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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe desistente

rabiscado pela Gaffe, em 06.10.15

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Lembro-me do carro curvar no átrio de pedra de uma manhã a tiritar de frio.

Tinha escolhido – como o tempo passa! -, ficar neste país sem esperar nada a não ser ouvir a explicação do silêncio. A omissão inexplicável que provocou um derrame surdo e doloroso no meu peito, era eu menina.

 

- Não fiques parada, por favor. Já foi uma maçada não teres dito uma palavra durante a viagem.

 

Mas eu fiquei parada a olhar o modo como olho agora o que começo a entender.

Durante todo este tempo de interregno, um tempo de vinhedos sem destino ou marca, esperei quieta e obediente que dentro de mim se rasgasse uma janela que perdoasse a cega que sou quase consciente da inutilidade dos meus olhos. Durante o tempo de vinhedos não fiz perguntas a não ser por dentro, sem nunca me esquecer por um instante que a alma não responde ao ritmo do bater do coração da dúvida.

 

Durante todos estes anos tive saudades do perfume de Paris.

Aqui, dói-me o perfume sobre as coisas todas e tenho medo da luz da manhã de frio em que cheguei e de não saber que tempo foi o que passou.

As minhas horas arrastam-se agora como se fossem a cauda de um vestido. De um vestido escuro de veludo com vidrilhos que senhoras velhas de travessas nos cabelos e rendas de colares, usam para ouvir sonatas ao piano, reclinadas nos cetins das almofadas.

Aqui tenho medo, quando fico só, de todos os fantasmas que há nas pedras e sei que se não fujo acabo por ser delas, como lhes pertence o dia há muito tempo.

 

O Douro, pese a grandeza, é como o mais insuspeito canto de Paris. O lugar macabro junto ao Louvre, onde entre Junho e Julho, no ano da Graça de 1794, foram decapitadas as mulheres de estirpe rara, de rendas humilhadas e brocados rotos, arrastados. Apertado, estreito, inesperado, a ele se acede por escadas breves e tacanhas. Um fosso, um poço, quase uma valeta funda, uma goela negra, com grades em redor e cadeado. Ao fundo, no quadrado exíguo feito em pedra, ao centro, a pedra onde pousaram as cabeças.

Despidos os jardins do Louvre e de Versailles, do Douro e dos socalcos, a Morte desce então escadarias e no fundo mais fundo, ensaia minuetes, vestida de veludos e de gritos, empoada e farta, anafada e suja.

 

E nada mais.

 

Adoeço aqui, porque é enfermo este lugar de Outono que é mais sinistro ainda, aqui, neste lugar, no Douro. Ainda há mais frio. Há vento e chuva e pedras a cair, frestas e trepadeiras negras. Allan Poe a divagar pelos jardins desertos e as desgrenhadas, as enfurecidas árvores, sempre atentas, espreitam retorcidas, encurvadas, a bater com os dedos nos vidros das janelas, à espera do meu corpo para o fazer raiz. À espera, sempre à espera, como esperaram pacientes pelos outros.

 

Aqui, neste país, tudo é longínquo e é sempre tempo de viver depois. O meu país adoece no gotejar do tempo e a indiferença que invade enlouquecida este lugar abate a minha resistência. 

Esta é o sonâmbulo desapego que pesa sobre mim.

Agora olho o meu país e percebo o modo como se fechou cobrindo o povo. Um imenso cão que de sede lambe o mar.


Já não quero mais ficar aqui.

Escolho o mais insuspeito canto de Paris e dentro de mim há vento nos vinhedos. Paris é o meu lugar, o sítio onde pertenço e a minha vida inteira.
Quero voltar às escadas de pedra, ao buraco minúsculo e macabro, fechado por grades e correntes que me parecem húmidas, eternas, e onde durante o Terror – Le Grand Peur – foram decapitados dezenas de nobres. É igual ao Douro que me vê partir.

 

Procuro na memória as mais pequenas ruas de Paris onde não tinha medo, onde ouvia o acordeão das valsas à mille temps, onde o gradeamento de ferro forjado das janelas claras deixava espreitar as sardinheiras espanholas cor de sangue que brotavam em novelos, onde descia o passeio para deixar passar senhoras de sorrisos nebulosos e a rua estreita que me levava ao flanco direito de Notre-Dame onde tinham de esperar, ao entardecer, que passassem dezenas de adolescentes de patins em linha em direcção às largas ruas adjacentes, para que me encontrassem e me arrastassem depois para o rodopio da vida.

 

Não lhes sei o nome.

 

Já não lhe sei o nome. 

Sei que tinha um café minúsculo, sem esplanada, onde entrava e me deixava ficar a ver passar Paris pequena e saltitante.
Tinha um quiosque colorido e uma rapariga gorda a cantarolar as cores.
Tinha montras quadradas e homens cúbicos.
Tinha um travo de Brel e um sabor a Piaf.
Tinha-o a ele. Esguio e magro, como um aranhiço. Vinha sentar-se à minha mesa. Tinha olhos pretos e livros presos nos dedos de marfim.


- Je suis tombé d’amour! Maintenant mon seul poème sera écrit par tes bras. Je resterai seulement avec les mots que tu me donneras. C'est suffisant! il est suffisant pour que je respire. Je peux mourir après ton départ.

 

Rue de Monceau onde por perto pairou Proust?

 

Lembro-me depois da textura da mesa no Les Deux Magots, a mesa de Sartre e de Genet, mas é difusa a minha memória do meu aranhiço que de negro vinha, réstia lapidada de existencialismo, falar-me de desolação, porque o Inferno era eu, que não o amava.


Há dois dias que penso que Paris é um rapaz esguio e magro, de dedos de marfim e corpo de aranhiço, com livros nos olhos pretos e boca que agora queria minha.

 

Estou aqui como se estivesse apenas a aguardar as emboscadas da memória.

Nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde já partimos.

 

A colmatar este vale de imagens, a minha escrita a verter saudade, a entupir de amor todo o hardware.

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