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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe traída

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.15

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Haverá vida depois de uma traição?

A questão não é trivial, básica ou mesmo inconclusiva. Atinge uma enorme quantidade de gente que se vê de súbito sem chão e sem tecto, suspensa da surpresa de se sentir o outro ou a outra quando sempre acreditou que era a origem e o fim de todas as emoções que povoavam o coração que agora se descobre ser infiel.

Não é fácil lidarmos com o facto de percebermos que a metamorfose que se opera em nós é o inverso da das borboletas. De um fabuloso insecto alado e colorido, embainhamos a alma e passamos ao estado de casulo. Mas não é impossível enfrentarmos o facto de, nesse casulo, a membrana que nos separa do exterior correr risco de ruptura, perfurada pelos aguçados chifres mafarricos que ostentamos na testa metafórica.

 

É evidente que a Gaffe já foi traída. Na altura, ficou afásica e posteriormente catatónica. Recolheu-se na cela da sua mais profunda desilusão e decidiu que jamais voltaria a acreditar em quem quer que fosse, sobretudo se o quem quer que fosse tivesse barba e outros atributos mais esconsos, dignos de fazer perder a transmontana a uma rapariga mais incauta.

Neste estado, acabou por evitar a todo o custo aproximações mais ou menos subtis de promessas interessantes e credíveis.

Voltar a acreditar é como beber um café que ficou frio. Jamais terá o sabor do Expresso acabado de servir, mesmo que esse Expresso seja o da meia-noite. Ficamos sempre com a sensação de que nele foi cometido um crime e que o cadáver se transformou em borra no fundo da chávena.     

 

Sair deste estado de letargia emocional leva algum tempo, mas há sintomas de progressos que não devemos ignorar e que não passam pelas tradicionais fases descritas nos manuais da especialidade.

A Gaffe detectou que começar a observar com algum gelo o exterior da rival é um belíssimo sintoma. Se o interior da dita fosse objecto da sua atenção, significaria que a procissão ainda estaria no adro e o sacristão sem badalo.

A capacidade de olharmos os detalhes e os pormenores mais imbecis de quem foi causa directa da nossa perda é caminho feito para a consumação do fim da mágoa de nos sentirmos traídas. Se Deus está nos pormenores, a indiferença também. Talvez por isso tenhamos a sensação que as duas entidades muitas vezes se confundem.  

A Gaffe se vê passar a rapariga por quem foi trocada, não entra em coma, não vai desenfreada lacrimejar para uma esquina da vida, nem sequer lhe salta à memória os momentos de enlevo romântico que o traidor lhe entregou um dia.

A Gaffe olha para a carteira da ladra e pensa que preferia usar um saco de colostomia e descobre de imediato que é apenas no amor que é permitido roubar.

 

A Gaffe foi traída num passado longínquo, gelado entretanto.

 

A fidelidade da maioria de nós tem raiz no medo. Somos muitas vezes fiéis por cobardia. 

 

A Gaffe sorri, traída há muito tempo, e faz esvoaçar caracóis ruivos.  

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A Gaffe num reencontro

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.15

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Uma nuvem tinha-se estilhaçado no chão, alguns minutos antes, e a luz torna as pedras platinadas e adensa a cor das árvores.

 

O carro entrou pelo portão secundário, camuflado. O único que acede ao átrio principal já que o primeiro, de ferro e rendilhado, foi bloqueado e não permite a entrada do ronco de motores.

A minha irmã, vertiginoso abismo de impaciência, estica as pernas longas e de vidro. Pousa nas lajes a dormência e o simulado cansaço dos Prada de verniz nocturno e avança sem evitar as gotas pesadas que tombam dos ramos dos teixos e lhe mancham a seda Cerruti do casaco.

A minha irmã não obedece ao tempo. Ignora-o.

Procuro a mão da minha avó. A senhora oferece-ma para que a ajude a rever o amigo, no cimo das escadas.

De cabelo branco e ondulado, e tailleur azul, daquela cor marítima dos olhos que afunda os barcos ou os atira contra o canto das sereias.

A minha avó sorri e espera. A sua mão presa na minha. O meu gigante que a senhora espera, vem alongando o passo ao nosso encontro e tudo se reduz no seu caminho.

 

A minha avó fecha os olhos. A mão na minha mão aperta.

 

- Os olhos dele! Como estão sós agora, os olhos dele! – Diz-me em surdina.

 

O meu gigante beija-lhe a mão solta e nunca aquele gesto foi tão fácil, porque tão perfeito.

A senhora liberta a mão que eu agarrava e pousa-a na barba escura de corvos do meu Amigo.

 

- Ah! Já como o reconheço agora, meu caro! Perdemo-nos os dois num lugar longínquo.

 

O homem gigante sorri. Fica perplexo.

 

- Os seus olhos, meu caro. Cruzei-me há muito tempo com o seu olhar, num tempo de navalhas e de perdas. A vida já olhou para mim com os seus olhos.

- Talvez por isso, Senhora, eu tenha reconhecido o seu perfume.

 

A nuvem, estilhaçada no chão, faz de platina as pedras.

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