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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e as vitórias

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.15

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Quando um homem diz que determinada coisa não passa de uma tolice infantil, cujo sucesso se deve exclusivamente à sorte. Muito provavelmente trata-se de algo que uma mulher faz melhor do que ele.

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A Gaffe cor de pérola

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.15

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Não sei fazer o laço. É de seda cor de pérola e as pontas assimétricas tombam miseráveis, como tiras de nódoas no peitinho.

 

Fui primorosamente penteada. As mãos do rapaz, que nunca tocam em cabelos femininos, concederam-me o espanto que é ver o meu cabelo domado. Espalharam meticulosamente no meu rosto um creme que uniformiza a minha pele e a torna mais perfeita. Tenho o rosto dos esculpidos, como se a imagem do espelho fosse a projecção estranha de um corpo que até agora não sabia.

O vestido fica-me bem! A minha irmã deu-mo com um aviso: tentar parecer que sempre o usei, que não é novo. É de seda e assinado. Se colocar a mão na anca e afastar ligeiramente a perna esquerda, vergando com subtileza a outra, que suporta agora o peso, fico parecida com as bonecas de papel e tinta que enfeitam as páginas da Vogue.

 

Vão chegar antes da meia-noite. O origami do laço nas mãos da minha irmã não terá segredo algum. Basta esperar.

Espero.

O vestido é cor de pérola. Fica-me bem. Uso-o como usaria outro qualquer, sem rasto de cuidado.

Espero.

Da varanda espreito o mar, preto e frio. Se descer, a Avenida não vai estranhar a rapariga de vestido cor de pérola com laço por fazer.

À meia-noite espio da varanda o mar que sempre usou um smoking preto com laço por fazer nas noites em que a lua não caminha por Avenida nenhuma.

Espero sem chamar por ninguém. Há noites em que não fazemos concessões.

O meu vestido é cor de pérola e estou descalça com um laço por fazer.

Vou esperar mais duas horas. Vou espreitar durante duas horas o mar de smoking preto.

Não vou descer a Avenida que de vazia não estranha sedas de laços por erguer.

 

A minha mão na anca. Os ponteiros do relógio abertos a medirem a inutilidade do meu nó à espera de ser feito.

Às duas horas deixo o meu vestido de seda cor de pérola e assinado, no chão da varanda. Talvez uma gaivota desgarrada chegue na manhã e o bique a pensar que é morto.

 

Nunca consegui criar o laço.

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