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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe estupefacta

rabiscado pela Gaffe, em 30.11.15

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Há muito mais de uma década que não via o Maurice.

Lembrava-me de um miúdo enfezado, de óculos grossos, frágil e quebradiço, magrinho e enfiado numa timidez que o empurrava para longe das primeiras filas. Um Ribeirinho bonsai facilmente esquecido em todas as actividades que se foi habituando a evitar. Se entrássemos numa sala onde a o Maurice estava, saíamos afirmando que não estava lá ninguém.

 

O Maurice é agora engenheiro físico e o mais recente companheiro de labuta do meu irmão que decidiu que a saudade dos tempos idos nos colégios velhos tinha de ser amenizada pelo abraço do mais acanhado dos seus representantes.

 

É corriqueiro sentirmos, quando somos surpreendidos ao encontrar alguém que não víamos há muito tempo, que o avanço da idade foi implacável, desfazendo os traços de vitalidade que o nosso interlocutor retinha outrora. A velhice parece ter infiltrado os dedos na pele, sulcando e secando a luminosidade juvenil e instalando exércitos em redor da cintura. Esquecemos com alguma displicência que a mesma sensação, em relação a nós, está desperta na vítima que julgamos caquéctica e apodrecida.

A minha expectativa em relação ao encontro com o Maurice era uma desgraçada vadia e pouco digna.

 

Foi então que o Maurice surgiu do passado.

 

Depois de ter andado à procura dos queixos que me caíram e rolaram pelo declive da minha estupefacção, consegui controlar a gaguez que me assolou e desenhar o sorriso mais imbecil das últimas décadas.

O Maurice transformou-se num dos homens mais atraentes que vi em toda a minha vida!

O homem é abslutamente lindo!

Músculos perfeitos por todo lado – e é fácil supor que também naquele em que estamos todas a pensar –, um sorriso repleto de encanto - derretemos ao vê-lo abrir clarões quando o sentimos -, uns óculos magníficos por onde espreitam dois lagos que de tão escuros prometem afogamentos certos, uma voz cava, rouca de se morrer logo ali, umas mãos grandes e elegantes prontas a manipular todos os nossos sonhos mais travessos e uma juba negra e ondulada onde nos apetece rugir ou fazer surf e um dos rabiosques mais bem desenhados que foi dado ver a estes olhos parvos e esbugalhados.     

 

- Ah! Estás tão diferente! - A estupefacção pode paralisar o cérebro.

 

- Tu estás igual. – Em francês não soa mal, mas tendo em conta que eu era uma trinca espinhas sardenta e desengonçada, com um incêndio descontrolado na cabeça e muito pouco que se lhe diga, conclui rapidamente que o Maurice insignificante da minha infância continuava escondido naquele corpanzil de se perder a cabeça.

 

Não há nada mais desanimador do que se perceber que aconteça o que acontecer há coisas que não mudam.  

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A Gaffe nazi

rabiscado pela Gaffe, em 27.11.15

Fabien Alleau.jpg

O génio de Leni Riefenstahl, condenado e ostracizado pela sua descarada ligação ao regime nazi, é inquestionável, porque comprovado pelas obras de uma vida extraordinária que importa conhecer. É discutível fazer perecer ou tentar a todo o custo ignorar, abolir ou apagar da história, um talento fora de série, porque esteve ao serviço da desumanidade.

 

Mas não é de Leni Riefenstahl que se fala aqui e se a realizadora e fotógrafa extraordinária aparece referenciada, é apenas porque este maravilhoso menino, Fabien Alleau de sua graça, surge fotografado em pose que com certeza poderia ser captada pela censurada moçoila.  

 

A Gaffe lamenta não o conseguir apanhar em películas diferentes, mesmo tentando ser toda ela objectiva.

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A Gaffe em linha recta

rabiscado pela Gaffe, em 27.11.15

Chema Madoz.jpgAfirmar que por aqui se movem mulheres cuja escrita é de primeira água, carece de comprovativo.

É exactamente por isso que me socorro de Cristina Nobre Soares.

Em Linha Recta é uma colecção de histórias curtas que se erguem do chão com uma limpidez e uma claridade de pasmar e que nos deslumbram criando perfeitas imagens de gente comum com estrelas. Nenhuma das palavras escolhidas está a mais, nenhuma nos falha e todas pertencem com uma inevitabilidade inesperada a textos que recorrem tantas vezes ao brilho que mascaramos de banalidade, ao marasmo do quotidiano redimido ou àquilo que nos passa despercebido porque pairamos acima da vida dos outros.

Imprescindível conhecer o talento literário de Cristina Nobre Soares.

Corram mesmo que não seja em linha recta e façam o favor de a aplaudir de pé.

 

Imagem - Chema Madoz 

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A Gaffe viajante

rabiscado pela Gaffe, em 26.11.15

Lee Miller in Paris c.1944.jpg

A minha avó marca a folha do livro com um postal ilustrado antes de o fechar e erguer os olhos.

Abre depois a cigarrilha em prata. O fumo do cigarro esparso, no aposento.

A minha avó sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.

 

- Minha querida, se decidiste partir, tens de saber que nenhuma estrada te vai levar para lá de ti. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.

 

Há lágrimas nos olhos da minha avó.

O fumo. Ah!, o fumo.

 

- Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos, minha querida, a não ser por dentro.

 

O fumo, avó! O fumo.

 

- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.

 

Do livro fechado, um postal que tomba. A página perdida.

Paris, anos 40.

 

Na foto - Lee Miller - Paris, 1944

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A Gaffe angustiada

rabiscado pela Gaffe, em 25.11.15

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O dia emudece preso nos vidros duplos das janelas.  

Lá fora a minha Avenida fria passa por mim e entra no meu peito. Desenho no vidro da partida projectada a saudade que chegou precipitada. Sempre adiantada, a saudade em mim!  

O meu retorno a Paris não está agendado para breve, mas a minha irmã, ultrapassando todos os limites do razoável, começou, na semana passada, a insistir na urgência dos preparativos, esgravatando toda a minha vida, debicando os grãos de milho que mais lhe agradam. Vejo-a possuída pelo espírito da ordem e do método, a tentar ajudar-me a fazer as malas numa antecipação absurda, com a calma de quem está habituada a embalar a vida dos outros - a minha pequena vida pronta e recolhida nas Louis Vuitton que me emprestou - e enquanto a olho, arquitecta de viagens planeadas, descubro a indiferença que me invade a alma e sei que na mala não cabe o coração que não encontro, porque se afoga na saudade do mar que vejo em frente.


O contraste entre a azáfama nervosa e irrequieta da minha irmã e pacatez e absoluta indiferença do meu rapagão perante a partida combinada, chega a ser curioso, mas acorda em mim a nota mais subtil da angústia certa.

 

De olhos ternos e mãos nervosas, o rapagão senta-se comigo. Aproxima-se e sussurra leve ao meu ouvido:

- Eu vou contigo.

Enfureço-me. Descontrolo-me. Encarniço-me. Insurjo-me.

 

A minha alma pasma, não só porque a notícia me incomoda e me faz sentir responsável por fazer perigar a estabilidade do homem, todos os projectos que custaram tanto erguer da terra que até dói, mas porque me vejo a ser sincera na revolta.

- Não é por tua causa que decido. É por minha causa que vou. Descobri que era impossível ir e vir todos os dias e que não posso deixar de olhar para ti a todo o instante.

Depois, escondendo as palavras com os dedos, desviando os olhos doces e sorrindo meigo e calmo, acrescenta como quem suspira:

- Deixar de olhar por ti a todo o instante.

 

O que fazemos nós quando nos pousam nas mãos o Universo?!

 

Imagem - Keridwenn

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A Gaffe empatada

rabiscado pela Gaffe, em 24.11.15

CS.jpgA Gaffe considera pertinente que o senhor Presidente da República tenha exigido a António Costa seis garantias de qualidade e de sucesso governativo, mas lamenta que o senhor Presidente não tenha exigido ao mesmo tempo a António Costa o preenchimento dos testes da Cosmopolitan ou da Máxima. São igualmente conclusivos e neste caso particular muito mais significativos, tendo em conta que, pelo menos, nos permitiriam saber se o homenzinho socialista consegue acompanhar o senhor Presidente na malhinha que vai tricotando com o tempo dos portugueses.

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A Gaffe proibitiva

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.15

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Temos de concordar. Há algumas particularidades, algumas migalhinhas, que nas mulheres monumentais ficam como jóias, mas que as baixotas não podem nem devem usar. A Gaffe enumera algumas, pois em solidariedade é muito alta.

 

Vestidinhos de noite com decotes profundos e rabonas
Nunca! Uma baixinha não pode usar uma coisa destas. Vai parecer que ainda o não vestiu por completo e que o pano que falta em cima está a arrastar em baixo. Se o vestido brilhar, então o perigo aumenta. Vão pensar que a frigideira dos ovos salpica óleo incandescente.

Penteados muito elaborados 
O sonho é ter uma bela cabeleira, muito Hayworth, muito Jessica Rabbit. Errado! Uma baixota com uma trunfa hollywoodesca parece que só começa a partir do rabo. Quanto maior for o caracol, maior vai parecer a anca.

Bijuteria espalhafatosa
Erro imperdoável. Umas rodelas nas orelhas e as baixinhas parecem um DJ já no fim de noite. Um colar mais maciço e são confundidas com degredados do século XIX a caminho das galeras. Uma carteira do tipo mala de viagem, por muito Prada que seja, faz dela servente de supermercado a arrastar batatas. Para além de fazer mal à coluna, uma baixinha tem de ser desencarcerada depois.

Tacões agulha de 12 cm
Os sapatos levam-nos a nós, nunca o contrário. Se cair, é certo, uma baixinha está mais próxima do chão, mas corre o risco de espetar o estilete na testa que fica nas imediações.

Casaquinhos de peles
Artificiais, porque as verdadeiras causam impressão - Jamais! a não ser num chá de caridade onde a baixinha se torna um bule felpudo e fofinho.

Saias rodadinhas
Inadmissíveis. Lembram-se das praias em dia de ventania? Os guarda-sóis espetam-se até ao tutano. Lembram-se dos piqueniques bucólicos de infância? Os cogumelos que por lá havia!
 
Risquinhas horizontais
A não que se queira parecer obesa ou aderir à liga anti-anorexia, estão desaconselhadas.
 
 
Em resumo, e para ficarmos por aqui de forma a não esgotar o espaço das proibições gordurosas, vestidinhos claros ou saias travadinhas, cabelo curto ou muito garçonne, discretas bugigangas, sapatinhos rasos, casaquinhos de malha fina sem xadrez ou riscas.

Uma pobreza!
 
Nota de rodapé - A Gaffe decidiu espetar diminutivos sempre que falar de trapos 

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A Gaffe ao frio

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.15

Buster Crabbe, 1934.jpg

O homem colocou os sacos no chão. São de plástico e abrem-se quando escorrem os pacotes de arroz e de açúcar, pesados. Abrem-se lentamente como se derretessem. O homem é velho. Tem uma samarra com uma gola de pêlo daninho e calças de fazenda suja. Tem meias de lã grossa e chinelos de quarto acabados e rotos.  
Espera o autocarro e não sabe que eu o estou a ver a apanhar do chão uma beata que o homem que esperava o autocarro anterior cuspiu ao entrar. Acende um fósforo que se apaga. Está frio. Não sabia que o frio apagava fósforos. Pensava que só o vento que vem do mar consegue apagar as chamas. Depois, um outro fósforo. Desta vez, com a mão em concha, o homem reanima o pedaço de tabaco. Suspira ou penso que suspira. Talvez seja apenas o movimento do sorver do fumo.  


Quando chegar o autocarro, o homem vai lançar a beata ao chão depois de arrancar uma última baforada. Vai apanhar os sacos que se abrem e arrastar os pés enfiados nos chinelos de quarto roto e suspirar. Desta vez tenho a certeza, vai ser um suspiro. Vai empurrar a mulher de saia azul e blusa de malha castanha que está junto dele. Vai empurrá-la para chegar primeiro. Vai subir curvado de samarra com gola de pêlo rançoso e espalhar no banco ao lado do que escolheu para se sentar, os sacos que se vão outra vez abrir e derreter. Vai ficar calado e olhar pela janela. Tossir de vez em quando ou escarrar para um lenço encardido que traz no bolso. Vai cheirar mal. Ele e o arroz dos sacos.  


Quando o autocarro chegou, o homem segurou os sacos, cuspiu a beata e empurrou a mulher de azul e de castanho. Quer chegar primeiro. Ao subir, curvado e de samarra com pêlo desfeito, perdeu um dos chinelos de quarto. A meia de lã grossa tem uma cor cinzenta. Voltou a descer e a mulher de azul e de castanho ultrapassou-o.  
O homem deixou partir o autocarro. Pousou os sacos no chão, sentou-se e suspirou.

 

A Vida na paragem do autocarro.

 

Na foto - Buster Crabbe, 1934

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A Gaffe com destinatário

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.15

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Em 17 de Janeiro de 2014 escrevi comovida o que agora reproduzo.         

 

Meu querido amigo,

 

Queria tanto pedir-te desculpa por não ter sido aprovado o direito à adopção plena por casais homossexuais que me sinto humilhada por não o conseguir fazer condignamente.

Quero que saibas que não sou representada por ninguém, onde quer que seja, que ousa e se atreve a pensar ter o direito de ordenar que se elaborem leis que te entram pelo coração desarvoradas e te apertam a garganta com medo, como tu apertas a tua filha contra o peito para a protegeres da irresponsabilidade que é interferir no amor.

Quero que saibas que, se tu quiseres, me caso contigo e que adopto a vossa filha e que me divorcio depois para casar com o teu companheiro que adoptará comigo a vossa filha e que me divorcio dele logo depois para que finalmente a vossa filha seja "legal".

Vamos tramá-los.

Quero que saibas que estou a chorar um bocadinho, mas não quero que te preocupes. Vai passar quando vos vir chegar como há seis anos, os dois, de alcofa inundada pela Felicidade que nunca mais vi explodir de forma tão perfeita.

Quero que saibas que eles ignoram que nenhum afecto é referendável, que nenhuma lei se sobrepõe à capacidade humana de criar um filho e que tu e o teu companheiro se vão fazendo pais da vossa filha pelo caminho que o meu pai e a minha mãe já percorreram.

Sou heterossexual - nunca to disse! - e ruiva e tu és homossexual - nunca mo disseste! - e tens os olhos pretos mais profundamente paternais do universo.

 

Creio que hoje começa a não fazer sentido o que foi escrito, mas convém gravar na pedra que as construções, sobretudo as mentais, necessitam da consciência plena do passado para que, empunhando essa ferramenta, se erga sólido o que se quer construir para o futuro. 

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A Gaffe e as escritas

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.15

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A quantidade de mulheres que por aqui escrevem de modo tão agradável! Os blogs estão cheios delas e escolher é uma tarefa difícil e sem fim à vista.

 

É interessante como me aborrecem os escritos dos homens, principalmente os que me falam de política ou fazem complicadíssimas análises do que se vai passando. Entediam-me sobretudo aqueles que dissertam - ainda! - sobre os recentes atentados de esquerda à democracia e os que fazem rebuscadas análises literárias. Estes últimos dão sempre a sensação que não retiraram prazer nenhum do que leram, preocupados que estavam em encontrar os recursos linguísticos que foram usados pelo autor. Na grande maioria são homens. As mulheres que leio são mais intimistas. Mais reservadas. O quotidiano é sempre filtrado por uma visão bastante límpida, com um pudor harmonioso nas palavras. São discretas e, na maior parte das vezes, muito claras.


Não acredito na escrita no feminino ou escrita feminina, como lhe queiram chamar, como também não acredito em bruxas, mas que há à flor da net um timbre de mulher, isso é inegável. Orgulho-me disso. Leio com muitíssimo maior prazer o que é escrito por uma mulher. Esta minha atracção, muito mais que feminista, se é que alguma vez o foi, é quase lésbica. Sou uma lésbica literária. Os homens escreventes, donos de blogs elaboradíssimos, a abarrotar de pensamento e ideia, provocam-me uma espécie de morrinha que, como toda a gente sabe, é uma antítese da excitação. Tenho a impressão que na cama, na hora da verdade, sacam do bloquinho, do bloguinho, e começam a dissecar o que nunca aconteceu nem, pelo andar da caneta, vai acontecer. Ao ler as mulheres que escolhi para ler, apetece-me sempre meter-me na cama com elas, ficarmos ali muito quentinhas, porque descubro que temos sempre muito para dizer e que aquilo vai durar pela noite fora. Se isto não é lésbico no seu melhor, então sou a Rainha Vitória e nego tudo.

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A Gaffe avermelhada

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.15

by Pete Zelewski

Às vezes as minhas avenidas são brancas. Outras vezes reflectem-se nos olhos e ficam com as cores de quem as olha.

Hoje, as minhas avenidas são ruivas e dentro delas há homens a soletrar as cores que dentro deles encontro.

Espero que o sonho tenha a cor ruiva dos homens ou destes homens ruivos que revejo.

 

red! )

 

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A Gaffe e as raridades

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.15

O que entrega a um homem uma sensualidade arrasadora, um desesperante apelo contido num desejo, a inolvidável voluptuosidade que nos deixa tombadas e a babar, não é por obrigação o resultado das horas de ginásio.

Há uma nuance que inicia a diferença entre um belo e musculado atleta bronzeado, de sorriso matador e olhos sem fundo que se aviste, capaz de nos levar ao céu cumprindo todas as nossas fantasias menos confessáveis e a quase brutalidade animal do homem que, satisfazendo os preceitos anteriores, é capaz de os aliar a uma capacidade milagrosa de nos fazer sonhar.

São raros e difíceis. Não tocam a banalidade corriqueira dos primeiros.

 

Exemplifiquemos com alguns detalhes:

 

- Não usam diminutivos quando se apresentam. Não são o Zé Tó, o Tó Manel, o Juca, o Pi, sobretudo quando a este diminutivo acrescentam o superlativo absoluto de inferioridade - o Beto ou o Cacá.

 

- Não nos chamam fofinha ou bebé ou outra barbaridade similar, porque sabem que não temos paciência para imberbes com saudades da mãe.

 

- Não falam ininterruptamente acerca das suas proezas inacreditáveis, porque sabem que queremos falar das nossas e que jamais acreditaremos no tubarão que lhe mordeu a prancha, quando adivinhamos que a prancha que possuem não é sequer digna da atenção de um chicharro.

 

- Não usam Hugo Boss. Preferem os aromas que escolhemos só para eles, indiferentes às notas altas que emanam no instante em que pressionamos a tampinha.

 

- Não arranjam as sobrancelhas, porque, para além de já existir para lamentar o sobrolho de Cristiano Ronaldo, sabem que um franzir de sobrancelha masculina tem de ser convincente e não parecer que pertence a uma dona de casa já entradota com um passado doméstico e um presente domesticado por novelas sucessivas.

 

- Não passam por nós de tanga colorida e exígua. Conhecem o valor do que trazem escondido e não se arriscam a fazer tombar inanimado o nosso entusiasmo quando se viram de costas.

 

- Não nos dão palpites triturantes acerca das imbecilidades com que nos deliciamos, nem nos olham como se não soubéssemos que os pindéricos berloques que usamos ao pescoço são os mais idiotas acessórios que a Mãe Terra e os seus amados filhos produziram.   

 

- Não atiram ácido retroactivo à ex-Presidente da Assembleia da República - rapariga esperta, sempre com ar de quem acaba de se erguer do leito matinal após uma noite mal dormida, com enxaquecas na coligação e um delicioso e discreto problema de dicção - pelo facto de ter tido um dia um ataque de histerismo e desatado a soltar metáforas muito pouco adequadas, citando Beauvoir como se a sartriana figura francesa fosse parva ou como quem quer arrasar a Amazónia à força de perdigotos.

 

- Não trazem o nó da gravata solto e lasso, numa imitação rasca da descontracção que produz exactamente o efeito contrário, nem usam ténis misturados com fatos de três peças quando são convidados para o casamento do ano. Aliás, nunca são convidados para nada e em ano nenhum, a não ser quando concordamos com o calendário ou o convite é o nosso.

 

- Não batem a porta do carro emproado com a força máscula dos deuses, para logo em seguida se agacharem à procura das mazelas deste gesto e não nos acusam, em momento algum, de largarmos migalhas de bolachas - com pepitas de chocolate - nos estofos ou teimarmos em ouvir Sinatra aos berros, só para evitar ouvir falar de novo nos gritos vencedores de Michelle Brito.

 

- Não perguntam se gostamos dos momentos que antecedem o cigarro que nos provoca náuseas disfarçadas, porque sabem que vamos mentir, não confessando que gostamos muito mais.

 

- Não nos fazem peso com o braço pousado nos nossos ombros durante uma conversa com um amigo só deles, como se fossemos cabides ou expositores, almofadas de descanso ou ortopédicas, porque desconfiam que esta indiferença nos leva a apreciar em surdina as qualidades mais visíveis do interlocutor desconhecido.

 

- Não amuam quando beberricamos a nossa preguiça sem sequer mordiscar com o canto do olho o esplendor bronzeado dos seus peitorais curtidos por sóis de paragens idílicas, porque a tez morena é devida apenas ao esforço dispendido ao sol para tentar salvar um bicho qualquer em vias de extinção, mesmo que o bicho nos meta um medo tenebroso.   

 

Existe um rol imenso de características apensas a este homem de sonho, sendo a principal, a mais luminosa, a mais deslumbrante e avassaladora, a paixão imensa que sente por ruivas de caracóis soltos e enlouquecidos. É o único que sabe que uma ruiva é um sol poente: Não provoca escaldões e cria sempre as paisagens mais apetecidas.

 

É tão raro e difícil como um deus.

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A Gaffe no Coliseu

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.15

Utah Penitentiary, 1889.jpgRodrigo Leão, com o coro e orquestra Gulbenkian, ontem no Coliseu, foi uma enorme desilusão.

Uma entrada falsa com o som do piano do compositor alterado e riscado como um vinil encontrado no lixo, anunciou a perda da sonoridade inconfundível de Rodrigo Leão que é engolido pela orquestra, diluído pelo coro e pelos arranjos incaracterísticos que se encarregaram de tornar o concerto igual a outro qualquer de um bom compositor que se descuidou.

Uma sonoplastia deficiente do princípio até ao fim; uma escolha de imagens projectadas no fundo do palco que nos faz crer que estamos perante o monitor de um PC em repouso; um microfone demasiado fechado que transforma a voz de Selma Uamusse num som audível apenas de quando em vez; o apagar de Celina da Piedade misturada aos trambolhões na orquestra; uma linguagem melódica, poética, única, mas perdida e um público que sente o acidente, aplaudindo sem grande entusiasmo.

 

Valeu a pena ouvir André Barros, o compositor que chega da Islândia para oferecer a Rodrigo Leão e a uma plateia expectante, três composições para piano que, infelizmente, agudizaram a desilusão que chegou logo a seguir.    

 

Comprovando a minha decepção, a meio do concerto dou comigo distraída a pensar que Rui Moreira está cada vez mais elegante.

 

Uma noite friorenta, sem estrelas, que nos fez sentir que deve ser mais surpreendente o coro da prisão.   

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A Gaffe a partir pedra

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.15

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 Estive há dias na apresentação de uma obra literária.

O autor não é um dos meus favoritos, embora o leia com prazer e deslumbre, mas é sempre uma experiência fantástica poder estar junto de um criador, ouvindo-o dissertar sobre tudo e sobre o nada.

Na mesa engalanada para a ocasião, à direita do autor, encontrava-se um cavalheiro sisudo, professoral e a prometer um discurso intrincado e inacessível aos menos literários e literatos. O lado esquerdo era ocupado por Maria do Rosário Pedreira.

 

Não discuto – como o ousaria fazer?! – a qualidade literária da autora, reconhecida como grande poeta pelo centro de todas as atenções daquela noite, mas posso divagar sobre o ocorrido.   

 

Depois de apanhar a palavra, Maria do Rosário Pedreira esteve cerca de trinta minutos a falar. A falar dela. A falar apenas dela. A falar só dela.

Ficamos a conhecer o seu percurso profissional. Ficamos cientes do reconhecimento unânime do seu mérito. Ficamos a par das suas hesitações existenciais, logo sanadas pelos intelectos que sempre a cultivaram. Ficamos convencidos da sua inteligência e das suas qualidades de grande impulsionadora da criatividade literária e ficamos vergados perante o seu antigo gosto pelo ensino – atenuado agora, é certo - e pela sua competência nos processos de descoberta de um autor. Ficamos tristes com a sua tristeza que surge do facto de reconhecer que os originais que lhe chegam às sabedoras mãos carecem do fulgor de outrora.

Ficamos esclarecidos. Ficamos comovidos. Ficamos impressionados.

Maria do Rosário Pedreira dedicou somente o último minuto da sua intervenção ao autor que, com a benevolência que apenas os amigos conseguem ter, a ouvia com uma atenção imerecida e, mesmo nesta altura, apenas se congratulou por ser a sua editora e por ter o mérito de sempre o ter lido e o orgulho de o ter apoiado.

Bateram palmas a Maria do Rosário Pedreira.

Ficamos todos a suspeitar que Maria do Rosário Pedreira devia ter sido a homenageada.     

 

Decidi sair. Fiquei sem ouvir o senhor que se seguia - pela idade, prometia um currículo bem mais extenso do que o da senhora - e perdi a vontade de ouvir o autor.

 

Há momentos em que basta o sopro de um ego para apagar as velinhas do jantar.

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A Gaffe intimíssima

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.15

Levada pela onda mais íntima, mais intimista e mais subtil, recordo-vos, rapazes, que nunca é anacrónico o uso da singlet branca, tão vintage, sob uma camisa imaculada, fleumaticamente clássica, presa nas calças irrepreensíveis onde a ausência propositada de cinto nos faz acreditar que, nos elevadores, rasgais à dentada todo o conjunto para fazer surgir super-heróis.

 

Não é uma actualização de Donald Draper - quem o quer actualizado?! -, mas inicia um processo bastante curioso nas nossas almas felinas e faz-nos desejar com ardor colaborar nas dentadas.

Pode não ser, não tem que ser, parte dos universos anunciados nos desfiles de futuras estações, à espera que surja no final o criador agradecendo com vénias estudadas, mas quem se importa?!

 

Há elementos que permanecem intemporais quando se fala de beleza, de elegância e de inteligência e, recordo-vos, a sensualidade pode ser apanágio de qualquer colecção iluminada, mas a ilícita volúpia que se esconde nas sombras daquilo que se torna sensual, não é passível de ser reproduzida em plástico ou reconstruída pela ideia criadora.

 

Encontramo-la apenas, de surpresa, brutal e avassaladora, num canto qualquer das nossas vidas.

 

Na foto - Grief por Erwin Olaf

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