Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe política

rabiscado pela Gaffe, em 04.09.15

pope.jpgA Gaffe há muito que deixou de ouvir os seus políticos.      

 

No início, retirava o som dos aparelhos, mas depressa percebeu que apenas se divertia com os mimos mais histriónicos, com gestos tonitruantes, e que não se notava diferença quando era retirado o ruído a Cavaco Silva.

 

Passou a distrair-se com os cenários.

Enquanto o discurso se ia escoando, a Gaffe observava os adereços, o mobiliário, a loiça, os quadros, os cortinados ou a paisagem que da janela se compunha.

Depressa se cansou. Pouco ou nada se alterava de lugar para lugar.

 

Tentou aproximar os oradores das personagens de livros ou de filmes de que tinha memória, mas o único que se encaixava nos parâmetros exigidos era o Papa Francisco numa moderna versão de Fernandel. Ficou muito incomodada, porque o actor francês sempre a apavorou.

 

Decidiu perscrutar a moldura humana.

Sempre que se discursava, a Gaffe passava os olhos pelos senhores que atrás do discurso ou da intervenção pública, criavam raízes em terreno infértil.

Tem de admitir que se divertia.

Não são emplastros. São muito mais engraçados do que o portuense telegénico.

Há todas as versões da patetice. Os que acenam com a cabeça ao som do sim e não do pregador, olhos fechados e cantos da boca descaídos, compenetrados, de modo a revelar tino e sisudez; os de olhos esbugalhados e fixos, cravados no público que pensam existir, a reprovar com a sua austeridade vincada a distracção do alheio; os que fazem desabar o olhar longínquo e superior sobrevoando a turba; os que espreitam o ombro do discurso de modo a aparecerem discretamente lá em casa e que só não tiram selfies porque lhes falha o stick; os que permanecem empalhados e que têm de ser recolhidos no fim, à força de braços ou de picaretas; os que sorriem e disfarçam querendo parecer que estão ali por acaso e nada querem em troca e os que apresentam uma cara de pasmo por terem sido arrebanhados só para fazer número.

Existem de todas as cores.

 

No entanto, acabamos por repetir os cromos! Apesar de tudo, as cadernetas não são complexas e as variantes esgotam-se depressa.

 

A Gaffe, desiludida, resolveu, recentemente, despi-los.

Vai resultando.

Imaginar Paulo Portas de pilita a dar-a-dar, enquanto se vai demitindo; Passos Coelho de rabinho voltado para a lua, a inaugurar uma mostra de gado – amostra, como se diz no Norte -; António Costa de mamocas ao léu escondido atrás de um carro pronto a afugentar os jornalistas; Jerónimo de Sousa de bandeira em riste a marchar ao sol nascente ou mesmo Assunção Esteves com as virilhas supostamente por depilar e com o mesmo penteado que traz na cabeça, apesar de ser tudo ligeiramente repugnante, é o único sentir que ainda conseguem despertar e, por muito infeliz que pareça, a única forma que resta de se fazerem notar.   

 

Pelo menos Obama entra sempre aos saltos no palco onde vai discursar.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD