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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e as “coisas de rapazes”

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.15

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Por motivos alheios à minha vontade, tive de dormir no apartamento de solteiro do meu irmão.

O rapaz retornou ao T1 - que resultou da fusão com um T2, por vontade sua e obra projectada pela mana mais velha, após ambos terem ignorado a minha sugestão de se comprar logo um T3 -, pouco tempo depois do fim da sua longa ligação com uma norueguesa mal disposta.

O resultado obtido, tendo em conta que os espaços originais estavam longe de ser cubículos, foi uma enorme e belíssima área luminosa dividida em espaços harmoniosos que podem albergar funções díspares sem interferirem, dominarem ou se anularem mutuamente. Dei o bracinho a torcer

 

O quarto tem uma cama de solteiro, réstia de um passado cujos pormenores escolho não saber, que me foi amavelmente cedida pelo rapaz com uma alegria precipitada. Dormiria ele no sofá com a abnegação dos puros.

 

Uma da manhã:

O sofá tem pó. Ele é alérgico!

- A minha asma, sabes? - Levanta-se de t-shirt e boxers a avisar-me. Não sabia.

Puxa o colchão escondido na caixa da cama onde bocejo.

- Boa noite, maninha.

 

Meia hora depois:

A almofada! Não dorme sem uma almofada enfiada entre os joelhos e eu tenho a preferida. Arrepio-me quando percebo que a minha cabeça está onde o rapaz costuma pousar as pernas. Não sei para onde aquela porcaria resvala.

Dou-lha.

 

Três quartos de hora depois:

- Tens o despertador ligado para que horas? É que tenho de sair às seis da manhã. Tenho medo de não chegar a tempo ao aeroporto.

O avião é ao meio-dia.

 

Uma hora depois:

- Estás a dormir? Se não conseguires dormir com a luz das janelas, eu corro as persianas.

Levanta-se e corre as persianas.

 

Uma hora e meia depois:

Não consegue dormir naquele colchão. Fica com cócegas.

Ofereço-lhe um lugar ao meu lado. Enfia-se como pode e tenho um monstro de quase dois metros esbardalhado naquele espaço mínimo e começo a temer ser transformada em almofada entre os seus joelhos.

 

Duas horas depois:

Tem calor!

Não! Não pode despir os boxers.

Francamente!

Quero lá saber que a ideia tenha surgido a brincar.

 

Duas horas e meia depois:

- Será que meteu tudo na mala? É que não se pode esquecer dos dois dossiers azuis.

Vai verificar.

 

Duas horas e quarenta minutos depois:

Avisa-me que sim. Tinha os dossiers na mala, mas prefere levá-los na pasta.

- Não viste a minha pasta por aí?

Não. A pasta não estava na cama comigo.

 

Duas horas e cinquenta minutos depois:

Talvez a pasta tenha ficado em casa da avó! Será aborrecido telefonar a verificar? Gosta tanto daquela pasta! Dá-lhe sorte. Não pode sequer suportar a hipótese de a ver perdida.

É escandaloso. Não vai telefonar a ninguém àquela hora. Se tentar, apanha o avião, mas já cadáver.

 

Três horas depois:

Lembra-se onde tem a pasta! Está entre a parede e a cama onde tento controlar os impulsos assassinos. Suplica-me que a resgate. Aceito se ele me der o Buda em marfim, esgotado e antigo como as horas, que me sorri desde a infância.

 

Três horas e quinze minutos depois:

Arrasta a cama e retira a pasta que tinha tombado só Deus sabe em que circunstâncias.

Corro para o sofá e ameaço-o com o bonacheirão de marfim. Haverá sangue se o rapaz não adormecer de imediato.

 

Três horas e trinta e cinco minutos depois:

O rapaz ressona. Estou mesmo ao lado dos motores do avião que levou a norueguesa para longe deste cataclismo.

 

Quando as minhas queridas me voltarem a dizer que as coisas de rapazes se resumem ao abrir das pernas quase em espargata quando se sentam nos sofás a ver futebol, a beber cerveja, a insultar as coisas que correm atrás da bola e a andar por todo o lado de carcela aberta, eu entrego-lhes o meu irmão para adopção.

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A Gaffe e um triunvirato

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.15

Iekeliene Stange by Serge Leblon.jpg

Quando a minha quarentona favorita me desafia, não consigo negar, sobretudo quando sei que não é extensa a provocação. Os deuses também estão na brevidade das perguntas e na dificuldade das respostas.

Vamos então completar o triunvirato.

 

QUERO - muito, muito, muito, quando for grande, ouvir dizer que me pareço com Kristin Scott Thomas no momento em que protagonizou O Paciente Inglês. Em alternativa, não me importo de tratar o Ralph Fiennes dessa mesma época.

 

POSSO - fazer de uma feijoada servida no meio do vinhedo do Douro ao som de um rancho folclórico, com anedotas já tontas de vinho e gargalhadas suadas e muito pouco discretas, um pequeno-almoço inglês presidido por kristin Scott Thomas, mas jamais deixarei o meu prato vazio.

 

MANDO - que tudo se cale quando ouço - e ouço demasiadas vezes! - o meu musical favorito O Fantasma da Ópera de Andrew Lloyd Webber, sobretudo quando soa Angel of Music ou Think of Me. Morro um bocadinho na lagrimazita que se escapa sempre. Um dia hei-de ser Christine!

 

Na foto - Iekeliene Stange por Serge Leblon

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