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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe despentada

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.15

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Descobri ontem o primeiro cabelo branco na juba do rapagão.

 

No meio do negrume, um fio prateado que me fez parar, olhos abertos de pasmo e boca por fechar. Faiscou no lado esquerdo, porque envelhece mais depressa nessa margem, já que é canhoto.

Fez-me estancar, roída pela consciência do envelhecimento.

                    

Tenho medo de envelhecer. Não o sórdido pavor que nos leva a procurar a guerra com o tempo, mas um receio em surdina que nos abafa o desejo com almofadas mornas e nos amordaça os gestos com fitas de veludo. Tenho medo de envelhecer e não crescer por dentro da velhice. Uma Dorian Gray no feminino interior, ainda mais maléfica.

 

Reconheço os dias pelo bater da luz contra as vidraças, sei que há vidros entre mim e a vida a latejar lá fora, apercebo-me das tessituras dos filtros entre mim e as ruas, sei do estilhaçar dos voos contra os muros e tenho medo de só envelhecer como o retrato.

 

Por isso cortei hoje o meu cabelo. Curto, bastante curto. Como se nesse golpe, esquecesse o dele.

Disparate.

Tenho agora na cabeça o aroma de pêssegos macios, acabados de colher ainda cobertos de orvalho.

Vou envelhecer de caracóis largos e soltos como breves petizes por domar.

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A Gaffe eleitora

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.15

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Embora toda a gente saiba que a expressão correcta é mal e parcamente, é nossa desdita abandonarmos sempre o parco e escolhermos porcamente.

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