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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num almoço caseirinho

rabiscado pela Gaffe, em 07.10.15

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A mulher traz agora as chaves presas à cintura e faz chocalhar o braçado gordo sobre o avental de pano cru com bordadura colorida na bainha. Herdou-as por mérito e velhice. Engordou de orgulho e ganhou um brilho seguro nos olhos pequenos e piscos.

 

Gosto desta mulher, embora saiba que nunca esta mulher poderá gostar de mim. Entre as duas há um socalco sem vinhas ou a intransponível distância lavrada por arados demasiado diferentes. O dela tem estrelas recolhidas pela terra, o meu não conhece terra e de estrelas ouviu falar apenas.

 

Serve ao meu pai batatas e bacalhau cozido. Rega-as com azeite e mistura um alho migado e uma gota de vinagre de cidra. O ovo rola oleado no prato de porcelana antiga. Enche o copo com vinho maduro e fica à espera, erguida na poderosa posição de cuidadora do senhor, dono do seu mundo.

 

Atenderá os outros depois.

 

A minha irmã, sentada à direita do homem já servido, vai debicar folhas de alface, com estilhaços de bacalhau seleccionados e arrefecidos, tiras de cenoura crua, quadrados minúsculos de tomate, pó de salsa e rodelas finas de ovo cozido. A mulher aproxima o galheteiro do animal quieto. Um fio fino de oiro desce. A minha irmã sorri.

 

O meu rapagão não escolhe nada. Limita-se a recolher no prato o que lhe dão, com a indiferença azeda dos grandes resmungões e espera tamborilando a impaciência na toalha branca. Gosta muito da mulher e revolta-se contra a seriedade dos seus gestos e a passividade inútil com que os recebemos. Jamais entenderá a raiz do tempo aqui. 

Procura disfarçar o embaraço de se ver sentado em frente da minha irmã, a única que o pode assassinar apenas com um dito.

 

A mulher serve-o de forma igual à do senhor da casa. Entre os dois homens foi criada uma cumplicidade com terra na boca. Uma cumplicidade inquebrável. A que é feita de distâncias e de afastamentos, construída na luta renhida que dura tardes a fio e com campo de batalha nos modos de alterar a terra, de tratar dos bois e dos cabritos, de preparar vindimas, de cuidar árvores de fruto e de escolher adubos para que as novas hortênsias abram cor de sangue.

 

A mulher serve sem saber o almoço a três figuras densas, espessas e potentes, quase antagónicas.

Quando os deuses escolhem juntar os paradoxos, a vida inteira treme de surpresa.

A mesa está servida. O jogo que comece.

 

Eu? Eu sirvo-me sozinha. Os olhos comem.

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