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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe eleitora

rabiscado pela Gaffe, em 05.10.15

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A Gaffe considera que a extinção do cinco de Outubro como feriado nacional, não é de todo insensata. Comemorar a implantação da República num país intrinsecamente monárquico não faz qualquer sentido.  

Esta profundíssima conclusão coroou o momento em que a Gaffe se preparava para votar, às quatro da tarde, quando vota a abstenção, depois de ter percebido que as horas de ponta nas urnas são exactamente aquelas em que toda a gente pensa que tudo está vazio – o início da manhã e a hora do almoço.

 

Solto o seu perfume nos corredores que a levariam a secção 4, a Gaffe encontrou gente que não via há imenso tempo.

Os queridos que mais a alegraram ver foram sem dúvida o pobrezinho muito velho que desapareceu da rua onde esmolava, porque deixou de ter forças e saúde para disputar o caixote do lixo, agora dominado por um grupo de mulheres destravadas e muito mal-educadas que não controlam as crianças que gritam num desenfreado sujo, que se penduram nas traseiras dos autocarros e que roubam imenso os turistas; a D. Amélia, reformada dos Correios - como teima em dizer, a pobre -, que perdeu os três netos que deixaram de a amparar nesta hora democrática, emigrados, um em Angola, outro nas limpezas alemãs e o mais novo enfermeiro em Londres e que - a Gaffe fica chocada! -, decidiu pintar a raiz do cabelo de branco e o Chico-diabético que nunca conseguiu manter um emprego por falta de tino e de pão, dono de uma rebeldia que se tornava bandeira da frente da resistência revolucionária, pronta a defender os trabalhadores, mesmo os sem salário. Uns doces de pessoas.  

 

Achou-os tão velhos e depauperados! O tempo é implacável. Somos todos pó, não é? Vamos todos caminhando para o mesmo, não vale a pena incomodar ninguém. Há apenas que tentar estar de pérolas ao pescoço quando a morte nos igualar a todos. A Gaffe ainda há pouquíssimo tempo via e ouvia esta gente, que não traz um cêntimo no bolso para pagar o autocarro e mesmo assim chega, com a casa num saco e pé na chanata, para cumprir o seu dever cívico, a barafustar e a espernear, imbuídos do fervor das convicções, bradando contra os que os tratam como número - e acabamos todos por ser um número na campa que nos espera, não esqueçamos -, cravando os dentes no governo e nas côdeas que guardam durante meses, passando fome, mas com medo que quando a fome chegar já terem comido na véspera aquele pão, e agora aquilo!

Restam uns trapitos fiéis à tradição, prontos a perder cincos de Outubros e, como sempre, a manter no trono quem lá está.

 

A coragem desta gente é admirável.

 

Ilustração - G. Haderer

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