Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem pensos

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.15

Sobrevivência.jpg

A Gaffe lê com alguma curiosidade a descrição do Kit que permite sobreviver à Moda Lisboa.

Repara com alguma perplexidade na presença de pensos rápidos e no alerta seguinte, muito cuidadoso - que já nos bastou Rodrigues dos Santos -, para os pés.

 

A Gaffe compreende as meninas que trincam barras de chocolate enquanto se esbardalham todas de um lado para o outro, desenfreadas, rotas, suadas e descabeladas, dispostas a arrancar os dentes a quem as fizer perder o Luís Buchinho ou uma amostra de perfume - uma rapariga tem de fazer pela vida -, mas fica curiosa quando descobre, através dos conselhos dados, que talvez existam pensos rápidos destinados a outras funções que não o alívio do dói-dói.

 

A Gaffe assistiu ao mais recente - desastroso e desconexo - desfile de Galliano, que a deixou deprimida e a lastimar que este rapaz talentosíssimo não tenha conseguido sair do café onde tombou de bêbado ofensivo, mas não teve notícia de desacatos pindéricos com visões de cremes baratos, não testemunhou insultos primários à elegância mais básica e não assistiu a algazarras de virgens na primeira vez na montanha russa.

 

A Gaffe sempre considerou que um desfile começa no glamour dos convidados e finda necessariamente com o allure de estrelas da plateia. Jamais será perfeito se os convidados chegarem de sabrinas, com os calcanhares infectados e um penso demorado nas cuecas.

 

Na foto - Chegada das bloggers de moda à Moda Lisboa. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe no fim da vindima

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.15

 photo fim de vindima_zpshcelugvj.gif

Ao almoço, no Douro do fim das vindimas, a mesa de toalha branca, luminosa, enche-se de vozes.

 

As janelas são rasgadas, abertas, veludos afastados, presos por argolas de ferro e ferrugem. Despojada da sombra, a luz vem tímida tocar o barroco do centro de flores e de frutos. 

As mulheres fazem tilintar talheres que desconhecem, pratos e sopeiras, molheiras, galheteiros, jarros e garrafas velhas de cristal. Há tremuras no ar e rodopios do vento dos aventais bordados. Há correria e nervoso, resmungos das velhas e murmúrios das outras. Um homem sorri, gengivas sem dentes, ao ver passar a pingadeira, onde o arroz fumega depois de servir de base ao cabrito. Escaldou os dedos à mulher blasfema.

Os estilhaços de copos de tacão alto fazem tremer a mais novinha, criança ainda, desengonçada e loira. Que saia daqui que só atrapalha! Que saia dali, com cabelos loiros e olhos de amêndoa, a menina tonta que largou o copo de cristal antigo e pé de cegonha nas tábuas do chão.

 
Corre, corre, corre que chegam os homens!

Corre, correr, corre que entram na sala e a senhora não está para os receber!

Corre, corre, corre que tens de a chamar!

Corre, corre, corre, menina que parte os copos antigos. Não vás a chorar.  


Os homens almoçam na mesa coberta por toalha rara. Os homens já falam. Perderam o medo dos talhares confusos e dos copos altos raiados pelo vinho. Perderam o medo da menina rica vestida de azul ao lado do irmão com olhos da cor do vestido dela. Aquela a que chamam, num sussurro ínfimo, menina de fogo e que lhes pisca o olho sempre que se enganam e que troca os garfos como eles os trocam ou que principia antes de os trocarem para não haver mais trocas na mesa.  


Corre, corre, corre, corre e rodopia, menina de fogo! Vê muito depressa como tudo é claro.

Roda, roda, roda e vai ver num instante como tudo é simples nos olhos dos homens que trazem toalhas de linho e bondade pousadas nas almas, de linho lavrado, estendidas frescas num tempo passado.

 

Não vás a chorar.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD