Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe passageira

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.15

Gare.jpg

É curioso como somos todos, de alguma forma, migrantes, passageiros breves em gares abandonadas à espera dos destinos.

As nossas vidas são de ferro e de lama e têm um relógio redondo sem ponteiros e painéis de papel amarrotado onde procuramos as linhas sem nunca percebermos que não há horas e que não há regras nem carris.

Sentimos que são outros que viajam por nós. Nós ficamos. Nunca viajamos por eles.

De tanto impedir que nos quebrem os destinos, que nos desfaçam as rotas ou que nos estilhacem as bússolas, deixamos que essas tarefas sejam por nós, e só por nós, cumpridas.

Acreditamos que todas as paisagens que passariam, se viajássemos, são as nossas. Olhamos os papéis amarrotados e consultamos as horas e usamos os dedos para apontar lugares onde queremos chegar. Nunca chegamos a chegar.

 

As nossas vidas partem sempre antes do embarque.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe melodiosa

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.15

sabonete.jpgAcordo com a perna do rapagão pousada sobre as minhas pernas, um braço ensarilhado no meu braço e a cabeça voltada para mim, que adormeci de bruços.  

Vejo-o respirar. Conto-lhe as pestanas no silêncio do espanto de o ter de forma tão absoluta e é na súbita consciência de que o tenho que a tristeza cresce como a chuva.

 

Ter como definitivo seja o que for, é como viajar sozinho quando chove. Morre-se um pouco.

 

Estes amanheceres poéticos duram o tempo de retirar o embondeiro que tombou sobre as minhas pernas e escapar sorrateiramente para o chuveiro onde, por norma, medito sabiamente nas agruras e nos prazeres da vida, enquanto me mantenho fidelíssima ao velho sabonete português redescoberto pelas mais recentes estrelas de cinema.

Embora, diga-se em abono da verdade, sempre tenha considerado perigosas as superfícies escorregadias do ambiente esmaltado, não resisto à molhada sensação de desprendimento ao ter este miminho a deslizar no corpo, unido ao tépido contacto de dedos a borbulhar espuma.

 

Sei que é agradável partilhar o chuveiro com alguém que goste de ensaboar a partilha e reconheço que há muito poucas coisas que me agradem tanto como saber do fácil que é escorregar no banho, sabendo que me posso agarrar a mais do que à torneira, mas as minhas matinais meditações requerem uma pluviosa solidão.

 

Hoje, de repente, meio destas minhas purificações, tive o som de Sinatra espalhado pelo chão e um homem quase nu, com o cheiro da manhã que rasga janelas, bamboleando o corpo, de sorriso dentro dos olhos fechados:

 

For once in my life 
I have someone who needs me 
Someone I've needed so long 
For once unafraid 
I can go where life leads me 
And somehow I know I'll be strong 
For once I can touch 
What my heart used to dream of 
Long before I knew 
Someone warm like you 
Could make my dream come true 
For once in my life 
I won't let sorrow hurt me 
Not like it's hurt me before 
For once I've got someone 
I know won't desert me 
I'm not alone anymore 
For once I can say 
This is mine, you can't take it 
As long as I've got love 
I know I can make it 
For once in my life 
I've got someone who needs me

 

Descubro que as melodias que desato a amar são aquelas que são cantadas por os que me povoam a vida. Nenhuma, absolutamente nenhuma, poderá tocar-me sem primeiro ter pairado e tocado na alma daqueles que me cantam no peito.

 

Não sou Música. Não a sei ouvir como merece, mas sei gostar com tamanha força que mesmo a canção que vejo tem de ser a alma de alguém para que eu a consiga trautear.

 

E trauteio desta vez Sinatra, no chuveiro.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD