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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe "machona"

rabiscado pela Gaffe, em 14.10.15

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Quando a visita chegou, foi recebida amavelmente.

Uma senhora atarracada com um ar matreiro e manhoso. Por me parecer sem interesse, ignorei o olhar analítico que me lançou de soslaio. Vinha, salamaleques, visitar a minha avó que a recebeu com a gentileza fria de quem não aprecia as minúcias e as manigâncias dos pequeninos acontecimentos do lugarejo e da missa.

 

Entrou e apresentou-o:

- Creio que ainda não conhece o meu neto.  

Levanto os olhos e atiro-me para a poltrona. Observo. Não há grandes distracções neste lugar!

 

O rapazinho não tem mais do que dezoito anos - ou tem, mas não aparenta. De raquete de ténis numa das mãos, aperta a minha com a outra, amolecida, deslizante, empapada e de palhinha.

Tem o rosto redondinho e branco, com olhinhos que evitam os meus, mas que procuram de esguelha o corpo do rapagão ao meu lado distraído. Rabinho grande, com nádegas roliças, apertadas numas bermudas de camuflado que deixam os tornozelos ao alcance dos meus olhos. Coloca o pé esquerdo para dentro quando anda, o que faz com que o rabo bamboleie desagradavelmente e o bracinho abana delicado, enquanto segue a mãe pelo salão. É baixinho e redondo, branquinho e quase anafadinho. Niquento, feminino, com a consistência de uma lula. Entremeado como a carne branca que a cozinheira prepara para esturricar.

 

Evita-me e eu insisto. Observo-o implacavelmente. Quero que saiba que eu já entendi o bambolear do braço da raquete, o mover bochechudinho das nádegas fofinhas e a inclinação da cabecinha que se move delicadamente num desdém suspeito de adolescente tonto, pronto a afastar os dedinhos brancos com um disfarçar do asco que distorce o lábio, enquanto a senhora lhe entrega o chá.

 

O mocinho é tímido e bem informado. Actualizado. Sabe o que passa nos desfiles que segue pelas revistas caras e conhece de cor a cor que se usa e os pormenores das colecções Dior. Adora Galliano e ama, deslumbrado, as sedas Chanel. Habita-lhe Gucci os sonhos mais leves e despreza Dolce por não querer Gabanna. Gosta de raquetes, mas não joga bem para não desfazer a pose de virgem e beberrica o chá com tostas de cuscas. Recusa olhar de frente para mim, mas sinto-o iluminado quando o rapagão se move. A mim não me quer, o bem-me-quer fresquinho.

 

Irrito-me.

 

Nunca entendi aquela hesitação. Nunca compreendi muito bem aquele mimetismo. Nunca percebi a estrutura do sentir que faz um rapazinho mimar uma donzela casta, apenas porque um corpo masculino se estatela no espaço e lhe invade os olhos. Não entendo o mecanismo que produz esta espécie de híbrido irritante e descabido. Não consigo evitar pensar que são eles - meninos iguais a este que salta snobismos de meninas queques, periquitando de asinhas abertas pelo chão da vida -, que traçam os riscos que correrão depois, deixando nos outros a sensação azeda da imperfeição mais tola e minando de uma forma inútil a estatura certa dos homens que amam outros homens certos.

 

Foi jogar comigo. Deixei-o vencer e disse depois, com voz de catarro, mimando o mais macho que consigo encontrar, que o borbulhante mocinho jogava como um homem rijo e de barba cerrada.

 

Amuou e foi-se. Roliço rabinho de nádegas moles.

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A Gaffe lusíada

rabiscado pela Gaffe, em 14.10.15

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Perante uma miserável edição de Moda Lisboa, onde a plateia colava pensos rápidos nos calcanhares e as sabrinas funcionavam como amortecedores parolos da falta de talento e de dinheiros dos desfiles, a Gaffe resumiria tudo a um suspiro de lamento contido, se não encontrasse no meio da desgraça a colecção de Nuno Gama.

 

Absolutamente fascinante.

 

Com raiz nos Lusíadas, a sucessão de viagens oníricas que rumaram ao Oriente, à Ásia e a África, o apresentado por Nuno Gama é um exercício de inteligência, de talento e de maturidade.

Nada foi descurado e o perfeito jogo de cores, de texturas, de formas, de padrões, de recortes, de evocações, de insinuações, de sombras e de jogos de luz, de humor refinadíssimo, de traços subtis de memória, de evocações e de pormenores - são belíssimos os origamis nas lapelas e as borlas das faixas nas cintas – entregam à colecção um cunho internacional que, havendo suporte financeiro e máquina publicitária em condições, faria corar de vergonha Galliano que foi catastrófico nesta estação.

 

A Gaffe sugere que na próxima edição de Moda Lisboa se dê lugar ao talento e à inteligência, resumindo tudo a Nuno Gama.

 

O resto não vale nada.

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