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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe angolana

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.15

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A Gaffe considera um disparate que o querido Ministro dos Negócios Estrangeiros – a Gaffe deu conta agora que existe - vá visitar Luaty Beirão, o belo rapagão luso-angolano que está de dieta.

É um absurdo fazer deslocar um velhinho a um hospital apenas porque um fotogénico mocetão decidiu emagrecer sem consultar um nutricionista. Se a excepção for permitida, teremos - quando António Costa decidir o que fazer com os resultados das eleições - todos os membros do governo a beijocar anorécticos.

 

Seria de todo mais conveniente que Luaty Beirão se candidatasse ao programa apresentado pela Bárbara Guimarães onde se esbardalham obesos. É verdade que a apresentadora, dada a sua experiência pessoal, teria mais credibilidade no show onde se torturam concorrentes enquanto os pobres cantam, mas não é de rejeitar ser recebido pelas mamocas de uma das mais cotadas vedetas da televisão portuguesa, seja em que porcaria for. 

 

A Gaffe não aprova que o seu elegantíssimo José Eduardo dos Santos seja responsabilizado pelos distúrbios alimentares de uma população que necessita de controlo, como o caso nos parece confirmar. Arranjarem-se desculpas esfarrapadas para justificar uma dieta sem a supervisão do Dr. Póvoas é inaceitável. A anorexia não pode nem deve ser um berbicacho do governo.

 

Embora a Gaffe perceba que uma visita do seu querido Ministro dos Negócios Estrangeiros não abre o apetite a ninguém - suspeita mesmo que contribui para o aumento da população bulímica - e pese o facto da viagem não se perder de todo - tendo em consideração que pode ser aproveitada para uma actualização do governo português relativa ao estado do rabo e das botas do Presidente angolano -, obrigar um velhinho a penar largas horas de voo só para dar um ar de graça portuguesa numa visita de cortesia, é inaceitável.  Que vá o Paulo Portas. É mais resistente, mais vivo, de submarino não se cansa tanto e pode no fim dizer que não foi.

 

A Gaffe sabe que, como diria Chanel, uma mulher nunca é demasiado magra nem demasiado rica. Luaty Beirão já devia ter aprendido que o conceito também se aplica a rapazinhos como ele. Afinal emagrece onde o controlo dos pesos é efectuado pela mesma entidade que controla as contas bancárias.

 

ilustração - G. Haderer

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A Gaffe presente

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.15

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O momento de enlevo poético da semana foi da responsabilidade de um querido amigo, pai há três meses, que na tarde de início de mantas nos joelhos e paisagem avistada da varanda de chá quente e biscoitos de manteiga, se derreteu:

- O meu filho fica horas completamente absorto a olhar as folhas das árvores a oscilar.

A imagem de um bebé pasmado com o bulício do Outono silenciou a temperatura e fez aparecer sorrisos mudos de ternura nas testemunhas da narrativa poética do desabrochar bucólico do petiz.

O momento, que fez parar o tempo, estilhaçou-se quando a minha prima, monocórdica e de olhar fixo, decidiu que tinha também de partilhar connosco o seu transportamento:

- Não me lembro se desliguei a torradeira.

As conversas rebobinaram de imediato e o barulho do chá e das bolachas reiniciou a tarefa de amornar palavras.

 

No entanto, o episódio desperta algum interesse.

 

No olhar pasmado do bebé há nada mais do que o Presente, porque nada é mais do Presente do que um bebé a olhar as folhas das árvores. Esta sabedoria de se olhar simplesmente é apanágio dos recém-nascidos e dos velhos. Perde-se no meio.

O desespero com que corremos para o futuro, impede que nos lembremos se desligamos a torradeira, ou, como me aconteceu em tempo que já lá vai, no meio da viagem não me lembrar se me tinha calçado convenientemente antes de sair ou se carregava no acelerador com uma pantufa de Inverno.

A capacidade de olharmos é substituída pela vontade de ver o mais depressa possível. O futuro, a noção que dele temos, porta-se como um vórtice de ansiedades e de antecipações que aniquilam a nossa capacidade de olhar as coisas, atenuando até ao limite do suportável os instantes que por nós passam no presente, mas que não julgamos contributo para o futuro. Valorizamos e iluminamos em demasia o objectivo a atingir e descuramos por completo o quotidiano que, imerso numa sombra forçada, não é sentido como meio ou ferramenta que permite o alcançar do projectado.

Vivemos com pressa de chegar, não perdemos tempo, como se a nossa vida esperasse muito lá ao fundo.

 

O olhar que vive no Presente é apenas a sabedoria do bebé pasmado com o oscilar das folhas de Outono, no momento exacto em que elas oscilam, e do velho que se vai hipnotizando com o arrulhar dos pombos no rolar dos grãos de milho que naquele instante vão tocar o chão.

 

Nós vendamo-nos para correr.      

 

Foto de Albarrán Cabrera

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