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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no meio da crise

rabiscado pela Gaffe, em 16.09.15

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A Gaffe ficou muito incomodada quando viu o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados muito nervoso a revelar ao mundo a desunião da Europa e a clamar por corredores humanitários que permitam que Angelina Jolie vá visitar os pobrezinhos.

A Gaffe confessa que a sua primeira e maldosa suposição foi a de Guterres se irritou por ver o final do seu mandato encharcado por uma caterva infindável de gente. Temos de concordar que seria muito mais agradável que as pessoas viessem em tranches supervisionadas ou em pacotes controlados, com despacho mensal do expedidor. Urge perceber que as exportações não se fazem à força. Há que se estar atento aos mercados e, sobretudo, há que referir também que é bom que se aprenda a não dar hipóteses aos imbecis que defendem que as guerras devem ser travadas exclusivamente pelos nelas interessados, enfiando-os sozinhos numa arena até um deles cair inanimado. Não resulta, como fica provado. Já praticamente toda a gente saiu das regiões beligerantes - a Gaffe estava ansiosa por imitar Felipe Pathé Duarte -, e não se augura para breve o fim do tiroteio. Imensa poeira. Há tradições que convém manter, sob pena de colapso civilizacional, como é de concluir.

 

A Gaffe, seria de prever, está contra esta maré cheia de gente e lamenta que apenas as pessoas de bem percebam as razões que lhe parecem óbvias.

 

- É trágico o modo como se assiste à perda de identidade cultural destes enxames de pessoas pobres que chegam em barcos de borracha, esquecendo por completo os materiais naturais usados pelos antepassados - camelos, tapetes, cordas e paus, não era?

 

- Verifica-se a aniquilação das suas línguas de origem. Falam inglês os que são entrevistados pelos jornalistas que os cravam de perguntas no intervalo das rasteiras. Absolutamente indesejável, porque retira imenso trabalho aos intérpretes de língua gestual.  

 

- É patente a ausência dos trajes das regiões de origem. O que é feito dos maravilhosos turbantes?! Onde estão as pasheminas de cachemira?! As écharpes coloridas de linho do Egipto?! Os cachecóis transparentes da cor do sol poente?! Os adereços em lata lapidada?! As túnicas fantásticas?! As sobreposições de tecidos?! Tudo muito Lacroix, tudo muito Galliano nas suas estações mais étnicas?! Por onde ficaram as sarswat, os anarkali, os saris, as kafia, os kameez, os salwar kameez?! – a Gaffe sabe que misturou tudo, mas é tudo artesanato.

Esta gente parece que chega toda de um bairro social! Tudo muito hip-hop.

                                             

Depois, não se avista um livro. Ninguém lê. São viagens infindáveis sem um vislumbre de leitura.

Toda a gente sabe que um livro é uma evasão; que um livro nos rasga os horizontes; que um livro nos transporta para longe; que um livro nos abre as portas e as janelas de outros mundos; que um livro é uma forma de viajar sem se sair do sítio!  

Esta gente só traz o gato na bagagem de mão?!

É evidente que este povo concorda com a tonta que disse que um livro produz multidões.

É óbvia a utilidade de um livro em alto-mar. Lembremo-nos de Camões que só não morreu afogado por causa da papelada. Seria bom que recordássemos os nossos heróis nestas ocasiões.

 

A Gaffe está cansada de bater com a colherinha no cristal para se fazer ouvir.

A maldição das raparigas espertas é que tendo a solução, são demasiado discretas e reservadas para a alardear.

 

- É necessário que se deixe de ver séries americanas sinistras e assustadoras, com um guarda-roupa miserável e maquilhador incompetente.

Os refugiados não são os Walking Dead. Vestem-se tão mal como eles, assume-se, mas alguns parecem estar vivos e, por muito que suspeitemos, não nos querem todos trincar o cérebro, até porque este vício tão inconveniente é dos protagonistas das campanhas eleitorais, dos responsáveis pela programação das televisões e da Teresa Guilherme.

 

- É preciso que esta gente se concentre toda em Portugal – os que trazem aqueles tapetes lindos de morre, podem ficar nos jardins da Gaffe. Esta rapariga já espalhou sal na porta de entrada e portanto não há qualquer risco de contaminação ou ataque. Matou os gladíolos, mas não se pode ter tudo.    

Dispersam-se pelos recintos onde se realizam os festivais de Verão, já habituados ao lixo que fica, e pela herdade da Comporta, já acostumada a Ricardo Salgado. Num curtíssimo espaço de tempo – uma legislatura - tê-los-emos todos a emigrar de forma ordeira e através do sistema de tranche mensal, constante e certinha.

 

A derradeira solução é a adopção.

A Gaffe já decidiu que vai esperar que a multidão chegue a Portugal para seleccionar o que mais lhe convém.

Há com certeza pelo menos uma dúzia de rapagões lindos de se cair para o lado - fica sempre bem mostrarmos um movimento de solidariedade -, com mais de dezoito anos, ainda dentro do prazo de validade, em bom estado de conservação, facílimos de separar da família e sem o gato. Se os não conseguirmos encontrar porque sentimos que nos perdemos quando percebemos que aquelas confusões são mais que as mães – que também acampam -, podemos sempre pedir a colaboração e a experiência de Margarida Rebelo Pinto. Só temos que os fazer continuar a acreditar que todas as europeias são capa de revista e ala, que se faz tarde! - uma expressão que fica lindamente neste contexto.

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