se toleram mais depressa se chegarem com laços, tules, sedas e perfumes.

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A Gaffe de saltos altos

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.15

saltos altos.jpg De acordo com alguns peritos na matéria, uma criança nasce com todas as potencialidades de se tornar matemático, arquitecto, músico, pintor, bailarino, físico atómico, escultor, escritor, investigador e toda a panóplia de variantes que quisemos, porque o cérebro contém todas as sinapses certas que favorecem todas as hipóteses. São os primeiros dias de vida que as vão destruindo, restando na maioria dos casos uma normalidade acabrunhante. A teoria sucumbiu rapidamente, embora reconheça que aplicada a mim tem algum fundamento, tendo em conta que o meu desenho, já de adulta, de um cão, foi encaixilhado pelo meu pai que achou maravilhoso ter retratado o extraterrestre que um dos provadores do vinho novo tinha avistado depois de ter permanecido demasiado tempo perto do lagar a fermentar. As ligações que me permitiriam aceder ao universo da expressão gráfica foram decepadas algures na minha mais tenra meninice.

 

As sinapses que ajudam uma mulher a usar tacões agulha como se tivesse com eles nascido, é uma das primeiras a partir. São raríssimas as que sobrevivem à adolescência titubeante e de plataforma de cortiça com tiras enroladas aos tornozelos e, na morte, levam consigo a consciência do deprimente que é parecer que sofremos de gravíssimos problemas ortopédicos ou de dolorosos achaques reumatismais quando nos atrevemos a dar um salto maior que a perna.

 

Os tacões, sobretudo os agulha, os que não suportam o suporte da cunha compensadora, devem ser usados apenas por mulheres que parecem ter sempre caminhado em bicos de pés, que parecem uma prima ballerina assoluta eternamente pronta para iluminar o Lago dos Cisnes e que sabe que os gémeos - os músculos da barriguinha da perna -, não vão, jamais, sugerir que necessitam de soutien.

 

Uma das mais eficazes provas da elegância genética de uma mulher é a naturalidade com que usa tacões agulha. Se o Everest parecer que foi encastrado invertido na base dos seus calcanhares e que a montanha chega sempre perfeita a qualquer Maomet, então a mulher conservou todas as sinapses que permitem escalar o que quer que seja, mesmo que a temperatura não lhe permita um decote Chanel vertiginoso.

 

É evidente que, perdidas estas ligações, uma mulher pode, mesmo assim, ousar encavalitar-se.

Com uma sorte extraordinária, um treino intensivo e aulas no Chapitô, pode eventualmente chegar a ficar apta, se existirem factores muito palpáveis, a parecer um belo rapagão em desequilíbrio.

O povo diz que os olhos também comem e, mesmo quando a carne é mal apresentada, somos mais benevolentes quando há bons legumes.

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A Gaffe e os rapazes descidos

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.15

Meus queridos e jovens amigos, se estão dispostos a transformar a vossa imagem naquela que vos possibilitará um relativo sucesso junto das multidões que querem ver aos vossos pés, não usem calças com cinta nos joelhos e cós a tocar onde querem que as multidões se encontrem.

As bags (chamam-lhes abreviadamente os entendidos) são um erro de casting, uma abominação com demasiado pano entre as pernas, local onde deveria situar-se outro tipo de atractivo, uma tragédia que vos faz parecer bassets infelizes, dachshunds perturbados ou, na melhor das hipóteses, alguém que em breve terá graves problemas ortopédicos pela forma como caminha neste vale de lágrimas.

As calças, meus queridos, devem estar bem localizadas, assentes na cinta ou ligeiramente abaixo dela, seguras com perfeição nas pequenas ancas por um acessório discreto e digno e de provocar inveja aos mais fleumáticos dos britânicos. Devem, nos mais conservadores, insinuarem a musculatura das pernas sem a bazófia dos halterofilistas ou, nos mais ousados, recorrerem ao que se convencionou chamar slim, ou seja, não devem apertar o que é desnaturado esmagar, mas podem acompanhar o formato dos músculos ou mesmo revelar que não existem.

É evidente que, mesmo seguindo esta pequena recomendação nem todos se transformam no exemplo dado, mas, pelo menos, deixaremos de ver os sacos do Continente enfiados nos meninos das ruas das nossas vidas, com boxers estampados a espreitar por cima dos legumes.

 

Na foto - D. Gandy por Mariano Vivanco - Dolce & Gabbana

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Gavetas:

A Gaffe muda

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.15

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Há uma hora em que não ouço a minha Avenida.

Próxima do alvorecer, a hora do deserto interrompe as ruas e passa como um vadio com o silêncio nos bolsos. Nessa hora, o mar não tem queixume e dele apenas sinto as mudas ondulações da desbotada lua. É a hora das palavras por dizer. Chegam nos bolsos do vadio que passa, junto aos silêncios, e ficam presas nos frouxos candeeiros como frutos ou pombas ou pedaços de gente bêbada, escura, que adormece.

 

Invento o meu ruído, nessa hora. O que me faz ouvir o que nas outras horas emudece. Abro a porta e debruço-me nos bolsos dos vadios, dos que usam o silêncio como frutos ou pombas ou travos de gente pendurada nos vagos candeeiros e deixo que as palavras sigam deslumbradas como se tivessem nascido há pouco tempo e pasmadas se infiltrassem nos rochedos.

 

A minha hora muda é o silêncio dentro dos vadios e uma mulher com cabelos soltos, nua, morta sobre as ondas.

 

Foto - Mario de Biasi

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A Gaffe de Chico Buarque

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.15

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Há lugares onde não entramos sem que lentamente nos ocupem. São lugares feitos de palavras que sabem emudecer todas as nossas.

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Gavetas:

A Gaffe censurável

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.15

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Michael Stokes 2.jpg

É-me indiferente o que o facebook censura aos seus subscritores e não quero saber quais são os critérios usados neste purificar que me parece desvairado, mas, apesar disso, fiquei surpreendida quando li que Michael Stokes viu o seu trabalho boicotado e banido do cantinho onde é permitido esbardalhar e esmiuçar tudo o que se pode captar por uma máquina fotográfica sem qualquer preocupação com a sanidade mental dos mais incautos.

Informa o comunicado que a nudez é condenável nesta rede social.

 

Os homens nus de Michael Stokes estão encharcados de Photoshop que tem o cuidado de fazer desaparecer o mais subtil pedacinho que possa insinuar que somos todas viciadas em sexo.

As badaladas fotografias de mutilados nus, entre outras e exactamente como as outras, surgem-nos sempre com a pilinha dos rapagões muito bem tapada, dando lugar, no primeiro caso, a uma espécie de glorificação manipulada de deuses imperfeitos, e, no segundo, a uma colecção de meninos lustrosos e em excelente forma física. Ambas as situações cansam imenso após dois minutos de cuidada observação, porque nos lembramos do Ken-macho-parolo ou de um Ken depois de ter sido um brinquedo de uma menina lésbica.

 

Seja como for, e tenhamos sobre o trabalho de Michael Stokes a opinião que tivermos, não podemos negar a qualidade da objectiva do fotógrafo e as potencialidades infindáveis do Photoshop - assim como não podemos ignorar os belos atributos dos fotografados.  

 

Expulsar da rede como casos de passível obscenidade, de eventual incitamento à libertinagem ou mesmo de atentado ao pudor, mantendo cordialmente o amadorismo das fotografias de mamocas, que valem por dois hipopótamos, em férias abençoadas por Deus ou selfies de rapazinhos captadas nos sanitários do parque de campismo, é, num lance de boa vontade, um disparate hipócrita que nos deixa muito limitadas e sem a hipótese de ter como amigo um rapagão com uma perna de pau valendo o pau muito mais que perna.  

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