Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no Halloween

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.15

halloween.jpg

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe na tomada de posse

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.15

espargata.jpg

A Gaffe está ansiosa por ouvir o discurso do senhor Presidente na tomada de posse de uns senhores que vão ter de assinar o compromisso de honra à velocidade de um foguete de modo a haja tempo de a finalizar, antes de estourar.

 

Esta mórbida expectativa está ligada, não à vontade de se deslumbrar com uma obra-prima da taxidermia, mas sobretudo porque se quer voltar a pasmar com o senhor Presidente que não sendo Pontífice, insiste na espargata, teimando em ser o grande construtor de pontes entre uma margem demasiado à direita e a outra demasiado à esquerda.

 

O centro é ocupado pelas miudezas do senhor Presidente em espargata, ou seja, o centro está vazio.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe devota

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.15

Joshua LaRock.jpg

Ao contrário da MJ, a Gaffe considera que existem santinhos que vale a pena partilhar.

Perante estas preciosidades, contemplemos a luz e, se for possível - e a senhora sua mãe ainda não tiver descido da oliveira -, ajoelhemo-nos, prostremo-nos, peçamos o espargir da sua bênção.

 

Não é necessário que depois nos acompanhe. Uma rapariga esperta sabe como sair sozinha.  

 

Imagem - Joshua LaRock

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe de todos os nomes

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.15

o teu nome.jpgO nome dos outros em mim como tatuadas gentilezas. Na minha alma nua a morrer de frio consigo ler o nome dos outros a pena escritos ou desenhados ténues ou indeléveis brotando da macia superfície. Como se a cada nome fosse entregue um espaço meu, da minha alma nua que treme precipitada pelo frio. Como se a minha memória fosse este lugar despido e nada mais houvesse a não ser o risco que cada nome na minha alma nua faz, florindo a pele.

 

De todos os nomes na minha alma fria aquele que eu consumo, gasto, esbato, diminuo, adoço e esmaeço, tem a cor do afago e no lado esquerdo de todos os sentidos, o teu nome, avô, vai devagar pousar no coração.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe indigitada

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.15

Bruno Haberzettl.png

A Gaffe está contentíssima por saber que já existe um governo para Portugal e a felicidade aumenta ao reconhecer que o senhor Presidente conseguiu impedir que a ex-União Soviética dominasse finalmente este pequeno pedaço de terra sempre destemido.

 

É evidente que Portugal fica sem cenários para John le Carré e sem panorâmicas que sirvam a 007, mas em contrapartida temos de reconhecer que o país ruma à terra da Liberdade - basta reparar no penteado do novo Ministro da Saúde que segue a linha capilar de Donald Trump -, sem esquecer as suas tradições mais monárquicas que fazem com que se ouça repetir nos corredores do poder agora indigitado:

 

Mais vale rainha por um dia do que duquesa toda a vida.

 

Ilustração- Bruno Haberzettl

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe sem burka

rabiscado pela Gaffe, em 27.10.15

tansos.jpg

Está comprovado. Conheço homens que são uns tansos.

Não abdico desta norma que me chega de um saber feito de experiência e comprovada pela observação científica do pateta que tenho ao lado que acaba de afirmar, cheio de convicção, que se todas as mulheres fossem sexualmente mais agressivas, ninguém lhes conseguiria enfiar uma burka.

Uma tolice!

Não imagina o pobre como é eficaz um ataque sexual desferido por uma rapariga esperta embrulhada e coberta, por exemplo, por uma toga romana com abertura dificultada pelas mil dobras aveludadas do tecido.

A burka é apenas uma agressão. De sexual tem somente o olhar dos tansos.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe traída

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.15

A Gaffe traída.jpg

Haverá vida depois de uma traição?

A questão não é trivial, básica ou mesmo inconclusiva. Atinge uma enorme quantidade de gente que se vê de súbito sem chão e sem tecto, suspensa da surpresa de se sentir o outro ou a outra quando sempre acreditou que era a origem e o fim de todas as emoções que povoavam o coração que agora se descobre ser infiel.

Não é fácil lidarmos com o facto de percebermos que a metamorfose que se opera em nós é o inverso da das borboletas. De um fabuloso insecto alado e colorido, embainhamos a alma e passamos ao estado de casulo. Mas não é impossível enfrentarmos o facto de, nesse casulo, a membrana que nos separa do exterior correr risco de ruptura, perfurada pelos aguçados chifres mafarricos que ostentamos na testa metafórica.

 

É evidente que a Gaffe já foi traída. Na altura, ficou afásica e posteriormente catatónica. Recolheu-se na cela da sua mais profunda desilusão e decidiu que jamais voltaria a acreditar em quem quer que fosse, sobretudo se o quem quer que fosse tivesse barba e outros atributos mais esconsos, dignos de fazer perder a transmontana a uma rapariga mais incauta.

Neste estado, acabou por evitar a todo o custo aproximações mais ou menos subtis de promessas interessantes e credíveis.

Voltar a acreditar é como beber um café que ficou frio. Jamais terá o sabor do Expresso acabado de servir, mesmo que esse Expresso seja o da meia-noite. Ficamos sempre com a sensação de que nele foi cometido um crime e que o cadáver se transformou em borra no fundo da chávena.     

 

Sair deste estado de letargia emocional leva algum tempo, mas há sintomas de progressos que não devemos ignorar e que não passam pelas tradicionais fases descritas nos manuais da especialidade.

A Gaffe detectou que começar a observar com algum gelo o exterior da rival é um belíssimo sintoma. Se o interior da dita fosse objecto da sua atenção, significaria que a procissão ainda estaria no adro e o sacristão sem badalo.

A capacidade de olharmos os detalhes e os pormenores mais imbecis de quem foi causa directa da nossa perda é caminho feito para a consumação do fim da mágoa de nos sentirmos traídas. Se Deus está nos pormenores, a indiferença também. Talvez por isso tenhamos a sensação que as duas entidades muitas vezes se confundem.  

A Gaffe se vê passar a rapariga por quem foi trocada, não entra em coma, não vai desenfreada lacrimejar para uma esquina da vida, nem sequer lhe salta à memória os momentos de enlevo romântico que o traidor lhe entregou um dia.

A Gaffe olha para a carteira da ladra e pensa que preferia usar um saco de colostomia e descobre de imediato que é apenas no amor que é permitido roubar.

 

A Gaffe foi traída num passado longínquo, gelado entretanto.

 

A fidelidade da maioria de nós tem raiz no medo. Somos muitas vezes fiéis por cobardia. 

 

A Gaffe sorri, traída há muito tempo, e faz esvoaçar caracóis ruivos.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe num reencontro

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.15

casa.jpg

Uma nuvem tinha-se estilhaçado no chão, alguns minutos antes, e a luz torna as pedras platinadas e adensa a cor das árvores.

 

O carro entrou pelo portão secundário, camuflado. O único que acede ao átrio principal já que o primeiro, de ferro e rendilhado, foi bloqueado e não permite a entrada do ronco de motores.

A minha irmã, vertiginoso abismo de impaciência, estica as pernas longas e de vidro. Pousa nas lajes a dormência e o simulado cansaço dos Prada de verniz nocturno e avança sem evitar as gotas pesadas que tombam dos ramos dos teixos e lhe mancham a seda Cerruti do casaco.

A minha irmã não obedece ao tempo. Ignora-o.

Procuro a mão da minha avó. A senhora oferece-ma para que a ajude a rever o amigo, no cimo das escadas.

De cabelo branco e ondulado, e tailleur azul, daquela cor marítima dos olhos que afunda os barcos ou os atira contra o canto das sereias.

A minha avó sorri e espera. A sua mão presa na minha. O meu gigante que a senhora espera, vem alongando o passo ao nosso encontro e tudo se reduz no seu caminho.

 

A minha avó fecha os olhos. A mão na minha mão aperta.

 

- Os olhos dele! Como estão sós agora, os olhos dele! – Diz-me em surdina.

 

O meu gigante beija-lhe a mão solta e nunca aquele gesto foi tão fácil, porque tão perfeito.

A senhora liberta a mão que eu agarrava e pousa-a na barba escura de corvos do meu Amigo.

 

- Ah! Já como o reconheço agora, meu caro! Perdemo-nos os dois num lugar longínquo.

 

O homem gigante sorri. Fica perplexo.

 

- Os seus olhos, meu caro. Cruzei-me há muito tempo com o seu olhar, num tempo de navalhas e de perdas. A vida já olhou para mim com os seus olhos.

- Talvez por isso, Senhora, eu tenha reconhecido o seu perfume.

 

A nuvem, estilhaçada no chão, faz de platina as pedras.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe mais dez condenados

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.15

 

Agarrem-se, meninas!

 

A Gaffe decidiu enumerar dez tipos de homem que cedo ou tarde vão destroçar todos os nossos sonhos mais românticos.

De aparente inoquidade e fácil controlo, estes rapagões são explosivos colocados nos nossos corações, prontos a detonar a qualquer momento. Perante as ruínas que deixam acabamos a acreditar que a Duquesa de Alba é – ainda - uma possível candidata a Miss Universo. Os cacos que ficam são piores e não há cirurgião plástico que acuda às cicatrizes que nos deixam como recordações.  

 

A ordem é aleatória, porque a perigosidade é semelhante.

Meninas, agarrem nas armaduras ou nos camuflados, enfiem-se em tanques, submarinos, aviões e Jaguares, puxem das munições e saquem de armas brancas. Se nada disso encontrarem, usam as vossas pernas e os vossos jogos de cintura, valha-vos Deus!

 

Que a batalha comece:

O Confuso

o confuso.jpg

Não confundir com Confúcio – rapaz que não oferece risco. De uma inocência quase infantil, este rapagão é capaz de nos enganar nas mais pequenas coisas. Descobrimos que também nos mente nas maiores. Normalmente encontramo-lo nos lugares onde descobrimos a nossa lingerie desaparecida. Percebemos então, já vergadas pela dor, que lhe fica melhor a ele do que a nós.  

 

O Deprimido

o deprimido.jpg

Rapaz com saudades da mãe que sempre lhe deu colo. Por norma inspira cuidados e chupeta, favorecendo o aparecimento da enfermeira que temos dentro e que não é propriamente aquela que desperta fantasias com um ligeiro travo erótico. As meias brancas são sintoma da maleita e se nos aparecer sempre de cuecas, o caso é de fácil diagnóstico. Os grandes deprimidos deixam-nas nos nossos corações, normalmente já usadas.

 

O Fantasioso

o fantasioso.jpg

Faz-nos acreditar que somos princesas encantadas. Esquecemos depressa que se assim o pensam é apenas por narcisismo. Não admitem ter um caso externo aos seus círculos nobiliárquicos, embora pouco reais. Usam e abusam das nossas fantasias em proveito próprio, fazendo com que acreditemos que somo nós que os manipulamos ou que assim quisemos.

Encontram-se facilmente na Disney a fazer de príncipes.  

 

O Religioso

o religioso.jpg

Este tipo de rapagão é useiro e vezeiro em nos fazer acreditar que somos míseras pecadoras perante a luminosidade impoluta da preclara rectidão da sua vida. o pecado mora sempre do outro lado da cama, aquele onde nos deitamos. Ao contrário do que seria de esperar, somos sempre nós que acabamos a rezar.

 

O Queixinhas

o queixinhas.jpg

Tem doi-dói em todo o lado e choraminga. Nada cura a sua dorzinha de cabeça. A canja de galinha, ninguém a faz tão bem como a mamã e o supositório faz arder o mimoso rabinho agasalhado. Ideal para, nos dias mais febris, ser tratado pela mãe que, segundo diz, coze a porcaria da bicha melhor do que ninguém. Não nos deixa ligaduras quando se recompõe para ajudar a sarar o nosso coração ferido.

 

O Desleixado

o descuidado.jpg

Facilmente se confunde com o distraído ou com o descuidado, mas este caso entra directo no domínio da patologia.

Não só perde a noção das horas e do espaço, ou do que traz vestido, como também da nossa existência. Não é por idiotice que não repara que viemos do cabeleireiro e não é por indiferença que ignora a novíssima Louis Vuitton que trazemos no braço. É apenas porque estão a passar desenhos animados na TV e o rapaz não é capaz de se focar em mais do que em metade de uma coisa. Vai desconhecer que nos destroçou o coração, apenas porque nunca soube que ele existia.

 

O Limpinho

o trabalhador.jpg

Obcecado. Fanático. Obstinado. A limpeza é um Universo a descobrir de luvas de borracha. Odeia partículas de pó, mesmo as que o primo sacana fornece às escondidas. Passa horas de esfregona em punho e detergente ao lado a desinfectar a vida e a polir o tempo. Tão ocupado anda em tais limpezas que se esquece que no cérebro tem teias de aranha. Costuma deixar-nos, no entanto, o lixo à porta.

 

O Sacana

o sacana.jpg

Como o nome indica, normalmente saca as Anas, mas não exclui as outras. Todas são areia para o seu camião. Uma espécie de predador dos subúrbios do cavalheirismo, acredita que uma mulher é sempre manipulável se for usado o seu desprendimento de quem sabe e de quem já viveu muito. Por experiência nossa, morre cedo.

  

O Mecânico

o motoqueiro.jpg

Nunca está connosco. Dorme e sonha com motos, carros, barcos e toda a parafernália que inclua parafusos e porcas, macacos e feros de soldar. Mesmo nuas corremos o risco de nos confundir com a motorizada do amigo que acaba por nos apetecer experimentar. Ao contrário do que se pensa, nem sempre têm coisas grandes no meio das pernas. Às vezes andam de triciclo. Quando escapam, deixam-nos sempre um cheiro a óleo queimado.

 

O Morto

o morto.jpg

Por motivos óbvios.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe à boleia

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.15

boleia.jpg

A forma mais eficaz de se pedir boleia é também a mais propensa a constipações.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe violenta

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.15

A Gaffe violenta.jpg

Sempre senti uma enorme atracção por sangue.

Folhas manchadas que cortaram dedos; lâminas sujas, maculadas, que lanharam o rosto ao barbear; lenços brancos que serviram de tapume a pequenos golpes sofridos à toa.

Não chego a tocar nas manchas vermelhas, mas despertam-me a atenção de modo quase obsessivo. Fico varada a observar o esbater da nódoa, as zonas onde a cor se atenua, a esmaecida fronteira que inicia o corromper do límpido. Deslumbro-me com a magnitude do encarnado e assombro-me se adivinho a origem, o golpe, o lanho, a carne onde o fio frio da agressão se liquefaz externo.

Se me corto, levo à boca o sangue e atento no sabor que dele chega. Não o defino, não o aproximo de nenhum outro que tenha experimentado. Roço a língua pelo golpe e sorvo e chupo e deixo que aquele sentir vagamente metálico me arrepie e é então que descubro a violência bruta das arenas e o apelo incontrolável do assassino, como se da memória mais profunda, mais secreta e obscura, me assaltasse o instinto do que sou.

 

E gosto. Sabe a vermelho.

 

Em todas as almas há um lugar sombrio.
De crime.
Podemos não o cometer, mas sabemos que num instante, passado ou futuro, o desejamos.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe embruxada

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.15

Halloween.jpg

Será esta a única vez que a Gaffe se refere ao Halloween. Não porque não simpatize com a data, mas porque o tema está seguramente exaurido, apesar de, convenhamos, sempre ter sido uma comemoração que a implicou, custe o que custar às egoístas e invejosas defensoras deste festejo.

 

O Halloween foi e sempre será ruivo!

 

É difícil ser-se singular em relação a um tema que se torna viral. As tontices repetem-se de canto para canto e passamos de uma esquina onde se esbardalha uma bruxa para tombarmos noutra repleta de gatos pretos ou abóboras e não adianta muito reportarmo-nos às raízes do tema, porque ainda mais maçadores nos tornamos.

 

Esta incapacidade de tratar por escrito determinado assunto, por estranho que pareça, tem solução.

 

Ao contrário do que é heróico declarar, depositando na ara do mais elevado despojamento de alma o cordeiro do nosso sofrimento interior, a escrita é um processo susceptível de aprendizagem.

 

A escrita não é intrínseca a nós. Não é um código genético. Não nasce connosco. Aprende-se a escrever bem depois de termos aprendido a desenhar as letras doando-lhes sentido. Não incapacita o prazer, elevando a dor profunda ao pedestal do inevitável e é suspeito quem afirma que deixa de respirar se passar um dia sem a dor do parto da escrita.

A Gaffe sempre considerou disparatado o que afiança que sofre horrores todos os instantes com as palavras que abrem chagas nos dedos, descendo e rompendo o peito em ferida aberta, à procura do papel. Transformam escrever num episódio de prisão de ventre. Mesmo os masoquistas sofrem menos. 

É balela. Se estes defensores da autoflagelação deixarem de escrever, não acontece absolutamente nada.

 

A Gaffe sempre pensou que o processo de escrita é um jogo de ligações executado numa oficina de trabalho árduo. As regras aprendem-se, memorizam-se, entranham-se, cumprem-se ou violam-se - para as desrespeitar é preciso que as conheçamos em profundidade -, exigindo depois um esforço hercúleo, que não implica por obrigação a presença da tortura, se tivermos a veleidade ou a ambição de produzirmos, pelo menos, qualquer coisinha parecida com um texto literariamente aceitável.   

 

A Gaffe sempre considerou uma tontice os Cursos de Escrita Criativa, até perceber que um dos seus queridos petizes, filho de um dos seus casais favoritos, tem um professor de Português que é simultaneamente formador neste tipo de actividade que é, assume-se, condenada mesmo por quem se move com perícia nestes meandros.

 

Curiosa, a Gaffe decidiu investigar.

 

As atitudes pedagógicas que subjazem à escrita criativa vocacionada para a faixa etária mais próxima do chão, parecem lógicas, eficazes, muitíssimo produtivas e sobretudo facilitadoras do processo que permite o surgir de um texto inovador, original e bem estruturado.

Não produzirá, é provável, génios da literatura, mas, para além de cultivar a capacidade crítica do menino/leitor, pelo menos dificulta muito o aparecimento de burgessos que acreditam piamente que se o mundo ignora a papelada que preenche com rabiscos é apenas por cegueira e humana iliteracia.

O recurso, por exemplo, a jogos ardilosos, como o Baú das Palavras - onde a criança recolhe substantivos à toa para com eles ter de formar frases completas -, o Jogo do Lenhador - que obriga ao corte de palavras numa frase demasiado longa, sem que o sentido se perca -, ou O Elo Mais Forte - que faz com que se procure a frase que ligará duas outras díspares e muitas vezes contraditórias -, permite que a criança se inicie com prazer e de modo lúdico na extraordinária vastidão da escrita.

 

Como será evidente, os expedientes são inúmeros e nada melhor do que assistir a uma aula para deles nos aproximarmos. É bom que se passe a ouvir com maior cuidado a famigerada frase não negues à partida uma ciência que desconheces.

 

A infância da Gaffe não teve aulas de escrita criativa e lamenta o facto. Se as tivesse tido não hesitaria agora em escrever sobre o Halloween, convicta da sua capacidade de não referir bruxas e gatos.

 

Assim, abóbora!        

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de colchete

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.15

Marcus Mueller.jpgSabemos que nunca devemos confiar num homem que nos desaperta o soutien logo à primeira tentativa.

A primeira vez, de tudo, é sempre um risco e nem sempre é de boa qualidade o que nos fica na memória.

Tenho uma amiga - tomemo-la como exemplo - cuja primeira vez foi tão traumática que decidiu nunca mais perder a virgindade. O assunto foi arrumado na prateleira e vive feliz desde então, embora as relações que enceta sejam de curta duração, porque quando ela faz amor, o namorado exige estar presente. É curioso constatar que esta rapariga, que se afasta consideravelmente do viver rotineiro das multidões, confessa que sente sempre algum pudor em assumir posições ousadas - estou a folhear o Kama-Sutra - com o homem que partilha na altura a sua vida e a sua cama. Segundo o que confessa, é por essa razão que o deixa sair para o trabalho e chama pelo vizinho. O pecado mora sempre ao lado.

É esta minha amiga que me previne: Não se pode confiar num homem que nos desaperta o soutien logo na primeira tentativa.

A verdade é uma e ela tem razão. Um soutien que se preze tem de ter uma fechadura à prova de dedos alheios. Tem de ser um enigma, um desafio e tem de provar que o rapazola que nos chega às costas, aos colchetes e às molas é de uma pureza virginal digna de nos ver as mamocas. Quando um homem nos cumprimenta estendendo a mão ou cavalheirescamente nos vem beijar os dedos e nós percebemos que subitamente nos saltou do peito, não o coração, mas o soutien, não merece crédito, embora mereça que nos salte o resto.

Temos que escolher. Não é propriamente uma escolha de Sofia, mas é sempre um dilema que nos constrange um pouco. Ficamos com um bronco inocente que nos trilha as costas ou com um manhoso experiente que nos trilha a vida.

 

Podemos, é claro, optar pela terceira via, a mais atractiva: ficarmos com os dois e deixar que processo de ensino/aprendizagem se faça sob a nossa auditoria.

 

Foto - Marcus Mueller

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe viajante

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.15

24.jpgWhat a wonderful world!

mais! )

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe dentífrica

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.15

animatógrafo.jpg

Não é de todo necessário que os homens masquem uma pastilha de mentol antes de beijar. Pode não parecer, mas não é assim tão refrescante sentirmos a brisa fresca das montanhas da Suiça contra os dentes, não é convidativo ouvirmos a Julie Andrews a cantar umas tolices pela nossa garganta abaixo e é constrangedor sentirmos a Heidi debaixo da língua.

Escovar os dentes resulta.

Depois, apesar de todas nós sabermos que só os vegetarianos conseguem ter na boca a frescura de uma horta orvalhada ou no mínimo de uma salada minimal, nunca uma rapariga permanecerá por muito tempo no palato de um homem que lhe lembra a dieta.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/3






  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD