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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe assustadíssima

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.15

gaffe.jpg

 

A Gaffe recebeu uma inusitada visita de anónimos que acharam por bem deixar por estas Avenidas palavras sábias de aconselhamento.

Destaca dois, porque os pseudónimos que escolheram albergam um je ne sais quoi de poético, remetendo-nos para impérios bizantinos ou recambiando-nos para a decadência de Leste.   

 

O Teodoro, comentador esporádico de alto gabarito, declarou saber o que nós - A Gaffe supõe que o plural é majestático - precisamos. A necessidade apontada poderia claramente ser suprida pelo Teodoro - que deve já ter o que sabe que nós precisamos cravado no rabinho há algum tempo - não fossem as nossas exigências de qualidade, a nossa capacidade de resistir à náusea, o prazo de validade e a urgência de microscópio para avaliarmos o estado de conservação.

Caríssimo Teodoro, o menino jamais conseguirá vislumbrar aquilo que uma mulher precisa. Há homenzinhos, elegantíssimo Teodoro, mui nobre e valente comentador, que nem com o advento do sonoro são capazes de participar no filme de uma mulher.

A impotência torna-se ainda mais amolecida quando supõe que aos outros faz falta o que não se consegue dar.

 

A Ivana afirma que os portugueses não estão interessados na verborreia da Gaffe.

Uma verdade. Uma cósmica verdade.

A Ivana considera interessante vir dizer à Gaffe que os portugueses não têm interesse no que a Gaffe diz. A Ivana, como anteriormente se insinuou, nasceu no estrangeiro.

Aconselha, a Ivana, como paliativo, que a Gaffe arranje uma vida, já que não tem que fazer.

A Gaffe sempre sentiu que o verbo arranjar lhe soa a trabalho, a suor e a lágrimas. Prefere continuar a não ter que fazer e sugere à Ivana que siga este trilho. Deve ser desgastante, sábia seleccionadora, ter de pensar todo o instante em dizer apenas o que os portugueses estão interessados em ouvir, como patrioticamente provou que faz.

 

A Gaffe previne os seus comentadores incógnitos que comprou um cãozinho. Não é propriamente uma fera a temer, mas adequa-se à conjuntura presente, aos interesse de Portugal - dos pequeninos -  e a estatura dos interlocutores anónimos desta rapariga necessitada e sem nada para fazer.

 

Béu-béu-béu.

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A Gaffe e a fashion adviser

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.15

Paul Kwilecki, 1967.jpg

O que é uma "fashion adviser"?

 

A Gaffe que tem dedicado uma minúscula parte do seu tempo a procurar saber em que consiste esta amostra de ditadorzinho de trapos e, entre variadíssimas hipóteses que surgiram, colheu três que lhe pareceram as mais interessantes e que mais se coadunam à função.

  

1 - Uma fashion adviser é uma criatura que recolhe informação díspare e disparatada, sem critério, sem nexo e sem orientação definida, proveniente de uma quantidade de revistas da especialidade que convém ter à mão para recortar e recordar os pormenores, as peças, os acessórios e toda a parafernália infernal que consegue memorizar e que recomenda com insistência a gente que, invariavelmente, jamais os deveria usar, mas que acredita que será reconhecida pelos valetes, duques e damas de um baralho parecido com o de Alice.

Acreditando, ou não, no que faz, no que diz e no que aconselha, tem sucesso garantido junto de um público que não dá um passo se suspeitar que o tacão não apareceu destacado na Vogue ou que a aprovação da sua conselheira não lhe foi concedida, porque a criatura está em Milão a fotografar - istagram, de preferência.

 

2 - Uma fashion adviser é aquela criatura que não consegue perceber que o que vê nos corpos de manequins e de modelos - há diferenças - com mais de 1.80 de esqueleto, por muito fashionable que seja, não encaixa nos seus clientes mais mortais.

 

3 - Uma fashion adviser é uma galinhola com uma capacidade invejável de se levar a sério e que consegue adquirir algum capital social e bastante do outro - mais palpável -, fazendo acreditar que, sem ela, nada à superfície do planeta que use um trapo apenso, é de conveniência considerar humano.

 

Há hipóteses mais rebuscadas, mas a Gaffe confessa que não se quer maçar muito. É entediante esta rapariga esperta perceber que jamais terá o espampanante título de fashion adviser. Não há nenhuma que tenha um blog com um padrão de pijama foleiro como pano de fundo.

 

Fotog de Paul Kwilecki

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Gavetas:

A Gaffe extravagante

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.15

Piaf.jpg

As sardinheiras vermelhas vieram de Espanha, encomendadas pelo meu avô.  
Chegaram num camião em vasos pequenos.  
- São a minha extravagância.  
Explodem nas estações quentes. Com folhas do tamanho de nenúfares. Dentro de bolas verdes, bolas vermelhas de flores, como os vermelhos que deveriam ser os de todas as bandeiras.  

 

E a mulher debulhada em lágrimas.  
- Deixa-a, minha querida. Tem saudades.


Eram podadas no início do Outono, as sardinheiras espanholas. Quando os jardineiros municipais começavam a decepar os ramos das árvores nos jardins dos parques da cidade.  
O meu avô cortava-as rente.  
- São a minha extravagância.  
Para que explodissem depois multiplicadas.  

 

E a mulher que não se cala.

- Deixa-a, minha querida. São saudades.


Ficaram por podar, as sardinheiras espanholas. Com os ramos torcidos e esqueléticos. As sardinheiras espanholas que chegaram em vasos pequenos. Dão-se em todo o lado.  
- Plante-as e vai ver como se espalham num instante.  


E os ganidos da cadela … e o choro debulhado da mulher.  
- Deixa-as, minha querida. Há lágrimas que dão sentido à vida.  

 
Ontem, com a tesoura que ele usava, podei as sardinheiras espanholas. Cortei-as rentes, em bisel, como ele me ensinou.  
São agora a minha extravagância.

 

Na foto - Piaf por Jean-Philippe Charbonnier

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