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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas escadas de Montmartre

rabiscado pela Gaffe, em 20.10.15

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Nas escadas de Montmartre. Éramos quantos?


Ao cimo das escadas de Montmartre o café escolhido tem redondas mesas.


A altivez da minha irmã. A invulgar beleza da mais estranha mulher que em Montmartre havia. Serpente e tigre fêmea, devastador cataclismo, punhal perverso. Vinha e calavam-se os pardais com medo. O vento erguia-se só para espalhar o perfume preso nos gestos que, contidos nela, tinham o gume das facas, a corrosão do ácido.


A minha prima a explodir. O corpo em carne atenta, em carne arguta. Carnívora e estouvada nas caçadas. Estilhaçava as ruas com o sorriso. Paris rendida, pousava-lhe nos braços bouquets de homens perfeitos. Mulher que não convém aos jantares de gala, porque surge e desvia o rumo do ar que é respirado, sorvendo tudo e todos com o riso.


A minha amiga, branca, branca, branca de alabastro e de olhar verde, cabelos de oiro antigo, mel, madeira. Travessas, travessões, frisados e ondulados, pentes e tranças, ondas, caracóis, madeixas e revoltas, espirais, motins, insurreição. A Renascença inteira no cabelo. Doía de tão profundamente bela!

Andavamos de gôndola branca sob colchas escarlate das varandas, sempre que sorria.

Para agudizar a densidade do mistério, a pairar sobre ela, a eterna suspeita de um incesto.

Exilada em Florença, branca e loira, gelo branco, recolhia as mais dolorosas rosas das mãos dos homens morenos desprezados enquanto na cama antiga de lençóis com rendas o esguio e pálido irmão, nu, adormecia.

 

Há segredos pousados no pescoço dos deuses que fazem da vida um perfeito romance.


O irmão dela. Demasiado alto, demasiado magro e aquilino. O oiro pálido dos cabelos a tapar-lhe os olhos reféns dos da irmã. O fio do ciúme a atar-lhe o movimento, incestuoso e cúmplice. Falava de poetas e amordaçava todas as palavras com os dedos brancos e perigosos.


O meu Amigo, o único latino! Menino só. O único perdido em moreno denso. Meridional rapaz com o mar no peito. Igual ao marinheiro da BD. Herói igual àqueles que ele amava em tiras e palavras desenhadas.  Pedro, o gigante. O Czar das nossas vidas.


E eu, a ama-los!


Éramos quantos nas escadas de Montmartre? Há quanto tempo?!


Figuras soltas na arena de Montmartre a ignorar, voláteis criaturas na tenda colorida, que no circo da vida, Paris é um palhaço.

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